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    segunda-feira, setembro 27, 2010

    Manara: Catecismo Italiano





    Rodin por Manara: um dos originais do desenhista que virão para mostras no Rio e em SP


    por Télio Navega

    Em 1993, enquanto Bill Clinton assumia a presidência os EUA, Nelson Mandela recebia o Prêmio Nobel da paz e Itamar Franco governava o Brasil, ocorria, pela segunda e última vez, a Bienal de Quadrinhos do Rio de Janeiro. Muitas idas e vindas depois, a cidade volta a receber um grande evento do gênero, o Rio Comicon, que acontecerá de 9 a 14 de novembro, no Ponto Cultural Barão de Mauá — Estação Leopoldina.  

    E a lista de convidados tem no topo um mestre do quadrinho erótico, o italiano Milo Manara, em sua primeira visita ao Brasil. Ele trará mais de cem de seus originais, que serão expostos no local do evento e, depois, seguirão para uma mostra em São Paulo, no Instituto Tomie Othake. Manara conversou com O GLOBO sobre sua vinda ao país e as parcerias quadrinísticas com Federico Fellini (“Viagem a Tulum”), Hugo Pratt (“Verão índio”) e Alejandro Jodorowsky na série “Bórgia”, cujo quarto e último número sai este ano, na França

    . — A exposição será grande e heterogênea, tentará dar uma visão geral do meu trabalho, desde os quadrinhos até as ilustrações para imprensa e propaganda, com um olhar particular sobre minhas colaborações com Fellini — revela o autor, nascido há 65 anos, na cidade de Luson. — Além de uma série de ilustrações de filmes, serão expostas as pranchas de “Viaggio di G. Mastorna, detto Fernet” (projeto nunca realizado por Fellini) e também a história “Senza titolo”, que realizei em homenagem a ele como grande diretor. Foi ali que nossa parceria começou. 

       

    Segundo Manara, o trabalho com Fellini (que aparece ao lado, de costas, em desenho que reproduz uma cena de "A doce vida") foi muito diferente do realizado com Pratt e Jodorowsky:

    — No caso da parceria com Pratt, o “diretor” era eu, no sentido de que eu era totalmente livre para imaginar a cena que ele escrevia. No caso de Fellini, ao contrário, o “diretor” era, obviamente, ele, que tinha o controle total das histórias. Os dois foram pessoas extraordinárias, dois maestros fundamentais para minha vida e meu trabalho. E continuam sendo. Com Jodorowsky, além de ser uma colaboração que surgiu num momento de maturidade profissional para ambos, nos encontramos somente algumas vezes. E todo o trabalho em “Bórgia” foi feito à distância, de maneira diferente da relação que eu tinha com Pratt e Fellini
    .

    Ao lado de conterrâneos como Guido Crepax, de “Valentina”, e Paolo Serpieri, de “Druuna”, Milo Manara foi responsável por elevar o quadrinho erótico ao status de arte, com mulheres voluptuosas e loucas por sexo:  

    — É graças à Barbarella de Jean-Claude Forest, à Jodelle de Guy Peellaert, e à Valentina de Guido Crepax que nasceu meu amor pela HQ. Infelizmente, os quadrinhos eróticos não têm mais a mesma força. Hoje, somos cercados, quase bombardeados, por imagens e mensagens “pornográficas” em qualquer contexto. Inclusive no telejornalismo, onde a quantidade substituiu a qualidade. Então é normal que, para o grande público, o erotismo tenha perdido parte de seu atrativo.

    Terceiro número de "Bórgia" e "Kama Sutra": mais recentes livros publicados no Brasil

     
    Mesmo já tendo produzido uma série polêmica como “Bórgia” e álbuns sexualmente ousados, com orgias, estupros, zoofilia e até uma versão em quadrinhos do “Kama Sutra”, que sai em breve pela Conrad, sua editora no Brasil, Manara diz que nunca sofreu qualquer tipo de censura. Ou quase. 

    — Pode parecer estranho, mas nunca fui censurado — esclarece o autor, que lançou cerca de 50 álbuns em 41 anos de carreira e viu sua obra se transformar até em desenho animado patrocinado por marca de desodorante. — Pelo menos não de maneira evidente ou de forma que me obrigasse a mudar parte de minhas histórias ou desenhos. O único exemplo de censura foi a interdição de alguns dos meus livros por parte do governo da África do Sul, no tempo do Apartheid, mas dessa censura me sinto orgulhoso. 
     

    Como ilustrador responsável por algumas das personagens mais bonitas e curvilíneas dos quadrinhos, será que Milo Manara está preparado para a beleza da mulher brasileira?  

    — Acho que nunca se pode estar preparado para a beleza das mulheres, muito menos das brasileiras! Brincadeiras à parte, estou muito feliz de ir ao Brasil e de poder aproveitar, como inspiração, claro, as mulheres. Tenho certeza de que a “mulata carioca” poderá fazer parte de minha próxima aventura desenhada.  

    A organização da Comicon caberá à mesma editora que criou a Bienal de Quadrinhos do Rio de Janeiro na década de 90 e que, atualmente, produz o Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte: a Casa 21, dirigida por Roberto Ribeiro. 

     — Quando fizemos esse tipo de festival, em 1991, não havia tanto público nem tantas editoras — explica Ribeiro. — Acredito que o local do Rio Comicon será um ponto de convergência entre a Zona Norte e a Zona Sul. E a estação do metrô Cidade Nova, prevista para o mês que vem, ajudará no fluxo de pessoas. A ideia é fazer o Rio Comicon anualmente e manter o FIQ. 

     Com apoio do Consulado Geral da França e do Instituto Italiano di Cultura, o Rio Comicon terá debates, oficinas, vídeos, exposições e convidados nacionais e internacionais. Destes, vale destacar os nomes de ingleses como o ilustrador Kevin O’Neill — parceiro de Alan Moore na série “A Liga Extraordinária” — e o escritor Paul Gravett. Ou de franceses como Etienne Davodeau e Killoffer. Enquanto que Lucas Nine e Patricia Breccia virão ao Rio para discutir a influência da obra dos pais, respectivamente Carlos Nine e Alberto Breccia, em seus trabalhos.

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