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    quarta-feira, julho 15, 2026

    Ao contrário da Laranja Mecânica e da seleção de Telê, França de 2026 será lembrada como o time que não perdeu como jogou

     



    Thales Machado

    Algumas seleções se tornam eternas pelo título. Outras, pela maneira como o perderam. A França de 2026 terminou estranhamente no meio dessas duas coisas. Jogou durante quase um mês como quem merecia ser lembrada, mas se despediu no único dia em que não conseguiu ser ela mesma.

    O presente sempre sai em desvantagem quando disputa espaço com a memória. A Holanda de 1974 nos chega em laranja, bonita e revolucionária, livre dos erros e das discussões da manhã seguinte. O Brasil de 1982 atravessou o tempo sob o sol de Sevilla, com Sócrates, Zico e Falcão congelados na melhor versão de si mesmos. O passado já vem editado. 


    A França ainda está em carne viva. Vimos na tarde texana cada passe errado, cada escolha de Deschamps, cada vez que Mbappé se viu cercado. Mas vimos também, entre a estreia brilhante contra Senegal e o protocolar baile diante de Marrocos, um time que, enfim, jogou à altura de seu talento. Depois de anos administrando uma fortuna, Deschamps abriu o cofre. Mbappé, Dembélé e Olise jogaram juntos. A França correu, atacou, fez gols e transformou abundância em futebol.

    Não inventou uma nova forma de ocupar o campo, como a Holanda. Não concentrou um sonho nacional de beleza, como o Brasil de Telê. Seu encanto era menos profundo, mas nem por isso menos verdadeiro. Estava na velocidade, no excesso de opções, na sensação de que qualquer ataque poderia terminar em gol. Mesmo com o título de 2018 e o vice de 2022, foi a melhor França de Deschamps porque parecia a menos preocupada em ser uma França de Deschamps.

    Mas faltou a derrota. Faltou a Dallas um quê de Sarriá.

    A Holanda perdeu a final sem deixar de ser a Holanda. O Brasil caiu diante da Itália atacando até quando o empate lhe servia. Nos dois casos, a derrota confirmou o time, aumentou sua beleza e ofereceu à memória uma última cena à altura do resto.


    A França saiu de outro modo. Contra a Espanha, não morreu atacando, não caiu empurrando o adversário, não fez o apito final demorar a chegar. Foi dominada e passou sua última noite procurando o futebol que exibira durante toda a Copa.

    Não será um mito. Será uma saudade com a última imagem errada. A Espanha não apagou o que a França jogou, mas ficou com o direito de encerrar o filme. E, na memória, o fim costuma mandar no resto.

    O GLOBO 


    foto odd andersen


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