Noruega 2 x 1 Improviso
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Carlos Eduardo Mansur:
Sempre que termina a participação do Brasil numa Copa do Mundo, o caminho natural é entender o que deu errado no jogo da eliminação. Mas no dia em que o país tem a certeza de que será quebrado o recorde de espera por um novo título, a seleção vive uma derrota em que olhar apenas para o campo é enxergar só os sintomas de um mal maior.
Se Noruega e Brasil jogassem dez vezes a mesma partida, com os mesmos jogadores e estratégias, o normal é que a seleção brasileira vencesse a grande maioria. Então, analisada de forma isolada, esta é mais uma desclassificação em que o Brasil produziu para ganhar o jogo. Mas a maneira como a partida foi planejada e executada impõe perguntas que até podem ser feitas a Ancelotti, mas devem mesmo ser respondidas por gente muito mais poderosa. Gente que, inclusive, nem mais na CBF está.
A cada derrota, escolhemos uma narrativa. Por ora, parece hegemônica a tese da passividade, da pouca posse de bola, algo tido como contracultural na história do futebol brasileiro. Mas, para rejeitar uma ideia que soa contracultural, é preciso ter um projeto nacional de futebol, ao menos na seleção. E qual foi, nos últimos quatro anos, a ideia de futebol vigente na CBF? Esta foi a seleção de Ramon Menezes interino, do Fernando Diniz que dividia seu tempo com o Fluminense, do amor platônico por Ancelotti enquanto se desprezava o ciclo, de um Dorival Júnior esvaziado pelos próprios dirigentes que o contrataram e, enfim, do bombeiro Ancelotti. Se o jogo pareceu contracultural, infelizmente a bagunça e o desprezo aos processos são uma cultura a ser superada.
Havia um motivo tático para o Brasil decidir não pressionar a Noruega, e, com isso, ter pouca posse. Colocar muitos jogadores para tapar a saída de bola rival era dar campo e espaço para Haaland, alvo dos lançamentos longos, travar duelos com os zagueiros. Sempre que aconteceu, ele ganhou. E o desenho de um jogo em que o Brasil defendia mais atrás e tinha campo para acelerar era sob medida para os atacantes da seleção. Fazia sentido, assim o time criou suas melhores chances.
Mas ver a seleção limitada a este plano tem a ver com um time que não terminou de ser construído. O Brasil é deficiente quando precisa sair jogando desde a defesa, articular mais, especialmente se é pressionado. E a pressão ofensiva ainda oscila. E aí, de novo, voltamos ao desgoverno em torno da seleção. A comissão técnica viveu sempre numa corrida contra o tempo.
Se há algo a discutir é se Ancelotti radicalizou demais o plano no segundo tempo. A posse norueguesa passou dos 70% em dado momento, o que significava um volume que, em algum momento, colocaria Haaland no jogo. Com Bobb e Schjelderup, a Noruega passou a ter ameaças pelos dois lados, e as trocas de Ancelotti fizeram a seleção perder proteção nos corredores com Endrick e Vinícius Júnior pelos lados — sem contar que, sem bola, Neymar oferece ainda menos do que o pouco que faz com ela.
E é preciso, também, olhar para a escola brasileira de futebol. A Copa provou que ainda se produz talento em alto nível aqui: Bruno Guimarães, Gabriel Magalhães, Vini Júnior, Matheus Cunha, e nomes que apontam para o futuro, como Rayan e Endrick. Sem contar que a seleção competiu sem Rodrygo, Estevão, Neymar, Militão... Mas a escola brasileira vive a crise de laterais, de meias organizadores, de meias ofensivos acima da média. O mundo real das seleções, para o Brasil e para quase todas, é que jogos contra Bélgicas, Croácias e Noruegas da vida sejam duros mesmo. Ganhar dependerá de processos, de trabalho. A seleção não venceu a Noruega. Terá prestado um serviço ao país se decidir derrotar o improviso.
O GLOBO


