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  • O BRASIL EH O QUE ME ENVENENA MAS EH O QUE ME CURA (LUIZ ANTONIO SIMAS)

  • Vislumbres

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    Fragmentos de textos e imagens catadas nesta tela, capturadas desta web, varridas de jornais, revistas, livros, sons, filtradas pelos olhos e ouvidos e escorrendo pelos dedos para serem derramadas sobre as teclas... e viverem eterna e instanta neamente num logradouro digital. Desagua douro de pensa mentos.


    quinta-feira, agosto 06, 2026

    Vice Maria !!!

     

    MIGUEL PAIVA




    FRAGA



    AROEIRA




    FRAGA

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    quarta-feira, agosto 05, 2026

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    Carta ao Leitor — Darcy Ribeiro, Um Brasileiro

     

     

    Paulo darcy ribeiro fundação darcy ribeiro fundar (1) 

     
    Ao longo do ano de 1999, editei para a revista ISTOÉ uma coleção de fascículos mensais intitulada “Brasileiros do Século”. A cada mês, os leitores escolhiam dez brasileiros de destaque do século que se despedia em diferentes áreas – política, economia, esportes, cultura, educação etc. Na época, embora o mundo já estivesse conectado, a web não era ainda onipresente na vida cotidiana como é hoje. Os votos, em sua maioria esmagadora, chegavam até a redação por carta e eram contados um a um. Sim, havia uma parcela de indicações registradas no site da revista, mas ela não era significativa.

    Na categoria Educação, Ciência e Tecnologia, um dos escolhidos foi Darcy Ribeiro. Nascido em Montes Claros (MG), em 1922, ele mudou-se para o Pantanal, aos 24 anos, para trabalhar como antropólogo. Fazia pesquisas de campo junto a grupos indígenas, além de ocupar o posto de etnólogo no antigo Serviço de Proteção ao Índio (SPI). “Eu fiz uma coisa pelos índios, que foi criar o Parque do Xingu {no Mato Grosso}. Mas eles fizeram mais por mim. Eles me deram dignidade, e hoje posso ir a qualquer país do mundo falar de índio”, contou depois.

    Mas foi, principalmente, na área da educação que se sobressaiu. Darcy criou a Universidade de Brasília (UnB), projeto que convenceu Juscelino Kubitschek a dar início e que foi inaugurado já no governo de João Goulart. Ele foi, aliás, ministro da Educação e chefe da Casa Civil de Jango.

    Exilado após o golpe militar de 1964, soube, em Paris, que precisava extirpar o pulmão esquerdo, a essa altura, tomado pelo câncer. “Câncer para montes-clarense é verruga e se cura com benzeção. O meu é dos bons, uma bolinha maligna que, extirpada com o pulmão, dispensável, me deixará bom”, escreveu em correspondência aos amigos que estavam no Brasil. Na verdade, tinha 5% de chances de sobreviver. E sobreviveu (morreria só em 1997, finalmente derrotado pela doença, não sem antes fugir da UTI para acabar de escrever o livro O Povo Brasileiro – a Formação e o Sentido do Brasil). Retornou ao país com a anistia, em 1979, a tempo de se eleger vice-governador de Leonel Brizola no Rio de Janeiro, no começo dos anos 1980. Foi quando idealizou os Cieps para oferecer educação de turno integral às crianças pobres.

    A trajetória de Darcy Ribeiro me veio à lembrança graças ao artigo Sem salário digno para professores, promessas de candidatos não passam de propaganda vazia, de Valter Mattos da Costa, publicado nesta edição da Liberta. A leitura também me conduziu a uma das frases mais lúcidas desse pensador, que – apaixonado pela gente brasileira – falava como se tivesse uma metralhadora giratória na voz para acompanhar a velocidade do raciocínio. “A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”, dizia ele. A falta de investimentos e valorização dos professores é parte desse projeto deliberado para manter o status de um país profundamente desigual e injusto.

    Se há algo que consola, é outra constatação emblemática de Darcy: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.

    LIBERTA  

     

     

     

    An Odyssey for Our Own Time

     

     

    Peter Wehner 

     “A war. A man. A trick. A trick to break the walls of Troy. And burn it—screaming—to the ground.” Christopher Nolan’s The Odyssey opens in the great hall of Ithaca, with a bard singing a hymn about the cunning of Odysseus, the hero of the tale, to the men who have overrun his house—courting his wife, menacing his son—while he is absent. A feast has been turned into a desecration.

    The law these men broke was the most sacred in the ancient world: “xenia,” the law of hospitality. The stranger at the door stood under the personal protection of Zeus, the greatest of the gods and the protector of strangers. The bond between guest and host was not mere courtesy; it was the covenant that made trust between strangers possible.

    In the Bronze Age, that covenant was foundational. Greece was not a nation; it was a scattering of city-states and island kingdoms with no common law and no shared authority. Travelers had no rights. Xenia was the guarantee that allowed strangers—hosts and guests, both with reciprocal obligations—to trust one another. It was the thread that held a fractured world together.

    “Break Zeus’s law and see what they do to you if you give them that excuse,” Penelope, the wife of Odysseus, says to her son Telemachus. And in the movie, Telemachus says that one must always be generous to travelers, because they might secretly be gods in disguise. To mistreat strangers is to risk incurring the wrath of the gods.

    The Trojan War began with a breach of hospitality. Paris, a son of the Trojan king, was welcomed as a guest into the Spartan home of King Menelaus—and repaid that welcome by running off with Menelaus’s wife, Helen, said to be the most beautiful woman in the world. Menelaus’s brother, Agamemnon, led a Greek expedition to bring her back. The war lasted 10 years, ending when the Greeks at last sacked Troy by the ruse of the Trojan horse.

    The ruse was Odysseus’s idea, a stroke of military genius for which he was celebrated. But in Nolan’s telling, it is not a triumph but a moral failure, one that fills him with such guilt and shame that for a decade he cannot go home. He had turned something sacred into a weapon. The horse was disguised as a holy offering to Athena; the Trojans, afraid to offend the goddess, wheeled it inside their own walls. Once the gates were open, the Greeks spilled out and slaughtered the city.

    In the film, unlike the poem, that massacre shadows Odysseus, though we do not understand just how much so until the end. Throughout his journey he is accompanied by Athena, the goddess of wisdom. Only when the film returns to the night Troy fell do we realize she wears the features of a priestess of Athena, beheaded at the goddess’s own altar as the city burned. Odysseus’s divine mentor, the guide who has walked beside him all along, bears the features of a woman he watched die. Whether a goddess ever accompanied him, or whether she is only the ghost of his greatest sin, the film leaves uncertain. What is certain is that until Odysseus can face what he has done, until he tells the truth about himself to himself, and to others, no homecoming is possible.

    In the film’s closing stretch, Odysseus returns to Ithaca disguised as a beggar and sees what his world has become. Law and order are collapsing; trust is nonexistent; scheming is rife. The man who once commanded armies discovers how men behave toward someone who can do nothing for them. The only kindness he receives comes from his son and a few loyal servants. Then, near the end of the film, Odysseus says to Penelope, “We are the people from the sea,” by which he means the dreaded outsiders, raiders, and marauders. But they were not the threat after all. The “people from the sea” are the victors of the Trojan War, stripped of their humanity, their civility, their xenia.

    Telemachus was not alone in his intuition about gods in disguise. The conviction that the stranger at your door may be more than he appears runs through the Hebrew and Christian scriptures too. When, in Genesis, Abraham looks up at Mamre and sees three travelers, he runs to meet them, washes their feet, and sets a meal before them—not knowing, as the reader does, that he is entertaining the Lord. The letter to the Hebrews tells us to show hospitality to strangers, for some have “entertained angels unawares.” And in Matthew 25, the stranger is Christ himself. “I was a stranger and you welcomed me,” Jesus says. What he is revealing is that the stranger is where God has chosen to be found, and that every person will be judged by how they treat the outcast, the hungry, the sick, the beggar at our door.

    Homer’s poem, like the Hebrew scriptures and the New Testament, is an ancient text. But as Nolan told The New York Times, the greatness of the poem is that you approach it as something foreign and remote, and then find it “stunningly relevant.” On the treatment of the stranger, he added, nothing has changed—it remains essential to “holding civilization together, or even defining civilization.”

    Part of what makes The Odyssey so appealing to a modern audience is that it takes civilizing aspects of Greek culture—hospitality and magnanimity—and adds later concepts, some of them influenced by Jewish and Christian ethics that were, to varying degrees, alien to ancient Greek culture: deep introspection, even confession; humility and empathy; sorrow and guilt for the harm one has done, even in victory; the conviction that the conquered count and have worth; and vengeance tempered with mercy. In the film, Odysseus emerges as a figure haunted by his victory in a way that no ancient Greek would have been.

    The Odyssey presents a very human hero to a culture that desperately needs one. Nolan could have told this story several different ways, but he trusted his instinct: A summer audience would embrace an epic story and its complicated hero, brave but broken, fierce but tender toward the weak, a person we admire not so much for his battlefield victories as for his conscience.

    Much of life in the ancient Greek world was harsh, even barbarous—mass executions in conquered cities, torture, the weak discarded at birth, chattel slavery—which is precisely why the Greek commitment to honor and hospitality was remarkable then and still resonates today. So, too, do the later, more humane virtues the film weaves in.

    Those virtues are now under assault. Movements and voices in our own country hold them in open contempt, treat mercy as weakness, and feed on vengeance and grievance. Theirs is a Nietzschean ethic, a “master morality,” the code of the strong that Christianity overthrew when it took the side of the slave, the stranger, and the destitute.

    But Nietzsche was at least honest about the cost of the revolution he heralded. With God dead, he warned, the morality built on God might collapse as well, and into the gap meaninglessness, fanaticism, and substitute faiths could rush in. Nietzsche declared, with some sorrow, the death of God. Many of his heirs gleefully practice their cruelty in God’s name.

    The world that this ethic is creating is harsh and barren, raw and uninviting. It exists in the daily coarseness, in the anger and the ugliness, and in the isolation. There is a weariness in us, and a sadness, at what we have become. Robert F. Kennedy, citing the classicist Edith Hamilton, once issued this call: “Let us dedicate ourselves to what the ancient Greeks wrote so many years ago: ‘to tame the savageness of man and make gentle the life of this world.’” What Christopher Nolan and his cast have tapped into is our longing for a gentler world. We want to go home.

    ATLANTIC  

    Stars & Bars


    CARVALL

     

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    Lula é um clone para 12,5% do eleitorado, mais que os 8% da Terra plana

     O presidente Lula (PT) veste a camisa da seleção brasileira em meio à Copa do Mundo

     LEONARDO SAKAMOTO

    Se você achava que o debate eleitoral de 2026 seria travado em torno da economia, da segurança pública ou do fim da escala 6x1, é melhor reservar espaço para uma questão anterior: há uma parcela do eleitorado que discute nas redes se o presidente da República é realmente Lula?

    Pesquisa Meio/Ideia divulgada hoje mostra que 12,5% acreditam na mentira que Lula foi substituído por um clone ou sósia. É um em cada oito eleitores. Outros 28,5% não sabem ou não responderam. E 58,9% creem que isso seja fantasia. A margem de erro é de 2,5 pontos.

    Isso não significa, evidentemente, que quatro em cada dez brasileiros acreditem ou não têm certeza que possa existir um clone. Mas revela que uma parcela gigantesca da população não consegue afirmar com segurança que o presidente é ele mesmo, algo que, até pouco tempo atrás, não parecia exigir curso superior, laudo pericial ou acesso a documentos ultrassecretos da CIA.

     Para efeito de comparação, uma pesquisa Datafolha de 2024 (que, claro, foi feita sob outra metodologia) apontou que 8% dos brasileiros acreditavam que a Terra era plana e outros 3% não souberam responder. Ou seja, há mais gente comprando a tese de que Lula saiu de cena e foi trocado por uma réplica do que defendendo que o planeta é uma grande panqueca cósmica.

    Os cruzamentos ajudam a entender onde essa crença encontra terreno fértil. Entre os homens, 15,4% acreditam no clone, ante 9,9% das mulheres. O índice chega a 15,9% entre quem tem apenas o ensino fundamental e cai para 8,4% entre os que concluíram o superior.

    Na direita bolsonarista, 20,2% consideram verdadeira a história. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, são 18,3%, contra 9,8% entre os de Lula. Isso não torna a esquerda imune ao delírio (11% da esquerda lulista também acreditam nele), mas mostra que a teoria encontrou abrigo mais confortável no campo político alimentado há anos pela suspeita permanente contra instituições, imprensa, ciência, eleições e fatos reais.

    A pesquisa, sozinha, não permite dizer quantos chegaram à crença pelas redes sociais. Mas o caminho da mentira está bem documentado. A teoria de que Lula morreu e foi substituído circula desde antes da eleição de 2022, abastecida por áudios anônimos, fotografias manipuladas, falsas comparações físicas e vídeos retirados de contexto.

    Vídeos sobre o suposto clone somaram milhões de visualizações, rendendo um bom dinheiro para seus responsáveis. A falsidade não é apenas ideologia, mas também um, modelo de negócio.

    As plataformas não inventaram a estupidez humana, mas transformaram a fabricação de paranoia em indústria. O algoritmo não pergunta se uma informação é verdadeira. Pergunta se ela prende a atenção, provoca raiva e mantém o usuário diante da tela. Entre a realidade sem graça e o clone comunista produzido em laboratório com a ajuda de chineses e bancado por bilionários pedófilos e por cavaleiros templários e, claro, pelo Leonardo Di Caprio, a segunda opção costuma render mais cliques e, portanto, mais dinheiro.

    O problema não é apenas que milhões de pessoas acreditam numa bobagem. Quem aceita que o presidente foi trocado por um sósia também pode aceitar que urnas foram fraudadas, que vacinas implantam chips e que instituições inteiras participam de conspirações secretas. A mentira mais absurda (e deliciosa) funciona como porta de entrada para outras, eleitoralmente mais úteis.

    Uma democracia pressupõe divergências sobre os fatos, mas precisa de algum chão comum para funcionar. Se uma parcela do eleitorado já não tem certeza de que Lula é Lula, discutir políticas públicas torna-se quase um luxo intelectual.

        UOL  

    Por que o mundo falhou diante de Gaza?

     

     

    Claudia Guadagnin  

    Mais de 73 mil mortos oficialmente registrados após mil dias de ataques. Milhares de pessoas amputadas e feridas. Mais de 90% da população deslocada. Quatro em cada cinco edificações destruídas ou danificadas. Uma reconstrução estimada pelo Banco Mundial em US$ 71,5 bilhões. Se nem a soma dessas evidências até agora foi suficiente para interromper a destruição de Gaza, a pergunta mais urgente já não é somente o que aconteceu naquele território: mas o que aconteceu com o mundo?

    Em fevereiro de 2024, escrevi um artigo perguntando por que o assassinato de quase oito mil crianças palestinas parecia provocar menos comoção internacional do que um incidente diplomático envolvendo dois chefes de Estado.

    Naquele momento, eu acreditava que aquela pergunta já era suficientemente perturbadora. Dois anos depois, vejo que era apenas o começo.

    Os números cresceram de forma incompreensível. Hoje, milhares de palestinos estão oficialmente registrados como mortos desde o início da ofensiva israelense em Gaza e outros milhares sofreram violentas amputações. Um contingente cuja dimensão real jamais será conhecida com precisão, diante do colapso do sistema de saúde e das dificuldades de registrar as vítimas em meio a tantos bombardeios, deslocamentos e destruição em massa.

    Quase toda a população da Faixa de Gaza foi obrigada a abandonar suas casas ao menos uma vez. Aproximadamente 81% das edificações foram danificadas ou completamente destruídas. Os números impressionam. Mas o que também me arrasa é perceber que eles não nos paralisaram.

    O horror visto como rotina

    A cada novo relatório das Nações Unidas, a cada atualização da Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada levantamento do Banco Mundial, parece haver um breve instante de atenção. Logo depois, seguimos para a próxima crise, a próxima disputa política, o próximo escândalo, a próxima trend ou fofoca das redes sociais.

    Enquanto isso, as mortes e a barbárie naquele território continuam. A destruição continua. A fome continua. O assassinato de mulheres e crianças também. E a humanidade parece demonstrar que aprendeu, silenciosamente, a conviver com tudo isso.

    E não se trata de desconhecimento. Esse é o genocídio mais documentado da história. Nunca houve tantas imagens produzidas em tempo real. Nunca tantos satélites acompanharam a destruição de um território diariamente. Nunca organismos internacionais divulgaram tantos relatórios sucessivos sobre um mesmo conflito. Nunca jornalistas, médicos, pesquisadores e trabalhadores humanitários produziram um volume tão grande de informações enquanto uma tragédia acontecia em tempo real.

    Durante décadas, parte da explicação para atrocidades como o Holocausto nazista apoiou-se, ainda que apenas parcialmente, na dificuldade de acesso à informação, na censura, na propaganda e na lentidão com que as notícias atravessavam fronteiras. Hoje, essa justificativa já não existe. A informação circula em tempo real. As imagens chegam antes dos relatórios oficiais. Sabemos mais, vemos mais e documentamos mais do que qualquer outra geração. Ainda assim, entretanto, nada disso tem sido suficiente para impedir a continuidade dos horrores.

    Depois da Segunda Guerra Mundial, o mundo construiu convenções, tratados, cortes internacionais e organismos multilaterais para impedir que a promessa do “nunca mais” permanecesse apenas como um compromisso moral. A Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio, as Convenções de Genebra, a Organização das Nações Unidas, a Corte Internacional de Justiça e, mais tarde, o Tribunal Penal Internacional nasceram da convicção de que a comunidade internacional não poderia voltar a assistir passivamente à destruição de povos inteiros. Mas estamos fracassando.

    Ao longo dos últimos anos, acompanhamos, dia a dia, bombardeios em tempo real. Vemos hospitais bombardeados, bairros desaparecendo, famílias sucessivamente deslocadas, crianças retiradas mortas ou gravemente feridas de escombros, jornalistas assassinados durante a cobertura do conflito, médicos operando sem anestesia, organizações humanitárias denunciando a falta de água, alimentos e medicamentos e sendo ignoradas.

    Assistimos também a sucessivas tentativas de romper simbolicamente o isolamento de Gaza por meio de missões humanitárias marítimas, interceptadas antes de alcançar o território. Tudo isso acontece diante de câmeras, satélites e transmissões ao vivo. Ainda assim, algo parece ter se rompido na comunidade internacional. Algo que deveria ter poder de influência e ação, mas não teve.

    Helo filme a voz de hind rajab divugalção
    Cena do documentário “A Voz de Hind Rajab” (Foto: Divulgação)

    A fadiga da indignação

    Em Diante da Dor dos Outros, publicado em 2003, a escritora e ensaísta norte-americana Susan Sontag, uma das intelectuais mais influentes do século 20, reflete sobre a forma como reagimos às imagens de guerra e sofrimento. Para ela, essas imagens carregam uma ambiguidade inquietante. Podem mobilizar a consciência, despertar solidariedade e provocar indignação. Mas também podem produzir o efeito inverso: quando a violência se torna permanente diante dos nossos olhos, o extraordinário corre o risco de se transformar em rotina. O olhar se acostuma. A capacidade de espanto diminui. A dor do outro deixa de interromper a vida cotidiana. E Gaza representa esse limite.

    Nunca estivemos tão próximos do sofrimento de pessoas que vivem a milhares de quilômetros de distância. Ao mesmo tempo, nunca desenvolvemos tantos mecanismos para seguir vivendo apesar dele.

    Abrimos o celular e vemos um hospital destruído, uma fila por alimentos, uma criança coberta de poeira sendo retirada dos escombros. Minutos depois, a mesma tela exibe publicidade, vídeos de entretenimento, resultados esportivos, publicidade de casas de apostas ou fotografias de viagens. Não se trata apenas do funcionamento dos algoritmos. Trata-se da forma como passamos a consumir a realidade. A tragédia disputa nossa atenção no mesmo espaço em que competem o cotidiano, o lazer, o mercado e a infinidade de estímulos que caracterizam a vida digital.

    Não é que tenhamos deixado de sentir. É que já não conseguimos sustentar esse sentimento por muito tempo. A indignação cede lugar à fadiga. O choque dá lugar ao hábito. E esse é um dos maiores dilemas morais do nosso tempo.

    Em Emoções Políticas, Martha Nussbaum lembra que nenhuma democracia se sustenta apenas por instituições ou normas jurídicas. Ela depende da capacidade de seus cidadãos ampliarem o círculo da empatia para além daqueles com quem convivem, reconhecendo a humanidade também em pessoas distantes, desconhecidas ou diferentes. Quando esse exercício falha, os princípios universais continuam existindo no discurso, mas perdem força quando são mais necessários.

    Essa reflexão ajuda a compreender por que Gaza ultrapassa os limites de um conflito regional. Não está em jogo apenas a destruição de um território. Está em jogo a credibilidade de uma ideia construída ao longo de décadas: a de que alguns direitos pertencem a todas as pessoas, simplesmente, porque elas são humanas.

    E é essa promessa que vacila quando uma população inteira permanece exposta, durante tantos meses, a níveis extremos de violência, deslocamento, insegurança alimentar e colapso dos serviços essenciais, enquanto a comunidade internacional se mostra incapaz de produzir respostas proporcionais à gravidade da crise.

    O problema não é apenas que os Estados discordam sobre como agir. O problema é que, enquanto discutem, pessoas continuam morrendo, como se fosse aceitável que a proteção da vida dependesse do ritmo das negociações diplomáticas, dos cálculos eleitorais, das correlações de força entre potências ou das limitações impostas pelos organismos multilaterais.

    E, para mim, é nesse ponto que Gaza deixa de ser apenas uma crise humanitária. Ela se transforma em um teste histórico para a própria ideia de humanidade compartilhada.

    O julgamento que ainda está por vir

    As guerras costumam terminar quando seus protagonistas concluem que continuar lutando custa mais do que parar. Raramente terminam porque a comunidade internacional decide que o sofrimento da população civil ultrapassou todos os limites aceitáveis. É uma constatação dura, mas recorrente na História.

    Décadas depois, continuamos perguntando como Auschwitz foi possível. Como Ruanda aconteceu. Como Srebrenica ocorreu diante da presença das Nações Unidas. Em todos esses episódios, a História acabou formulando a mesma pergunta: quem sabia e por que não conseguiu impedir? Gaza ainda provocará o mesmo julgamento.

    O escritor italiano Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz e uma das principais vozes da memória do Holocausto, encerrou Os Afogados e os Sobreviventes, livro de 1986, com um alerta que continua atravessando gerações: “Aconteceu, portanto, pode acontecer novamente: este é o cerne do que temos a dizer”.

    Sua advertência nunca foi apenas sobre o passado. É um chamado permanente à vigilância.

    Gaza não será lembrada apenas como uma sociedade devastada pela guerra. Será lembrada também como o momento em que a humanidade precisou confrontar uma pergunta incômoda: o que acontece quando sabemos de tudo e, ainda assim, somos incapazes de impedir que a barbárie continue?

    “Aconteceu, portanto, pode acontecer novamente.” O alerta de Primo Levi nunca pertenceu apenas ao século 20. Gaza pode ser a prova mais dolorosa de que ele continua falando ao nosso tempo.

    LIBERTA 

      

    Um John Wayne da política mundial deseja impor sua vontade a ferro e fogo

     

     

    CASTRO ROCHA

      

    Emergência nacional

    Nesta semana, mais precisamente no dia 28 de julho, o governo dos Estados Unidos decidiu prorrogar por mais um ano a “emergência nacional” anunciada contra o Brasil, iniciada em julho de 2025.

    Mas o que é esse estado de “emergência nacional”? Trata-se de decisão unilateral, prevista na legislação estadunidense, que pode (e deve) ser tomada sempre que o governo identificar ameaças objetivas contra a segurança nacional. A medida precisa ser renovada anualmente e permite ao Executivo implementar sanções econômicas, bloquear contas e congelar ativos de países ou de terceiros que, em tese, estariam prejudicando interesses americanos, seja da iniciativa privada, seja do âmbito público.

    O governo Trump alegou que as autoridades brasileiras atacaram a liberdade de expressão de cidadãos dos EUA, o que implicaria uma violação dos direitos humanos.

    Mais: o ministro Alexandre de Moraes foi acusado de perseguir politicamente o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, embora não se perceba com clareza a relação desse “fato” com a segurança nacional dos EUA.

    Não é tudo: as empresas estadunidenses de tecnologia da informação, com destaque para as grandes plataformas, seriam prejudicadas pela tentativa do governo brasileiro de regular as redes sociais.

    Dono do mundo, rei do gado, xerife do Velho Oeste, Donald Trump assumiu o papel anacrônico de um John Wayne da política mundial, que deseja impor a ferro e a fogo sua vontade. Só que se trata de uma vontade volátil como a pluma ao vento da ópera de Verdi.

    A prorrogação do estado de “emergência nacional” pouco tem a ver com os elementos que acabei de mencionar. O alvo verdadeiro é a determinação de interferir nas eleições presidenciais brasileiras de outubro de 2026, a fim de favorecer o candidato-fantoche, sabujo, entreguista, traidor, lambe-botas, vende-pátrias.

    (Flávio Bolsonaro: em estado de dicionário.)

    Trocando em miúdos

    Os indícios são alarmantes. Recordemos uma cronologia básica e nada exaustiva.

    Em 7 de março de 2026, o governo estadunidense criou a Coalizão Anticartéis das Américas, também conhecido como “Shield of Americas” (Escudo das Américas). Esqueçamos a caricatura, por demais fácil pela associação infantil com super-heróis, e nos concentremos no risco imediato. No papel, trata-se somente de uma organização transnacional, um convênio para combater o narcotráfico por meio de operações conjuntas de “inteligência”.

    João Trump assina proclamação do Escudo das Américas foto Saul Loeb afp (1)
    Trump assina a proclamação do Escudo das Américas cercado por líderes de extrema direita (Foto: Saul Loeb/AFP)

    Na prática, os Estados Unidos forjam uma aliança com políticos latino-americanos de extrema direita, dócil, muito dócil aos desmandos de Trump, para “obliterar” (verbo preferido do mandatário em Washington) governos progressistas na América Latina. Como se a Operação Condor fosse retomada com uma direção muito mais radical e poderosa.

    (Você se recorda, a Operação Condor foi um consórcio patrocinado pelas ditaduras do Cone Sul para perseguir e assassinar opositores em seus países.)

    No dia 29 de maio de 2026, o governo de Trump declarou o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) organizações terroristas internacionais, para o delírio sem medo da militância bolsonarista. Não se entende, contudo, por que o então presidente Jair Messias Bolsonaro não se antecipou à medida, pois, de 1 de janeiro de 2019 a 31 de dezembro de 2022 poderia tê-lo feito: bastaria ter lançado mão de sua caneta Bic. Não importa: o decisivo é que, ao enquadrar o CV e o PCC nessa categoria, Donald Trump pode ordenar operações militares pontuais no território brasileiro.

    Em 16 de julho de 2026, Marco Rubio anunciou o propósito de declarar tanto organizações políticas de esquerda quanto movimentos sociais como sendo de extrema esquerda, o que permitiria dar o passo seguinte, ou seja, também enquadrá-las na categoria de organizações terroristas. Mais uma vez, o que se almeja é criar condições “legais” para intervenções militares que, por exemplo, não aceitem a reeleição do presidente Lula e do vice-presidente Geraldo Alckmin.

    A prorrogação do estado de “emergência nacional” é apenas mais um passo na escalada contra a soberania nacional. Ameaça agravada pela existência inédita na vida brasileira de uma geração de políticos que não hesitaria em vender a soberania por trinta moedas, ou seja, assenhorear-se do poder para melhor entregá-lo a Donald Trump e seus asseclas.

    (É preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte.)

    Coda

    Donald Trump, dizem alguns jornalistas, precisa usar fralda geriátrica porque perdeu o controle sobre o próprio corpo. Aquele que se considera dono do mundo não comanda o território mínimo de si mesmo.

    Pois é.

    Metonímia brutal do futuro que parece já ter chegado.

     

    LIBERTA 

    Welcome To The Monkey House - Animal Magnet

     

    Big apes, small apes, anything at all apes
    Playing in our cages when the light goes down
    Cut out the facts and only let in the rumours
    We're going to be rich tonight
    We're gonna be huge
    We're going to be rich tonight

    terça-feira, agosto 04, 2026

    ERIC VAN DER WESTEN 🪶 A Feather

     

    4 X Crystal Palace





     

    segunda-feira, agosto 03, 2026

    Atacar... tarifar...

    QUINHO
     

     

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    Nelson Angelo - Testamento (Nelson Angelo - Milton Nascimento)

     

    Cuidem bem de minha casaTão cheia, meninosTome conta de aquilo tudoEm que acredito
    E juntem todas minhas cinzasAo poema desse rioE plantem meu aduboNa semente de meu povo

    PINK

     


    A Odisseia' de Nolan acerta ao investir em herói adulto e culpado

     


     

    Inácio Araujo

      Com "A Odisseia", a notícia principal é que, finalmente, Hollywood admitiu que já existiu no mundo alguma mitologia antes dos super-heróis da Marvel e da DC e, por uma vez, tirou o Batman de cena para investir num herói adulto.

    A segunda é que os planos iniciais anunciam um filme de enorme beleza: uma praia, o mar, um soldado solitário e, enterrado na areia, um enorme cavalo. O de Troia, o fabuloso truque que definiu uma guerra que começou pelo rapto —ou nem tanto— de uma mulher, Helena, papel de Lupita Nyong’o.

    Logo depois, entram os diálogos e o que uma adaptação dessas sugere de mais perigoso —a postura empolada e o melodrama barato. Mas isso logo passa, o que é muito bom.

    Entramos então em Odisseu, ou Ulisses, papel de Matt Damon, aprisionado durante um naufrágio pelas artes de Calipso —Charlize Theron—, que, depois de salvá-lo de um naufrágio, mantém Odisseu prisioneiro em sua ilha por longos anos. Ao fim dos quais tudo que deseja ardentemente é voltar para Ítaca.

    Nessa altura, diga-se, Odisseu já enfrentou perigos extraordinários e chegou à ilha sozinho, tendo perdido todos os seus homens. Esteve, por exemplo, na ilha dos monstruosos ciclopes, onde cegou Polifemo, o mais temível entre os monstros, fato que desencadeou a fúria de Poseidon, deus dos mares e pai da criatura. Daí decorreram os imensos problemas de Odisseu durante seu retorno a Ítaca, onde era rei.

    Aqui é preciso entrar Penélope —Anne Hathaway— na história: a rainha que espera seu marido anos a fio, recusando as propostas de casamento de uma pilha de pretendentes. Ela tem suas artimanhas para manter-se fiel a Odisseu.

    Este enfrentará outros episódios que fazem de "A Odisseia" a aventura das aventuras, como o encontro com a deusa e feiticeira Circe —Samantha Morton—, que enfeitiça e transforma em porcos os guerreiros de Odisseu, ou a travessia do canto das sereias.

    Mas o essencial no Odisseu de Nolan é a enorme culpa que carrega —a sombra de todos os mortos que sua ação guerreira provocou e o atormenta. Essa dor traz também a certeza de um destino infernal. É isso que parece envelhecê-lo precocemente ao longo do filme.

    E talvez por isso, aliás, o filme tenha sido tão econômico na sequência referente ao inferno —o Hades grego. Se Odisseu é sabedoria e sagacidade, traz a consciência de todos os horrores a que sobreviveu tenazmente e de todos os males que provocou.

    O destino infernal do Odisseu é o que compensa o fato de Nolan produzir um herói muito mais próximo da mitologia judaico-cristã do que da grega propriamente dita. No filme, o único contato entre o Olimpo e os homens deve-se às repentinas aparições de Atena, a deusa que protege o protagonista.

    Não se percebem outras intervenções. O mundo dos deuses gregos, no filme, não se comunica com o mundo dos homens; mal sabemos de onde surgem certas entidades. A história de Poseidon, por exemplo: o poderoso senhor dos mares —e de todas as suas decorrências— era nada menos do que irmão de Zeus, deus dos deuses. Ou seja, não era com pouca coisa que Odisseu lutava para sobreviver.

    O essencial é que, no mundo grego, deuses e homens se misturavam, um pouco como acontece nas religiões afro-brasileiras —o que me ensinou o músico Dante Pignatari—, o que é diferente do pensamento judaico-cristão, em que o mundo dos homens é rigorosamente separado de entidades celestes, sobre as quais reina um Deus onipotente.

    Toda a história de Odisseu é a de uma luta em que se envolvem Poseidon —o inimigo—, Atena —sua protetora— e o próprio Zeus. É isso que "A Odisseia" omite e que afasta o filme de seu universo original para algo mais próximo, digamos, do universo Marvel ou DC.

    Mas não se pode culpar Nolan por isso. Ele enfrenta as poderosas forças de Hollywood, os mestres não do universo, mas da Universal —o que, no caso, vale bem mais. Não convinha, portanto, introduzir algo excessivamente exterior ao que a maior parte das pessoas acredita.

    O certo é que Nolan consegue, desta vez, não complicar demais as coisas: trabalha com habilidade os momentos de aventura e até consegue criar alguns momentos comoventes nas sequências finais, aliás prejudicadas pela necessidade de criar, justamente, o "gran finale" da história.

    Seria muito pedantismo esperar um "A Odisseia" que chegasse ao resultado a que, presume-se, Fritz Lang chegaria caso estivesse mesmo filmando "A Odisseia" no belíssimo "O Desprezo", de Godard —é um outro tempo, outro continente e, a rigor, outro mundo. Em todo caso, "A Odisseia" ali é suporte a essa outra epopeia, que é fazer um filme.

    Por fim, Christopher Nolan poderia ter usado com proveito a brilhante ideia que se encontra no "Ulisses", de Mario Camerini, de 1954 —produção mil vezes menor escrita por Ben Hecht. Ali, Calipso —a ninfa que aprisiona o herói— e sua fiel rainha, Penélope, são interpretadas pela mesma atriz: Silvana Mangano. Na verdade, duas mulheres souberam prender o herói: a rainha e a outra. Talvez fossem mesmo uma só.

    Resumindo: "A Odisseia" é um filme a ver, de preferência em Imax.

     FOLHA 

    'A Odisseia' de Nolan substitui ética antiga por sensibilidade de 2026

     


     

    Ivan Finotti

    Não faz sentido cobrar fidelidade literal de uma adaptação. Cinema e literatura obedecem a regras diferentes, e qualquer diretor, grande ou não, tem o direito de cortar episódios, fundir personagens ou inventar cenas.

    O problema de "A Odisseia", de Christopher Nolan, não é esse. O diretor não altera apenas a narrativa de Homero. Altera a moral que a sustenta, substituindo a ética particular da Grécia Antiga por uma sensibilidade do século 21.

    Na epopeia atribuída a Homero, concebida por volta de 700 a.C., Odisseu é admirado pela inteligência astuta que lhe permite vencer inimigos mais fortes ou escapar de situações impossíveis.

    Recorrer ao estratagema, à vingança e à violência não o desqualifica como herói. Pelo contrário, o eleva. Ele pertence a um mundo regido por honra, reputação, lealdade familiar e pela intervenção direta dos deuses.

    Nolan mantém boa parte das aventuras, mas seu Odisseu, papel de Matt Damon, precisa sentir culpa, precisa reconhecer os danos que provocou e precisa pagar por isso.

    A transformação é clara no flashback da queda de Troia. Na tradição clássica, o cavalo representa o triunfo máximo da astúcia de Odisseu. É a arma que vence onde a força fracassou durante dez anos de cerco.

    No filme, porém, ao abrir as portas da cidade para o exército grego, Odisseu assiste a estupros, saques e massacres que passarão a persegui-lo durante toda a viagem de volta ao seu reino na ilha de Ítaca.

    O ardil deixa de ser uma façanha intelectual para se tornar o pecado original da narrativa. Mais adiante, o próprio Odisseu conclui que escondeu soldados dentro de um presente e, assim, violou a hospitalidade protegida por Zeus.

    O crime, portanto, não estaria apenas no massacre cometido contra a população de Troia, mas no próprio método empregado para entrar na cidade: fazer de uma oferenda uma armadilha.

    Para Nolan, esse gesto, essa ruptura moral, destruiu a confiança entre os homens e abriu caminho para as misteriosas invasões dos povos do mar —grupos cuja identidade permanece desconhecida e que alguns historiadores associam ao colapso das civilizações do Mediterrâneo oriental no fim da Idade do Bronze.

    É uma construção dramática engenhosa, mas pura invenção de Nolan. Toda essa atualização facilita a identificação do espectador, mas elimina parte da estranheza moral do mundo de Homero. O mesmo ocorre em outros episódios.

    No texto antigo, depois de escapar de Polifemo, os companheiros repreendem Odisseu porque ele continua provocando o ciclope e coloca todos em risco. Seu erro é o orgulho, agravado quando brada o próprio nome, permitindo assim que Poseidon passe a persegui-lo.

    No filme, a discussão muda de eixo. Odisseu desfere uma flechada desnecessário contra o gigante já derrotado e passa a ser censurado pela tripulação por ter ultrapassado um limite moral.

    Atena também muda de natureza. No poema, ela é uma deusa que conversa com Zeus, orienta Telêmaco, protege Odisseu e interfere concretamente nos acontecimentos. O diretor transforma essa deusa numa projeção psicológica, ligada ao trauma da guerra.

    Não é só Atena. O filme reduz a presença direta dos deuses e torna sua existência ambígua. Zeus é apenas citado, Poseidon se manifesta como força da natureza e Hermes é esquecido.

    Apesar disso, o filme traz uma série de monstros, que fazem a festa do espectador. Com exceção das sereias, que são mostradas apenas de longe. As armaduras são impressionantes e os demais vestuários não deixam a desejar.

    Já a tela verticalizada do Imax, com uma proporção parecida com os antigos televisores de tubo, soa mais uma firula de marketing tecnológico do que de fato transforma a experiência.

    Quanto ao desfecho, em Homero, Odisseu mata os homens que disputam a mão da rainha Penélope, os deuses impõem a paz e o herói continua rei de Ítaca. No filme, ele entrega o trono ao filho Telêmaco, papel de Tom Holland, e parte com a rainha, Anne Hathaway, num exílio voluntário para honrar os mortos e reparar seus atos.

    O curioso é que Nolan preserva o espetáculo da violência ao mesmo tempo em que altera sua interpretação moral. O filme exibe uma sucessão de assassinatos, incêndios e massacres de inocentes, mas exige que o espectador —e também seu protagonista— condene tudo aquilo.

    Nada disso significa que Nolan devesse filmar o clássico como uma peça de museu. Toda adaptação é uma leitura. Mas sua "A Odisseia" traz um Homero higienizado para o público de 2026.

    FOLHA  

      

    Anitta - Você Já Sabe feat. Los Brasileiros (

     

    Você já sabe quem chegou
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    domingo, agosto 02, 2026

    Macalé - Tempo & Contratempo


    Mas não se ilude tanto, nem esse momento
    Contrastando o tempo com um contratempo O tempo é obra de gente sem raça O tempo não existe, é essa que é a graça

     

    The Hand on King Street | Maozinha na Rua do Rei


     

    The end of reading is here

     

     

     

     

      "We’ve been here before. When society first transitioned from orality to literacy, only a small minority could read. As the only individuals who possessed this valuable skill, they occupied a privileged position, and were paid handsomely for their work. At the Library of Alexandria, scholars in residence lived in the city’s royal complex.

    Today, reading is again clustered among a small minority of the population, but being a person of letters confers less status than it once did. The remaining readers are marginalized, mocked, and in many ways irrelevant. For most people, a life of letters is an economic dead end. Employment at newspapers has fallen by 75 percent in the past two decades. Job openings for academics in the humanities are likewise in decline, and fewer and fewer of the remaining positions are tenure-track. In 2024, only 8 percent of college graduates earned a bachelor’s degree in a humanities discipline. That year, both English and history departments awarded 40 percent fewer degrees than they did in 2012. There’s a fear among historians, whispered during panels and conferences, that they will be the final generation to systematically examine the past."

     longread by Rose Horowitch 

     

    Retrato de familia


    SPACCA

     

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    Tom Waits - "Warm Beer And Cold Women"

     

    Now the moon's risingAin't got no time to loseTime to get down to drinkingTell the band to play the bluesDrink's are on me, I'll buy another roundAt the last ditch attempt saloon


    Inside 'The Odyssey,' Christopher Nolan's Most Epic Movie Yet

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    "The punishing conditions were the point. Nolan considered casting actors to play gods throwing thunderbolts from Mount Olympus but settled on something more primal. “I became more interested in the idea that to people in that period, evidence of gods was everywhere,” he says. In Bronze Age Greece, thunder, rain, and the sun rising didn’t have scientific explanations—they represented the will of the immortals. “The wonderful thing about cinema, and IMAX in particular, is that you can take an audience to a place of immersion, feeling close to events like storms, turbulent seas, high winds. You want the audience to be on the boat with them fearing the ocean, fearing the wrath of Poseidon, the way the characters do. That to me is so much more powerful than any individual image you can have [of a god].”!"

    longread interview with Christopher Nolan
    conducted by Eliana Dockterman
     Inside 'The Odyssey,' Christopher Nolan's Most Epic Movie Yet

    1950 FIFA World Cup: the silence at the Maracanã


    "The Maracanã did not erupt. It collapsed into a silence so total that players later said they could hear their own breathing. Brazil, a country built on music, had no music left. When the English referee George Reader signaled the end of the match, a black cloud fell over the stadium, and it became lifeless, like a cemetery. It was reported later that eight Uruguayans died that day, and several Brazilians committed suicide. In the hours that followed, the city dimmed. Radios went quiet. Celebrations dissolved into stunned stillness. Some fans never made it home. Others wandered the streets as if emerging from a natural disaster."

    read article by CESAR CHELALA

    1950 FIFA World Cup: the silence at the Maracanã | Meer

    Gypsy Hill


     

    Geese - Islands of Men

     

    Lazy eyed, you look weakYou have seen islands of menSinking low as you speakI'm not surprisedWill you stop running awayFrom what is real and what is fake


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