
Gustavo Poli
O personagem desta semana é a goma de mascar. Ela, que pareceu tão
genial e inspiradora na semana passada, teve uma péssima tarde de
domingo em Nova Jersey. Não conseguiu produzir seus fluidos criativos.
Não pôde hipnotizar o treinador adversário. Ela ficou ali, sendo mascada
por Carlo Ancelotti como um chiclete anódino, por 100 longos minutos.
Cabia a ela trazer ideias diferentes. Ou inspirar algum tipo de energia
numa equipe que pareceu completamente apática durante toda a partida. A
seleção brasileira assistiu à Noruega tocar a bola durante quase todo o
jogo como se fosse espectadora de seu próprio filme. Talvez tenha sido o
calor — mas como a marcação pode soar tão distante, tão frouxa?
Por muito tempo, o Brasil pareceu um chiclete velho, cansado, já sem
sabor de tão mastigado pela boca treinadora. Com toda sua experiência,
não sabia Ancelotti que escalar Martinelli enfraqueceria a já porosa
marcação de nosso meio-campo — e deixaria Odegard desfilar em campo?
Como explicar uma seleção tão pálida, tão morosa, tão passiva? A
tradicional tranquilidade de Ancelotti, aquela incrível capacidade de
acertar em silêncio, pareceu se transformar em falta de energia. A
estrela do técnico se apagou sob o sol americano — e a atuação abaixo da
crítica da seleção talvez só tenha sublinhado o fim de um ciclo
terrível. De um time que só gerou alguma esperança durante a Copa.
Essa esperança se construiu em alicerces frouxos. Escócia e Haiti são
times fraquíssimos. O insosso Japão só foi derrotado no último minuto. A
fé vinha justo e apenas da sensação de que o Brasil como zebra poderia
surpreender.
Foram anos caóticos do Brasil e da CBF — com uma roleta de treinadores e
cartolas — e uma safra de jogadores sem grandes laterais nem meias
criativos. Ancelotti tentou usar a experiência para construir o escrete
possível — e deu azar de perder Paquetá quando seu time ameaçava
encaixar.
E ontem, pela primeira vez, o Brasil enfrentou uma seleção que tinha
jogadores de primeira prateleira do futebol mundial. Haaland e Odegard
resolveram o jogo para os noruegueses — porque são ótimos. Ambos seriam
titulares aqui.
Ainda assim, o Brasil teve suas chances. Foram algumas e muito boas. E
aí o chiclete encaminhou Ancelotti para o engano. Lançou Endrick — que
perdeu o gol cristalino, o gol imperdível. E a seguir lançou Neymar. O
Brasil, que já marcava pouco e longe, passou a marcar ainda menos. Meio
Brasil pedia Neymar. O que Neymar produziu em 30 minutos?
No mar de marasmo do segundo tempo, talvez esqueçamos do pênalti
perdido, do chute de Vinicius que o goleiro defendeu com o pé, do lance
de Martinelli que o goleiro salvou quase sem querer, do cruzamento de
Casemiro no fim, da incrível bola na trave. Esse lance, por si só, nos
anunciou, ecoando outro tempo: não era o dia do futebol brasileiro.
Por fim, Neymar se despediu da seleção com tristeza, perdendo tempo
para discutir com o goleiro norueguês antes e depois de bater o pênalti
inútil — e chorando arrasado no gramado.
Em nosso vídeo de despedida, essa imagem é editada com a caminhada de
Ancelotti ao fim do jogo. De terno escuro, colete e gravata pretas, ele
cruza o gramado, ergue Vini Junior e em passo lento segue. A goma de
mascar está no fim — e ele penetra no derradeiro vestiário como o
coveiro involuntário de seu próprio funeral.
O Brasil não perdeu por causa de Ancelotti. Mas ontem o treinador
pareceu amorfo como seu time. E uma seleção amorfa e anódina... talvez
nos machuque mais que a própria eliminação.
O GLOBO