Por que a França não consegue encarar a Espanha?
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Carlos Eduardo Mansur
Talvez a forma mais sucinta de responder seja constatar que a Espanha é a seleção mais preparada no mundo para fazer o tipo de jogo que mais deixa os franceses desconfortáveis. Quando se joga contra um time com tanto poderio ofensivo, algumas tarefas precisam ser cumpridas. E, nos últimos encontros, os espanhóis realizaram tudo o que era necessário.
Foi assim na Eurocopa de 2024, na Liga das Nações do ano seguinte e, agora, na semifinal da Copa do Mundo. Quem quiser derrotar a França precisa entender que a presença de Mbappé, Olise, Dembélé e Doué (ou Barcola) condiciona o que acontece em campo. Defender perto de seu gol significa deixar a bola muito tempo com jogadores extremamente capazes, técnicos e hábeis e que, embora gostem de atacar espaços em velocidade, podem romper uma defesa mais recuada. Por outro lado, tentar atacar e perder a bola é um pecado mortal.
Quando jogadores vitais no sistema atingem seu melhor nível, a Espanha é capaz de impor um nível de controle que incomoda a França. Porque fica com a bola, obriga os adversários a defender por mais tempo que gostariam e leva o jogo para perto da área protegida por eles. Além disso, quase sempre conclui seus ataques, mesmo que sem perigo. Ou seja, é uma posse que tenta construir jogadas de gol ou evitar perdas que originem contra-ataques. A ideia é evitar que o quarteto ofensivo (em especial Mbappé, Barcola e Dembélé) possa acelerar com espaço à frente.
Nesta Copa, a semifinal foi a primeira vez em que a França lidou com um rival disposto a tirar dela a rédea do jogo. E o fez, primeiro, pela forma como atletas vitais se apresentaram. Rodri, a cada partida do torneio, aproxima-se mais do meio-campista eleito melhor do mundo há dois anos. Ganha duelos e dita para onde e como o jogo vai fluir: além de passar a bola, é responsável por controlar o ritmo dos ataques, determinar a hora de pausar e acelerar. Fabián Ruiz é um meio-campista total, de combate, passe e ataque ao setor ofensivo. E a linha defensiva foi brilhante para lidar com a ameaça permanente dos franceses, com o bônus chamado Cubarsí — aos 19 anos, um zagueiro com um repertório de passes digno de um veterano. Quanto a Lamine Yamal, é notável que a Espanha renda tão bem sem tê-lo como elemento de desequilíbrio, o que não significa dizer que esteja jogando mal.
É bom ressalvar que o futebol é um jogo de margens pequenas. Basta um lance para mudar o destino. No começo, a França ameaçava escapar da pressão espanhola. Rabiot se posicionava bem para ligar ataques, mas havia uma inesperada imprecisão dos homens de frente. Até que um lance meio acidental, fora do roteiro, resultou no gol de pênalti de Oyarzabal.
Atacante que recuava para ser mais um meia, ele representou um dos motivos do domínio espanhol dali por diante: a superioridade no centro do campo. Rodri, Ruiz, Olmo, o recuo de Oyarzabal e, por vezes, a presença de Baena deixavam Tchouaméni e Rabiot em inferioridade. Sempre havia um espanhol livre para atacar ou conservar a bola. Isso cortava o circuito entre o meio-campo francês e seus atacantes.
No intervalo, Deschamps decidiu tirar o amarelado Rabiot. Era uma escolha difícil: evitava uma possível expulsão, mas não preenchia o meio, que precisava de um homem a mais. A Espanha seguiu dominando. Na origem do segundo gol, outro exemplo: ainda no campo defensivo, Rodri achou Olmo como homem livre. Com o 2 a 0, a tarefa foi mover a bola, tirar ritmo da França e evitar surpresas. Afinal, quem tem Mbappé sempre mantém uma partida viva.
A Espanha finalista é um time melhor do que aquele que iniciou a Copa. Mas nunca uma surpresa. É, ao seu jeito, uma das grandes seleções nos últimos anos.
O GLOBO


