LEONARDO SAKAMOTO
Se há alguém que celebrou, intimamente e em silêncio, as revelações do Intercept Brasil sobre o pedido de milhões de Flávio "Irmão, estou e estarei contigo sempre" Bolsonaro ao banqueiro Daniel Vorcaro é o senador Ciro Nogueira.
Com 134 milhões de razões, o presidente do PP e amigo do primogênito de Jair, teve um respiro de alguns dias após a operação da Polícia Federal contra ele, no dia 7 de maio, revelar investigação sobre uma mesada de até R$ 500 mil que ele receberia de Vorcaro. Em troca, teria feito favores ao Banco Master no Senado. Naturalmente, os holofotes saíram de cima dele e foram para o pré-candidato à Presidência da República.
Muitos apostavam, porém, que Flávio Bolsonaro não tardaria em copiar o padrão comportamental de seu pai que, diante de adversidades, não hesitava em largar aliados à beira da estrada.
Em entrevista à GloboNews, após o escândalo dos milhões pedidos por ele a Vorcaro, Flávio foi questionado sobre o envolvimento de Ciro, um dos principais apoiadores de sua candidatura, no caso Master. Disse que a hipótese que havia sido aventada de tê-lo como seu vice foi apenas um "gesto", que o senador "não tinha perfil" para a vaga e que ele "é acusado de coisas graves e vai responder" e que, se Deus quiser, provará a inocência.
Mas tratou de largar o amigo no acostamento, sem um triângulo, uma chave de roda ou um macaco: "Pelo amor de Deus, não misturem alhos com bugalhos. Estão comparando lata com diamante. Não tem nada a ver uma coisa com a outra". Fica a dúvida: quem é a lata e quem é o diamante?
Questionado por Júlia Duailibi sobre a emenda que beneficiaria o Master ao ampliar o teto do FGC e havia sido proposta por seu aliado Ciro, Flávio respondeu: "O que eu tenho com isso?"
Um naco dos políticos da direita no Congresso viu as declarações como Flávio largando a mão de Ciro. Ironizaram dizendo que Lula, ao contrário do clã Bolsonaro, não joga companheiros investigados ao mar com tal facilidade.
O sossego do presidente do PP não durou muito, uma vez que ele voltou a ser lembrado nesta sexta, com a Operação Sem Refino, da Polícia Federal, que atingiu o ex-governador Cláudio Castro no Rio de Janeiro. Jonathas Assunção, que foi o número dois de Ciro Nogueira na Casa Civil na gestão de Jair Bolsonaro, teria recebido R$ 1,3 milhão da Refit.
A empresa pertence a Ricardo Magro, também alvo da operação, apontado como o maior sonegador de impostos do Brasil. Ele, que teria causado um dano de R$ 52 bilhões, teve sua prisão decretada pelo STF, mas mora nos Estados Unidos. Lula já pediu a Trump para mandá-lo de volta.
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Ciro Nogueira, que sobreviveu aos escândalos do Mensalão e da Lava Jato, não vai chorar se outras bombas continuarem caindo na estrada de Flávio Bolsonaro, pelo menos por enquanto, se isso lhe trouxer paz. Já que o amigo não o quer mais como carona...
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