Flávio B. deve estar pedindo misericórdia aos céus. Depois dos chocolates,
malogrou no cinema e periclita na política. O perrengue da vez veio de
Raleigh, na Carolina do Norte, a terra escravista da qual o roteiro de "Dark Horse" é assinado.
O título alude àqueles tempos por repetir o de livro sobre o reformista James Garfield.
Levado à Presidência graças ao racha no Partido Republicano (que fez a
abolição) em 1881, levou bala no primeiro ano de governo. Seu
assassinato virou série da Netflix. Já a facada em Bolsonaro deu filme. A
semelhança acaba aí. Nos dois casos, há um azarão, mas o segundo faz
também jus ao apelido juvenil: Cavalão.
É um filme descomplicado, mas faz vários serviços. Propagandeia
um liberalismo radical. Jair-ator pragueja contra "socialistas,
trabalhistas, comunistas": "Vou deixar você em paz —e proteger você—
para que o que você construiu não seja roubado". Programa anti-Estado,
prática patrimonialista: "Dark Horse" veio do mesmo mundo do qual saíram
as festas de Daniel Vorcaro,
regadas a prosecco e recursos públicos. Ali, políticos bolsonaristas e
empresários fizeram amizades e negócios. Por que não um filme?
O enredo é nacionalista, mas o "a Amazônia é nossa" vem redigido em
inglês e por estrangeiros. A conjuntura nacional se reduz à meia dúzia
de eventos na abertura: fim da ditadura, "levantes
comunistas/socialistas", eleição e prisão de Lula, derrota na Copa do Mundo por 7 a 1, eleição de Bolsonaro.
A política é tripartite: há o "Far Left Progressives" ("vermelhos"), o
"Ruling Party" (corrupto) e o antissistema. Os "socialistas radicais"
aparecem na tramoia para matar Bolsonaro.
É um filme pró-família, mas família à moda do Jair. Flashbacks
constroem sua persona de "alto e bonito", sedutor e desbocado. Sua
origem é clã de machos. Desenha-se um capitão que prende traficante (e
minimiza-se sua ida para a reserva do Exército). Depois, vem o casamento
romântico com a "linda" Michelle e se materializa o pai rigoroso, mas
amoroso, de Laura e três zeros (esqueceram o 04!).
Bolsonaro é um escolhido de Deus. Além das preces do casal e de
seguidores, há uma senhora humilde que provê pílulas salvadoras. Assim
se explica o "milagre" da sobrevivência pós-atentado. Nas paredes do
hospital estão "Pietà" e "A Ressurreição de Lázaro". No hospital,
Bolsonaro, como Lázaro, se levanta e anda até os braços do povo,
enquanto os planejadores do atentado são mortos.
É um drama de inadvertidos efeitos cômicos. Há a peruca fora de lugar
do protagonista, o "papai" de Carluxo salpicado no enredo e uma mescla
de português e espanhol: a milagreira se chama Dolores, o bandido toma
"cerveza" e, em vez do "seu Jair" da averiguadora da tornozeleira, temos
o "senhor Bolsonaro".
A narrativa embaralha fatos e ficções. Amaina, sem negar, o
politicamente incorreto, como o ataque a Maria do Rosário. O preconceito
some na cordialidade —amigo de um negro, simpático com enfermeiro gay.
A fabulação cresce ao longo do roteiro, desclassificando os inimigos:
a imprensa é inescrupulosa e esquerdista, o "Ruling Party" é quem arma
complôs para matar o Mito. Tecem-se suspeitas sobre o resultado
eleitoral de 2022. Um possível ministro do STF calvo e um
empresário-traficante (o mesmo preso pelo capitão) mancomunam-se. É a
apoteose da teoria da conspiração.
A única referência à tentativa de golpe de Estado são manifestações
pró-Mito "em todo o Brasil, em sua maioria pacíficas". A sentença do STF
condenando Bolsonaro vem no final. Não se espere mais que isso sobre o 8
de Janeiro, nada de oração para pneu nem patriota do caminhão.
"Dark Horse" é maniqueísta como o bolsonarismo: há bons e maus,
fortes e fracos, nós e eles. Bolsonaro é pintado como vítima do
"sistema" à espera de um novo milagre. Mas quem agora precisa dele é o
01. A santa Dolores não opera livramentos na vida real, e a "linda"
Michelle já encomendou a alma do enteado: "Pergunta para o Flávio".
FOLHA