A Odisseia' de Nolan põe Homero na boca do povo e é experiência poderosa
Tadeu Jungle
O cinema está na rua. Todo mundo está discutindo "A Odisseia", de Christopher Nolan. Massacrado por parte da crítica e amado pelo público que lota as salas. O filme é pior do que o livro? Por que o filme omitiu o final real? Por que não mostrou o Ninguém do Ciclope?
Quando gostamos muito de um livro, ao vermos sua adaptação para o cinema, é normal ficarmos decepcionados, porque cada um imaginou a história à sua maneira. Toda adaptação de um texto antigo fala tanto sobre a época em que foi produzida quanto sobre a obra original, fazendo do produto um mix da história e do nosso olhar.
Mas tanto a história em si quanto o cinema viraram assunto de botequim e isso é uma boa conquista, no meio de tantas bobagens que entopem as redes sociais. Neste momento árduo do mundo, precisamos de cinema, histórias e arte. Platão dizia que Homero, o autor, foi o educador de toda a Grécia.
Um professor genial, porque ensinava contando histórias —e nelas há inúmeros ensinamentos. Parece que o filme passa a mensagem de Homero: "Você cometeu horrores, mas precisa continuar sendo um ser humano."
Como continuar sendo um ser humano em um mundo bárbaro em que ele mesmo cometeu atos horrorosos? Esse urubu não sai do ombro de Odisseu. Essa pergunta, ou essa busca, chega rapidamente ao presente: como nos manter humanos em um mundo que se consome em inteligência artificial, talvez nosso grande monstro?
O filme é polêmico. Na minha visão, as escolhas do diretor produzem uma experiência cinematográfica poderosa, mesmo quando se afastam de Homero. Mas os comentários negativos vão do macro ao micro.
Por que escolheu Lupita Nyong'o para viver Helena de Troia, tópico top na indignação das redes? Alguns, por exemplo, acham os castelos parecidos com hotéis charmosos.
Sempre haverá "haters". Importa que me sentei numa cadeira e fui transportado para uma narrativa fluida e musculosa, que me deixou pregado ali, no cinema, por quase três horas, "vendouvindo" uma grande história clássica.
Se fosse uma adaptação de algo recente, como a Copa de 1970 ou a vida de Juscelino Kubitschek, poderíamos ser mais ferozes na acusação de falsidade, pois conhecemos os personagens e a verossimilhança é necessária para a fluidez da história. Aqui, não. Aqui é Grécia Antiga e cada um tem a sua.
Temos um filme sobre o retorno, e não sobre a conquista. Isso já nos coloca diante de uma narrativa de volta, e não de avanço. Mesmo que imperceptível a princípio, estamos na contramão das narrativas tradicionais. Eu gosto de unir a frase "estamos indo sempre para casa" da obra-prima "Lavoura Arcaica", de Raduan Nassar, a esta história, pois ela é uma longuíssima viagem de volta, e torcemos para que se complete.
Trata-se da volta para Ítaca e para Penélope. É uma narrativa que fala do medo, do amor, do desejo, do sexo, das drogas, de cenas de ação extraordinárias, do esquecimento, da memória e da relação com nossos pais e nossos filhos.
A força do filme vem da forma visceral como a lenda foi traduzida para o cinema. O drama de Ulisses (Odisseu) é vivido com profundidade por Matt Damon. Nolan foi para dentro do personagem e nos faz viver suas dúvidas, seu sofrimento e sua coragem. Odisseu chora. Chora pelas vidas perdidas e não enterradas. Chora pelos anos perdidos. Isso é pesado. É uma saudade do que não viveu.
Anne Hathaway está adorável. Nolan aproxima Penélope do presente: ela não apenas espera, mas governa pela palavra e administra o desejo e a violência de uma multidão de homens. Uma feminista, ouvi de alguns.
Os monstros encontrados pelo caminho são algo à parte. O Ciclope me lembrou as esculturas monumentais de Ron Mueck. Nolan usou um boneco real de 18 metros e reproduziu os urros do monstro no set, em tempo real, para que os atores reagissem de verdade. Ficou uma porrada realista.
A cena de Circe transformando os homens em porcos com certeza é muito mais impactante no cinema do que no livro. É aquele momento em que você se pega fechando os olhos.
E há mais. As sereias, que fugiram do óbvio e cantam sob a bruma de um sonho, também entram nessa galeria. Esses seres e situações, com atores famosos, ajudam a construir um blockbuster, mas Nolan conseguiu fazer com que eles revelassem também as virtudes e os defeitos humanos.
A trilha sonora de Ludwig Göransson funciona mais como máquina narrativa do que como mero acompanhamento das imagens. Nada de "música antiga". Nada de orquestra tradicional. Nada do que os épicos de Hollywood nos acostumaram a ouvir. Gongos de bronze, lira, vozes e sintetizadores compõem um clima estranho, que nos aflige e, ao mesmo tempo, nos conduz. A trilha ainda vai render teses acadêmicas, assim como o filme.
Um filme funciona quando saímos alterados do cinema. Saímos mexidos. Mudados. Aqui, saímos discutindo monstros, deuses, armaduras e infidelidades ao poema. O bom cinema constrói uma verdade, e passamos a vivê-la por duas horas. Três, aqui. Ganhamos uma vida num filme.
O cinema épico, o cinema de escala monumental, as atrizes e os atores
de verdade continuarão a existir. São únicos e necessários.
Fundamentais para nossa vida, pois nos ajudam a refletir sobre quem
somos, o que desejamos e para onde vamos. Mesmo sabendo que sempre
estamos indo para casa.
FOLHA




