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  • O BRASIL EH O QUE ME ENVENENA MAS EH O QUE ME CURA (LUIZ ANTONIO SIMAS)

  • Vislumbres

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    Fragmentos de textos e imagens catadas nesta tela, capturadas desta web, varridas de jornais, revistas, livros, sons, filtradas pelos olhos e ouvidos e escorrendo pelos dedos para serem derramadas sobre as teclas... e viverem eterna e instanta neamente num logradouro digital. Desagua douro de pensa mentos.


    domingo, julho 12, 2026


     

    Ideia da seleção como alma da brasilidade perdeu sentido

     

     

    Marcos Augusto Gonçalves

    A ideia do futebol, em especial aquele apresentado pela seleção, como uma espécie de expressão da nacionalidade, da alma brasileira e das capacidades e características do país já cumpriu seu papel. Houve um momento histórico, ao longo do século 20, que o nobre e rude esporte bretão ganhou novos contornos entre nós, como observaram alguns de nossos intérpretes –o mais recente e fulgurante deles, José Miguel Wisnik, em seu livro "Remédio Veneno".

    Praticamente reinventado por certa prontidão e jeito brasileiro de atuar, o futebol —parafraseando Wisnik— disse muito, com sua linguagem não-verbal, sobre algumas de nossas forças e fraquezas mais profundas, ajudando a ver sob outra luz questões centrais da formação e da identidade brasileiras.

    De alguma forma Pelé, Garrincha, Didi, Romário e tantos outros coreografavam em campo as possibilidades de um país imaginoso, intuitivo e ao mesmo tempo eficiente e vencedor, que estaria construindo uma nacionalidade original, criativa, antropofágica e mestiça. Era o mesmo ethos nacional que se desenhava no território das artes, no samba, na bossa nova, na literatura, na arquitetura, no teatro.

    Pois bem, tudo isso aconteceu. Não foi uma ilusão. Esses tijolos foram colocados. Pelé, João Gilberto, Tom Jobim estão lá. Fazem parte de nossas fundações, mas não voltarão mais. Não faremos novamente "Chega de Saudade", assim como os americanos não vão recompor seus gloriosos standards.

    Hoje, como sabemos, aquele ethos nacional está em crise, senão sob ataque, num ambiente em que pensar o futuro do Brasil é problemático.

    Embora tenhamos nos habituado, ver no desempenho futebolístico da seleção uma promessa ou um fracasso de nação já não faz mais sentido. A repetição desse padrão fora de época transformou-se num modo de estabelecer relações mecanicistas entre performance futebolística e performance do país. Jogamos mal, é culpa de nossa incompetência intrínseca como sociedade.

    Na realidade, deveríamos hoje considerar o futebol com menos implicações na configuração da alma e dos resultados objetivos do Brasil.

    Estamos numa época em que acompanhamos um esporte que é relevante para os brasileiros como para alguns outros países. Pesquisas apontam, aliás, crescente indiferença pela Copa. Segundo o Datafolha, 54% dos brasileiros declararam não ter interesse em acompanhar este Mundial, maior índice desde 1994.

    Também não me pareceu (talvez surjam pesquisas a respeito) que a derrota para a Noruega tenha sido assimilada de maneira traumática como foram, justificadamente outros fiascos, como o sintomático 7 a 1 de 2014, além da inesquecível derrota do grande time de 1982.

    Estou entre os que acreditam que a bagunça administrativa e a gestão corrupta dos últimos anos tornaram-se gravíssimas num mundo em que o esporte se globalizou e tornou-se muito mais competitivo.

    É certo, porém, que o "processo" pode fracassar. Tivemos duas Copas e "processo" sob Tite, e fracassamos. Mas, sem dúvida, melhor com ele.

    Ultimamente, assistimos à ascensão de uma excelência futebolística pós-colonial, com pretos e mestiços, nas seleções da França e da Espanha, que de certo modo reconfigura o ethos nacional dos dois países —enquanto a gigante Itália saiu do mapa.

    FOLHA 

     

     

    A pergunta que é preciso fazer a Ancelotti

     =

  •  'O senhor achou que Neymar faria um milagre ou quis acalmar o lobby?' 

     Treinador desmontou todo o time para pôr o jogador em campo 

     Jogador com camisa amarela e número 10 ajoelhado no gramado, cobrindo o rosto com as mãos. Ao fundo, outros jogadores e membros da equipe brasileira em pé, alguns abraçados e outros com expressões de desânimo, em estádio de futebol.

  • Idelber Avelar

    O jornalismo esportivo tem a obrigação de colocar uma pergunta a Carlo Ancelotti. Há várias perguntas, mas uma é ineludível. Ela pode ser feita de maneira mais agressiva ou polida. Mas ela tem que ser feita.
  • Em um tom escrachado, a pergunta seria: "O senhor fez as alterações dos 66 minutos porque pensou que um ex-jogador gordo e manco, que não atua em alto nível há três anos e meio, poderia realizar um milagre ou porque queria acalmar o lobby e antecipar sua autoblindagem das críticas que receberia no caso de uma eliminação com ele no banco?".

    O fato de que Ancelotti não responderia essa pergunta de forma aberta e sincera —ele não é Tuchel, ele tem outro estilo, mais diplomático— não exime o jornalismo da obrigação de fazê-la.

    O Brasil atuou reativamente, entregando a bola à Noruega para sair em contra-ataque. Fechou o primeiro tempo com apenas 35% da posse. Essa não seria a minha escolha, mas entendo sua lógica.

    Sabemos que o Brasil não possui um meio-campo robusto e controlador e que a equipe tem na qualidade dos atacantes e zagueiros-centrais as suas grandes forças. Sabemos também que a Noruega tem nas arrancadas de Haaland, a partir de passes de Odegaard, a sua grande arma. Fazia sentido negar-lhes essa arma com um esquema que compactasse a intermediária.

    Entendo as críticas a essa escolha. É uma questão de opinião. O que não é questão de opinião, e sim de fato, é que essa formação não perdeu o jogo para a Noruega. Essa formação empatou o jogo em 0 x 0 durante 66 minutos, deixando-o aberto para a última quarta parte.

    Assim como Tim Vickery, vi as substituições serem preparadas com estupefação. Uma coisa é acalmar o lobby colocando Neymar no fim de uma partida que o Brasil vence por 3 x 0, como aconteceu contra a Escócia. Outra coisa é desarmar o time inteiro para colocá-lo em um jogo eliminatório que está 0 x 0.

    Antecipando os problemas no meio, Ancelotti coloca também Danilo Santos. Sacrificam-se Rayan e Martinelli, que vinham bem no jogo.

    Dois jogadores disputam a bola próxima à linha branca do campo. Um veste uniforme amarelo e azul, o outro vermelho e branco. A bola está à esquerda, afastada dos jogadores.

    Endrick é deslocado para a ponta e o Brasil perde a pressão na bola. Como a Noruega agora pode carregá-la tranquila, Bruno Guimarães é obrigado a dar botes que ele antes não tinha que dar. Desarrumam-se as linhas e aparece um espaço que antes não havia entre ele e Casemiro.

    Em vez das dobras Rayan-Danilo e Martinelli-Douglas Santos, que antes bloqueavam os flancos, agora temos Danilo e Douglas Santos desguarnecidos, porque Endrick e Vini não realizam bem essa função.

    Na jogada do primeiro gol, Endrick dá um bote errado, típico de atacante que quer roubar a bola, quando o que se impõe ali é defender o cruzamento. Como Endrick fica na saudade, Danilo tem que se deslocar para o combate, obrigando Marquinhos a proteger aquele espaço. Abrem-se dez metros entre Marquinhos e Gabriel —o espaço atacado por Haaland para cabecear.

    Não foi falha de ninguém. Foi uma quebra sistêmica, em efeito dominó, provocada pela desmontagem do time para acomodar uma substituição.

    Ancelotti inseriu Neymar por motivos internos ao jogo —porque ele inexplicavelmente acreditava em algum milagre – ou por motivos externos ao jogo? A torcida merece ouvir uma resposta, ainda que ela seja, como suspeito que será, protocolar e diplomática.

    FOLHA 

     
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    Neymar é incapaz de desviar do próprio espelho

     Neymar e Nyland, goleiro da Noruega, trocaram provocações na cobrança de pênalti do Brasil

    THALES MACHADO

    A cena de Neymar discutindo com o goleiro depois do pênalti, já com um placar que, mesmo descontado, eliminava o Brasil da Copa, parece revelar um personagem incapaz de sair da frente do próprio espelho. Há pessoas que precisam ser protagonistas da vitória. Neymar parece precisar ser também do fracasso.

    Por mais de um mês, Neymar cumpriu com rara disciplina a missão de ser coadjuvante.

    Curiosamente, isso só foi possível porque estava machucado, distante do palco. Bastou voltar ao alcance dos refletores para reaparecer a necessidade quase física de ocupar o centro da cena. E, nesse caso, nem importava que o roteiro já estivesse escrito.

    Há ali também um erro técnico e de gestão de Ancelotti, que lhe devolve um espaço em momento inapropriado do jogo, e do qual o time parecia ter aprendido a sobreviver sem depender. Mas Neymar faz questão de preenchê-lo inteiro. Quer a última palavra, o último gesto, a última imagem. Até quando tudo já acabou.

    A impressão é a de alguém incapaz de permitir que o fracasso pertença aos outros. Como se existisse uma urgência em reivindicar para si até a fotografia da derrota. É como um ator que invade o palco durante os aplausos destinados a outra peça, apenas para garantir que a plateia continue olhando em sua direção.

    No fundo, a discussão com o goleiro parece menos sobre um pênalti e mais sobre um vazio. Como se dissesse, em silêncio: "não deixem que o erro seja de outra pessoa! Ninguém pode fracassar melhor do que eu!".

    Há quem tenha medo de desaparecer no sucesso alheio. Neymar parece ter medo até de desaparecer no fracasso coletivo.

    O GLOBO

      

    O maior zagueiro da Copa


     

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    A SELEÇÃO SE DESFEZ ANTES DE EXPLICAR A DERROTA

     


    RENE RUSCHEL

    O Brasil foi eliminado da Copa do Mundo dentro de campo. Isso faz parte do futebol. O que chama atenção é o que aconteceu depois.
    Horas após a derrota, a seleção simplesmente se desfez. Jogadores seguiram para férias ou compromissos particulares. Carlo Ancelotti embarcou para o Canadá.
    Quando o avião da delegação pousou no Rio de Janeiro, havia apenas um atleta a bordo. Pode parecer um detalhe, mas não é. Os símbolos também contam.
    Enquanto outras seleções derrotadas voltaram para casa unidas, compartilhando o peso da eliminação, o Brasil transmitiu a sensação de que o compromisso terminava no apito final.
    Ao longo da Copa, outro aspecto também chamou atenção. Depois de cada jogo, havia dois dias de folga. O descanso é indispensável no esporte de alto rendimento.
    Mas em um torneio de apenas 39 dias talvez houvesse espaço para mais treinamentos, análises dos adversários e correções de uma equipe que nunca convenceu.
    O ambiente da delegação reforçou essa impressão. Muitos jogadores permaneceram acompanhados de familiares hospedados em mansões alugadas.
    Nada há de errado nisso. Mas a imagem parecia mais próxima de férias do que da maior competição do futebol mundial.
    Dois dias após a eliminação, as manchetes destacavam a compra de um iate de R$ 120 milhões e de um relógio de US$ 1 milhão por Neymar. São escolhas pessoais. O problema não é o patrimônio, mas o contraste.
    Enquanto o torcedor ainda tentava entender mais um fracasso, as principais notícias mostravam um universo completamente distante da realidade de quem sofre pela seleção.
    A CBF também falhou. Nenhum dirigente apareceu para explicar a eliminação. Não houve entrevista coletiva, nem prestação de contas.
    Curiosamente, a convocação havia sido transformada em um espetáculo, com palco, convidados e discursos. Para anunciar o sonho, festa. Para explicar o fracasso, silêncio.
    Trocar técnico ou renovar jogadores pode ser parte da solução. Mas o problema parece maior.
    A seleção brasileira precisa recuperar a cultura de compromisso que fez da camisa verde-amarela muito mais do que um uniforme.
    Ela representa um país. E quem tem o privilégio de vesti-la precisa honrá-la até o último minuto dentro e fora de campo.

    Weezer - Take On Me (A-HA)

     

    Take on me (take on me)Take me on (take on me)I'll be goneIn a day or two

    Noruega 2 x 1 Improviso

     Brasil é eliminado para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo

    Carlos Eduardo Mansur: 

     



    Sempre que termina a participação do Brasil numa Copa do Mundo, o caminho natural é entender o que deu errado no jogo da eliminação. Mas no dia em que o país tem a certeza de que será quebrado o recorde de espera por um novo título, a seleção vive uma derrota em que olhar apenas para o campo é enxergar só os sintomas de um mal maior.





    Se Noruega e Brasil jogassem dez vezes a mesma partida, com os mesmos jogadores e estratégias, o normal é que a seleção brasileira vencesse a grande maioria. Então, analisada de forma isolada, esta é mais uma desclassificação em que o Brasil produziu para ganhar o jogo. Mas a maneira como a partida foi planejada e executada impõe perguntas que até podem ser feitas a Ancelotti, mas devem mesmo ser respondidas por gente muito mais poderosa. Gente que, inclusive, nem mais na CBF está.


    A cada derrota, escolhemos uma narrativa. Por ora, parece hegemônica a tese da passividade, da pouca posse de bola, algo tido como contracultural na história do futebol brasileiro. Mas, para rejeitar uma ideia que soa contracultural, é preciso ter um projeto nacional de futebol, ao menos na seleção. E qual foi, nos últimos quatro anos, a ideia de futebol vigente na CBF? Esta foi a seleção de Ramon Menezes interino, do Fernando Diniz que dividia seu tempo com o Fluminense, do amor platônico por Ancelotti enquanto se desprezava o ciclo, de um Dorival Júnior esvaziado pelos próprios dirigentes que o contrataram e, enfim, do bombeiro Ancelotti. Se o jogo pareceu contracultural, infelizmente a bagunça e o desprezo aos processos são uma cultura a ser superada.


    Havia um motivo tático para o Brasil decidir não pressionar a Noruega, e, com isso, ter pouca posse. Colocar muitos jogadores para tapar a saída de bola rival era dar campo e espaço para Haaland, alvo dos lançamentos longos, travar duelos com os zagueiros. Sempre que aconteceu, ele ganhou. E o desenho de um jogo em que o Brasil defendia mais atrás e tinha campo para acelerar era sob medida para os atacantes da seleção. Fazia sentido, assim o time criou suas melhores chances.


    Mas ver a seleção limitada a este plano tem a ver com um time que não terminou de ser construído. O Brasil é deficiente quando precisa sair jogando desde a defesa, articular mais, especialmente se é pressionado. E a pressão ofensiva ainda oscila. E aí, de novo, voltamos ao desgoverno em torno da seleção. A comissão técnica viveu sempre numa corrida contra o tempo.




    Se há algo a discutir é se Ancelotti radicalizou demais o plano no segundo tempo. A posse norueguesa passou dos 70% em dado momento, o que significava um volume que, em algum momento, colocaria Haaland no jogo. Com Bobb e Schjelderup, a Noruega passou a ter ameaças pelos dois lados, e as trocas de Ancelotti fizeram a seleção perder proteção nos corredores com Endrick e Vinícius Júnior pelos lados — sem contar que, sem bola, Neymar oferece ainda menos do que o pouco que faz com ela.


    E é preciso, também, olhar para a escola brasileira de futebol. A Copa provou que ainda se produz talento em alto nível aqui: Bruno Guimarães, Gabriel Magalhães, Vini Júnior, Matheus Cunha, e nomes que apontam para o futuro, como Rayan e Endrick. Sem contar que a seleção competiu sem Rodrygo, Estevão, Neymar, Militão... Mas a escola brasileira vive a crise de laterais, de meias organizadores, de meias ofensivos acima da média. O mundo real das seleções, para o Brasil e para quase todas, é que jogos contra Bélgicas, Croácias e Noruegas da vida sejam duros mesmo. Ganhar dependerá de processos, de trabalho. A seleção não venceu a Noruega. Terá prestado um serviço ao país se decidir derrotar o improviso.

    O GLOBO

     


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