Flávio Bolsonaro deu uma nova contribuição à teoria de Darwin. Mostrou-se mais assertivo que o pai ao mentir, distorcer e renegar o que já disse. É a evolução da espécie.
Em entrevista à TV Globo, o candidato do PL fingiu desconhecer os fatos que levaram o capitão à cadeia. Descreveu como “golpe da Disney” a co
nspiração que destruiu as sedes dos Três Poderes e quase arrastou o país para uma nova ditadura.
O senador ainda chamou de petista o ex-comandante da Aeronáutica que, depois de votar em Jair Bolsonaro, recusou-se a manchar a farda para impedir a alternância de poder.
Questionado sobre o pedido de R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, Flávio descreveu o cambalacho como “relação privada”. “Não tem absolutamente nada de irregular”, recitou. O senador simulou esquecer que exerce cargo público e foi flagrado tomando dinheiro de um especialista em corromper autoridades.
Também fingiu não saber que parte da fortuna do banqueiro, a quem tratava como “irmão”, era subtraída de fundos de previdência geridos por seus aliados. Só o governo do Rio, sob comando do bolsonarista Cláudio Castro, enterrou mais de R$ 3 bilhões em papéis do Master.
Sem corar, Flávio definiu o filme sobre o pai, usado para justificar as transferências de Vorcaro, como uma “obra-prima” do cinema. Para quem já viu o trailer de “Dark Horse”, esta pode ter sido a maior das cascatas da noite.
O Zero Um mentiu com convicção sobre Adriano da Nóbrega. Disse ter condecorado o matador de aluguel com a Medalha Tiradentes porque o considerava um “policial exemplar”, embora estivesse preso por homicídio. Acrescentou que o homenageado teria matado um traficante — na verdade, executou um guardador de carros que havia denunciado outros milicianos.
De volta às ruas, Adriano se tornou o mais notório pistoleiro do Rio. Sua mulher e sua mãe foram empregadas no gabinete de Flávio na Alerj. As duas recebiam sem trabalhar, mostraram as investigações do esquema da rachadinha.
Instado a detalhar planos para a economia, o senador renegou as medidas impopulares que seus coordenadores de campanha têm prometido em jantares com donos de bancos e corretoras. Prefer
iu se refugiar em promessas vagas como “combater a roubalheira” e reduzir o número de ministérios
Ele também desconversou sobre declarações em que negou o aquecimento global e sustentou que o mundo passaria por um “resfriamento”. Por pouco não sai do estúdio correndo para abraçar uma árvore.
Numa das primeiras propagandas como presidenciável, Flávio usou inteligência artificial para encarnar o aviador de Tom Cruise em “Top Gun”. Na entrevista aos apresentadores do JN, lembrou outro personagem: Pinóquio, o boneco de madeira cujo nariz cresce a cada mentira.
Desde o fim do século XIX, pais leem a história escrita pelo italiano Carlo Collodi para ensinar aos filhos o valor da honestidade. Avesso aos livros, Jair poderia ter recorrido ao filme da Disney para educar o Zero Um e seus irmãos.