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  • O BRASIL EH O QUE ME ENVENENA MAS EH O QUE ME CURA (LUIZ ANTONIO SIMAS)

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    Fragmentos de textos e imagens catadas nesta tela, capturadas desta web, varridas de jornais, revistas, livros, sons, filtradas pelos olhos e ouvidos e escorrendo pelos dedos para serem derramadas sobre as teclas... e viverem eterna e instanta neamente num logradouro digital. Desagua douro de pensa mentos.


    quarta-feira, agosto 05, 2026

    Por que o mundo falhou diante de Gaza?

     

     

    Claudia Guadagnin  

    Mais de 73 mil mortos oficialmente registrados após mil dias de ataques. Milhares de pessoas amputadas e feridas. Mais de 90% da população deslocada. Quatro em cada cinco edificações destruídas ou danificadas. Uma reconstrução estimada pelo Banco Mundial em US$ 71,5 bilhões. Se nem a soma dessas evidências até agora foi suficiente para interromper a destruição de Gaza, a pergunta mais urgente já não é somente o que aconteceu naquele território: mas o que aconteceu com o mundo?

    Em fevereiro de 2024, escrevi um artigo perguntando por que o assassinato de quase oito mil crianças palestinas parecia provocar menos comoção internacional do que um incidente diplomático envolvendo dois chefes de Estado.

    Naquele momento, eu acreditava que aquela pergunta já era suficientemente perturbadora. Dois anos depois, vejo que era apenas o começo.

    Os números cresceram de forma incompreensível. Hoje, milhares de palestinos estão oficialmente registrados como mortos desde o início da ofensiva israelense em Gaza e outros milhares sofreram violentas amputações. Um contingente cuja dimensão real jamais será conhecida com precisão, diante do colapso do sistema de saúde e das dificuldades de registrar as vítimas em meio a tantos bombardeios, deslocamentos e destruição em massa.

    Quase toda a população da Faixa de Gaza foi obrigada a abandonar suas casas ao menos uma vez. Aproximadamente 81% das edificações foram danificadas ou completamente destruídas. Os números impressionam. Mas o que também me arrasa é perceber que eles não nos paralisaram.

    O horror visto como rotina

    A cada novo relatório das Nações Unidas, a cada atualização da Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada levantamento do Banco Mundial, parece haver um breve instante de atenção. Logo depois, seguimos para a próxima crise, a próxima disputa política, o próximo escândalo, a próxima trend ou fofoca das redes sociais.

    Enquanto isso, as mortes e a barbárie naquele território continuam. A destruição continua. A fome continua. O assassinato de mulheres e crianças também. E a humanidade parece demonstrar que aprendeu, silenciosamente, a conviver com tudo isso.

    E não se trata de desconhecimento. Esse é o genocídio mais documentado da história. Nunca houve tantas imagens produzidas em tempo real. Nunca tantos satélites acompanharam a destruição de um território diariamente. Nunca organismos internacionais divulgaram tantos relatórios sucessivos sobre um mesmo conflito. Nunca jornalistas, médicos, pesquisadores e trabalhadores humanitários produziram um volume tão grande de informações enquanto uma tragédia acontecia em tempo real.

    Durante décadas, parte da explicação para atrocidades como o Holocausto nazista apoiou-se, ainda que apenas parcialmente, na dificuldade de acesso à informação, na censura, na propaganda e na lentidão com que as notícias atravessavam fronteiras. Hoje, essa justificativa já não existe. A informação circula em tempo real. As imagens chegam antes dos relatórios oficiais. Sabemos mais, vemos mais e documentamos mais do que qualquer outra geração. Ainda assim, entretanto, nada disso tem sido suficiente para impedir a continuidade dos horrores.

    Depois da Segunda Guerra Mundial, o mundo construiu convenções, tratados, cortes internacionais e organismos multilaterais para impedir que a promessa do “nunca mais” permanecesse apenas como um compromisso moral. A Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio, as Convenções de Genebra, a Organização das Nações Unidas, a Corte Internacional de Justiça e, mais tarde, o Tribunal Penal Internacional nasceram da convicção de que a comunidade internacional não poderia voltar a assistir passivamente à destruição de povos inteiros. Mas estamos fracassando.

    Ao longo dos últimos anos, acompanhamos, dia a dia, bombardeios em tempo real. Vemos hospitais bombardeados, bairros desaparecendo, famílias sucessivamente deslocadas, crianças retiradas mortas ou gravemente feridas de escombros, jornalistas assassinados durante a cobertura do conflito, médicos operando sem anestesia, organizações humanitárias denunciando a falta de água, alimentos e medicamentos e sendo ignoradas.

    Assistimos também a sucessivas tentativas de romper simbolicamente o isolamento de Gaza por meio de missões humanitárias marítimas, interceptadas antes de alcançar o território. Tudo isso acontece diante de câmeras, satélites e transmissões ao vivo. Ainda assim, algo parece ter se rompido na comunidade internacional. Algo que deveria ter poder de influência e ação, mas não teve.

    Helo filme a voz de hind rajab divugalção
    Cena do documentário “A Voz de Hind Rajab” (Foto: Divulgação)

    A fadiga da indignação

    Em Diante da Dor dos Outros, publicado em 2003, a escritora e ensaísta norte-americana Susan Sontag, uma das intelectuais mais influentes do século 20, reflete sobre a forma como reagimos às imagens de guerra e sofrimento. Para ela, essas imagens carregam uma ambiguidade inquietante. Podem mobilizar a consciência, despertar solidariedade e provocar indignação. Mas também podem produzir o efeito inverso: quando a violência se torna permanente diante dos nossos olhos, o extraordinário corre o risco de se transformar em rotina. O olhar se acostuma. A capacidade de espanto diminui. A dor do outro deixa de interromper a vida cotidiana. E Gaza representa esse limite.

    Nunca estivemos tão próximos do sofrimento de pessoas que vivem a milhares de quilômetros de distância. Ao mesmo tempo, nunca desenvolvemos tantos mecanismos para seguir vivendo apesar dele.

    Abrimos o celular e vemos um hospital destruído, uma fila por alimentos, uma criança coberta de poeira sendo retirada dos escombros. Minutos depois, a mesma tela exibe publicidade, vídeos de entretenimento, resultados esportivos, publicidade de casas de apostas ou fotografias de viagens. Não se trata apenas do funcionamento dos algoritmos. Trata-se da forma como passamos a consumir a realidade. A tragédia disputa nossa atenção no mesmo espaço em que competem o cotidiano, o lazer, o mercado e a infinidade de estímulos que caracterizam a vida digital.

    Não é que tenhamos deixado de sentir. É que já não conseguimos sustentar esse sentimento por muito tempo. A indignação cede lugar à fadiga. O choque dá lugar ao hábito. E esse é um dos maiores dilemas morais do nosso tempo.

    Em Emoções Políticas, Martha Nussbaum lembra que nenhuma democracia se sustenta apenas por instituições ou normas jurídicas. Ela depende da capacidade de seus cidadãos ampliarem o círculo da empatia para além daqueles com quem convivem, reconhecendo a humanidade também em pessoas distantes, desconhecidas ou diferentes. Quando esse exercício falha, os princípios universais continuam existindo no discurso, mas perdem força quando são mais necessários.

    Essa reflexão ajuda a compreender por que Gaza ultrapassa os limites de um conflito regional. Não está em jogo apenas a destruição de um território. Está em jogo a credibilidade de uma ideia construída ao longo de décadas: a de que alguns direitos pertencem a todas as pessoas, simplesmente, porque elas são humanas.

    E é essa promessa que vacila quando uma população inteira permanece exposta, durante tantos meses, a níveis extremos de violência, deslocamento, insegurança alimentar e colapso dos serviços essenciais, enquanto a comunidade internacional se mostra incapaz de produzir respostas proporcionais à gravidade da crise.

    O problema não é apenas que os Estados discordam sobre como agir. O problema é que, enquanto discutem, pessoas continuam morrendo, como se fosse aceitável que a proteção da vida dependesse do ritmo das negociações diplomáticas, dos cálculos eleitorais, das correlações de força entre potências ou das limitações impostas pelos organismos multilaterais.

    E, para mim, é nesse ponto que Gaza deixa de ser apenas uma crise humanitária. Ela se transforma em um teste histórico para a própria ideia de humanidade compartilhada.

    O julgamento que ainda está por vir

    As guerras costumam terminar quando seus protagonistas concluem que continuar lutando custa mais do que parar. Raramente terminam porque a comunidade internacional decide que o sofrimento da população civil ultrapassou todos os limites aceitáveis. É uma constatação dura, mas recorrente na História.

    Décadas depois, continuamos perguntando como Auschwitz foi possível. Como Ruanda aconteceu. Como Srebrenica ocorreu diante da presença das Nações Unidas. Em todos esses episódios, a História acabou formulando a mesma pergunta: quem sabia e por que não conseguiu impedir? Gaza ainda provocará o mesmo julgamento.

    O escritor italiano Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz e uma das principais vozes da memória do Holocausto, encerrou Os Afogados e os Sobreviventes, livro de 1986, com um alerta que continua atravessando gerações: “Aconteceu, portanto, pode acontecer novamente: este é o cerne do que temos a dizer”.

    Sua advertência nunca foi apenas sobre o passado. É um chamado permanente à vigilância.

    Gaza não será lembrada apenas como uma sociedade devastada pela guerra. Será lembrada também como o momento em que a humanidade precisou confrontar uma pergunta incômoda: o que acontece quando sabemos de tudo e, ainda assim, somos incapazes de impedir que a barbárie continue?

    “Aconteceu, portanto, pode acontecer novamente.” O alerta de Primo Levi nunca pertenceu apenas ao século 20. Gaza pode ser a prova mais dolorosa de que ele continua falando ao nosso tempo.

    LIBERTA 

      

    Um John Wayne da política mundial deseja impor sua vontade a ferro e fogo

     

     

    CASTRO ROCHA

      

    Emergência nacional

    Nesta semana, mais precisamente no dia 28 de julho, o governo dos Estados Unidos decidiu prorrogar por mais um ano a “emergência nacional” anunciada contra o Brasil, iniciada em julho de 2025.

    Mas o que é esse estado de “emergência nacional”? Trata-se de decisão unilateral, prevista na legislação estadunidense, que pode (e deve) ser tomada sempre que o governo identificar ameaças objetivas contra a segurança nacional. A medida precisa ser renovada anualmente e permite ao Executivo implementar sanções econômicas, bloquear contas e congelar ativos de países ou de terceiros que, em tese, estariam prejudicando interesses americanos, seja da iniciativa privada, seja do âmbito público.

    O governo Trump alegou que as autoridades brasileiras atacaram a liberdade de expressão de cidadãos dos EUA, o que implicaria uma violação dos direitos humanos.

    Mais: o ministro Alexandre de Moraes foi acusado de perseguir politicamente o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, embora não se perceba com clareza a relação desse “fato” com a segurança nacional dos EUA.

    Não é tudo: as empresas estadunidenses de tecnologia da informação, com destaque para as grandes plataformas, seriam prejudicadas pela tentativa do governo brasileiro de regular as redes sociais.

    Dono do mundo, rei do gado, xerife do Velho Oeste, Donald Trump assumiu o papel anacrônico de um John Wayne da política mundial, que deseja impor a ferro e a fogo sua vontade. Só que se trata de uma vontade volátil como a pluma ao vento da ópera de Verdi.

    A prorrogação do estado de “emergência nacional” pouco tem a ver com os elementos que acabei de mencionar. O alvo verdadeiro é a determinação de interferir nas eleições presidenciais brasileiras de outubro de 2026, a fim de favorecer o candidato-fantoche, sabujo, entreguista, traidor, lambe-botas, vende-pátrias.

    (Flávio Bolsonaro: em estado de dicionário.)

    Trocando em miúdos

    Os indícios são alarmantes. Recordemos uma cronologia básica e nada exaustiva.

    Em 7 de março de 2026, o governo estadunidense criou a Coalizão Anticartéis das Américas, também conhecido como “Shield of Americas” (Escudo das Américas). Esqueçamos a caricatura, por demais fácil pela associação infantil com super-heróis, e nos concentremos no risco imediato. No papel, trata-se somente de uma organização transnacional, um convênio para combater o narcotráfico por meio de operações conjuntas de “inteligência”.

    João Trump assina proclamação do Escudo das Américas foto Saul Loeb afp (1)
    Trump assina a proclamação do Escudo das Américas cercado por líderes de extrema direita (Foto: Saul Loeb/AFP)

    Na prática, os Estados Unidos forjam uma aliança com políticos latino-americanos de extrema direita, dócil, muito dócil aos desmandos de Trump, para “obliterar” (verbo preferido do mandatário em Washington) governos progressistas na América Latina. Como se a Operação Condor fosse retomada com uma direção muito mais radical e poderosa.

    (Você se recorda, a Operação Condor foi um consórcio patrocinado pelas ditaduras do Cone Sul para perseguir e assassinar opositores em seus países.)

    No dia 29 de maio de 2026, o governo de Trump declarou o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) organizações terroristas internacionais, para o delírio sem medo da militância bolsonarista. Não se entende, contudo, por que o então presidente Jair Messias Bolsonaro não se antecipou à medida, pois, de 1 de janeiro de 2019 a 31 de dezembro de 2022 poderia tê-lo feito: bastaria ter lançado mão de sua caneta Bic. Não importa: o decisivo é que, ao enquadrar o CV e o PCC nessa categoria, Donald Trump pode ordenar operações militares pontuais no território brasileiro.

    Em 16 de julho de 2026, Marco Rubio anunciou o propósito de declarar tanto organizações políticas de esquerda quanto movimentos sociais como sendo de extrema esquerda, o que permitiria dar o passo seguinte, ou seja, também enquadrá-las na categoria de organizações terroristas. Mais uma vez, o que se almeja é criar condições “legais” para intervenções militares que, por exemplo, não aceitem a reeleição do presidente Lula e do vice-presidente Geraldo Alckmin.

    A prorrogação do estado de “emergência nacional” é apenas mais um passo na escalada contra a soberania nacional. Ameaça agravada pela existência inédita na vida brasileira de uma geração de políticos que não hesitaria em vender a soberania por trinta moedas, ou seja, assenhorear-se do poder para melhor entregá-lo a Donald Trump e seus asseclas.

    (É preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte.)

    Coda

    Donald Trump, dizem alguns jornalistas, precisa usar fralda geriátrica porque perdeu o controle sobre o próprio corpo. Aquele que se considera dono do mundo não comanda o território mínimo de si mesmo.

    Pois é.

    Metonímia brutal do futuro que parece já ter chegado.

     

    LIBERTA 

    Welcome To The Monkey House - Animal Magnet

     

    Big apes, small apes, anything at all apes
    Playing in our cages when the light goes down
    Cut out the facts and only let in the rumours
    We're going to be rich tonight
    We're gonna be huge
    We're going to be rich tonight

    terça-feira, agosto 04, 2026

    ERIC VAN DER WESTEN 🪶 A Feather

     

    4 X Crystal Palace





     

    segunda-feira, agosto 03, 2026

    Atacar... tarifar...

    QUINHO
     

     

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    Nelson Angelo - Testamento (Nelson Angelo - Milton Nascimento)

     

    Cuidem bem de minha casaTão cheia, meninosTome conta de aquilo tudoEm que acredito
    E juntem todas minhas cinzasAo poema desse rioE plantem meu aduboNa semente de meu povo

    PINK

     


    A Odisseia' de Nolan acerta ao investir em herói adulto e culpado

     


     

    Inácio Araujo

      Com "A Odisseia", a notícia principal é que, finalmente, Hollywood admitiu que já existiu no mundo alguma mitologia antes dos super-heróis da Marvel e da DC e, por uma vez, tirou o Batman de cena para investir num herói adulto.

    A segunda é que os planos iniciais anunciam um filme de enorme beleza: uma praia, o mar, um soldado solitário e, enterrado na areia, um enorme cavalo. O de Troia, o fabuloso truque que definiu uma guerra que começou pelo rapto —ou nem tanto— de uma mulher, Helena, papel de Lupita Nyong’o.

    Logo depois, entram os diálogos e o que uma adaptação dessas sugere de mais perigoso —a postura empolada e o melodrama barato. Mas isso logo passa, o que é muito bom.

    Entramos então em Odisseu, ou Ulisses, papel de Matt Damon, aprisionado durante um naufrágio pelas artes de Calipso —Charlize Theron—, que, depois de salvá-lo de um naufrágio, mantém Odisseu prisioneiro em sua ilha por longos anos. Ao fim dos quais tudo que deseja ardentemente é voltar para Ítaca.

    Nessa altura, diga-se, Odisseu já enfrentou perigos extraordinários e chegou à ilha sozinho, tendo perdido todos os seus homens. Esteve, por exemplo, na ilha dos monstruosos ciclopes, onde cegou Polifemo, o mais temível entre os monstros, fato que desencadeou a fúria de Poseidon, deus dos mares e pai da criatura. Daí decorreram os imensos problemas de Odisseu durante seu retorno a Ítaca, onde era rei.

    Aqui é preciso entrar Penélope —Anne Hathaway— na história: a rainha que espera seu marido anos a fio, recusando as propostas de casamento de uma pilha de pretendentes. Ela tem suas artimanhas para manter-se fiel a Odisseu.

    Este enfrentará outros episódios que fazem de "A Odisseia" a aventura das aventuras, como o encontro com a deusa e feiticeira Circe —Samantha Morton—, que enfeitiça e transforma em porcos os guerreiros de Odisseu, ou a travessia do canto das sereias.

    Mas o essencial no Odisseu de Nolan é a enorme culpa que carrega —a sombra de todos os mortos que sua ação guerreira provocou e o atormenta. Essa dor traz também a certeza de um destino infernal. É isso que parece envelhecê-lo precocemente ao longo do filme.

    E talvez por isso, aliás, o filme tenha sido tão econômico na sequência referente ao inferno —o Hades grego. Se Odisseu é sabedoria e sagacidade, traz a consciência de todos os horrores a que sobreviveu tenazmente e de todos os males que provocou.

    O destino infernal do Odisseu é o que compensa o fato de Nolan produzir um herói muito mais próximo da mitologia judaico-cristã do que da grega propriamente dita. No filme, o único contato entre o Olimpo e os homens deve-se às repentinas aparições de Atena, a deusa que protege o protagonista.

    Não se percebem outras intervenções. O mundo dos deuses gregos, no filme, não se comunica com o mundo dos homens; mal sabemos de onde surgem certas entidades. A história de Poseidon, por exemplo: o poderoso senhor dos mares —e de todas as suas decorrências— era nada menos do que irmão de Zeus, deus dos deuses. Ou seja, não era com pouca coisa que Odisseu lutava para sobreviver.

    O essencial é que, no mundo grego, deuses e homens se misturavam, um pouco como acontece nas religiões afro-brasileiras —o que me ensinou o músico Dante Pignatari—, o que é diferente do pensamento judaico-cristão, em que o mundo dos homens é rigorosamente separado de entidades celestes, sobre as quais reina um Deus onipotente.

    Toda a história de Odisseu é a de uma luta em que se envolvem Poseidon —o inimigo—, Atena —sua protetora— e o próprio Zeus. É isso que "A Odisseia" omite e que afasta o filme de seu universo original para algo mais próximo, digamos, do universo Marvel ou DC.

    Mas não se pode culpar Nolan por isso. Ele enfrenta as poderosas forças de Hollywood, os mestres não do universo, mas da Universal —o que, no caso, vale bem mais. Não convinha, portanto, introduzir algo excessivamente exterior ao que a maior parte das pessoas acredita.

    O certo é que Nolan consegue, desta vez, não complicar demais as coisas: trabalha com habilidade os momentos de aventura e até consegue criar alguns momentos comoventes nas sequências finais, aliás prejudicadas pela necessidade de criar, justamente, o "gran finale" da história.

    Seria muito pedantismo esperar um "A Odisseia" que chegasse ao resultado a que, presume-se, Fritz Lang chegaria caso estivesse mesmo filmando "A Odisseia" no belíssimo "O Desprezo", de Godard —é um outro tempo, outro continente e, a rigor, outro mundo. Em todo caso, "A Odisseia" ali é suporte a essa outra epopeia, que é fazer um filme.

    Por fim, Christopher Nolan poderia ter usado com proveito a brilhante ideia que se encontra no "Ulisses", de Mario Camerini, de 1954 —produção mil vezes menor escrita por Ben Hecht. Ali, Calipso —a ninfa que aprisiona o herói— e sua fiel rainha, Penélope, são interpretadas pela mesma atriz: Silvana Mangano. Na verdade, duas mulheres souberam prender o herói: a rainha e a outra. Talvez fossem mesmo uma só.

    Resumindo: "A Odisseia" é um filme a ver, de preferência em Imax.

     FOLHA 

    'A Odisseia' de Nolan substitui ética antiga por sensibilidade de 2026

     


     

    Ivan Finotti

    Não faz sentido cobrar fidelidade literal de uma adaptação. Cinema e literatura obedecem a regras diferentes, e qualquer diretor, grande ou não, tem o direito de cortar episódios, fundir personagens ou inventar cenas.

    O problema de "A Odisseia", de Christopher Nolan, não é esse. O diretor não altera apenas a narrativa de Homero. Altera a moral que a sustenta, substituindo a ética particular da Grécia Antiga por uma sensibilidade do século 21.

    Na epopeia atribuída a Homero, concebida por volta de 700 a.C., Odisseu é admirado pela inteligência astuta que lhe permite vencer inimigos mais fortes ou escapar de situações impossíveis.

    Recorrer ao estratagema, à vingança e à violência não o desqualifica como herói. Pelo contrário, o eleva. Ele pertence a um mundo regido por honra, reputação, lealdade familiar e pela intervenção direta dos deuses.

    Nolan mantém boa parte das aventuras, mas seu Odisseu, papel de Matt Damon, precisa sentir culpa, precisa reconhecer os danos que provocou e precisa pagar por isso.

    A transformação é clara no flashback da queda de Troia. Na tradição clássica, o cavalo representa o triunfo máximo da astúcia de Odisseu. É a arma que vence onde a força fracassou durante dez anos de cerco.

    No filme, porém, ao abrir as portas da cidade para o exército grego, Odisseu assiste a estupros, saques e massacres que passarão a persegui-lo durante toda a viagem de volta ao seu reino na ilha de Ítaca.

    O ardil deixa de ser uma façanha intelectual para se tornar o pecado original da narrativa. Mais adiante, o próprio Odisseu conclui que escondeu soldados dentro de um presente e, assim, violou a hospitalidade protegida por Zeus.

    O crime, portanto, não estaria apenas no massacre cometido contra a população de Troia, mas no próprio método empregado para entrar na cidade: fazer de uma oferenda uma armadilha.

    Para Nolan, esse gesto, essa ruptura moral, destruiu a confiança entre os homens e abriu caminho para as misteriosas invasões dos povos do mar —grupos cuja identidade permanece desconhecida e que alguns historiadores associam ao colapso das civilizações do Mediterrâneo oriental no fim da Idade do Bronze.

    É uma construção dramática engenhosa, mas pura invenção de Nolan. Toda essa atualização facilita a identificação do espectador, mas elimina parte da estranheza moral do mundo de Homero. O mesmo ocorre em outros episódios.

    No texto antigo, depois de escapar de Polifemo, os companheiros repreendem Odisseu porque ele continua provocando o ciclope e coloca todos em risco. Seu erro é o orgulho, agravado quando brada o próprio nome, permitindo assim que Poseidon passe a persegui-lo.

    No filme, a discussão muda de eixo. Odisseu desfere uma flechada desnecessário contra o gigante já derrotado e passa a ser censurado pela tripulação por ter ultrapassado um limite moral.

    Atena também muda de natureza. No poema, ela é uma deusa que conversa com Zeus, orienta Telêmaco, protege Odisseu e interfere concretamente nos acontecimentos. O diretor transforma essa deusa numa projeção psicológica, ligada ao trauma da guerra.

    Não é só Atena. O filme reduz a presença direta dos deuses e torna sua existência ambígua. Zeus é apenas citado, Poseidon se manifesta como força da natureza e Hermes é esquecido.

    Apesar disso, o filme traz uma série de monstros, que fazem a festa do espectador. Com exceção das sereias, que são mostradas apenas de longe. As armaduras são impressionantes e os demais vestuários não deixam a desejar.

    Já a tela verticalizada do Imax, com uma proporção parecida com os antigos televisores de tubo, soa mais uma firula de marketing tecnológico do que de fato transforma a experiência.

    Quanto ao desfecho, em Homero, Odisseu mata os homens que disputam a mão da rainha Penélope, os deuses impõem a paz e o herói continua rei de Ítaca. No filme, ele entrega o trono ao filho Telêmaco, papel de Tom Holland, e parte com a rainha, Anne Hathaway, num exílio voluntário para honrar os mortos e reparar seus atos.

    O curioso é que Nolan preserva o espetáculo da violência ao mesmo tempo em que altera sua interpretação moral. O filme exibe uma sucessão de assassinatos, incêndios e massacres de inocentes, mas exige que o espectador —e também seu protagonista— condene tudo aquilo.

    Nada disso significa que Nolan devesse filmar o clássico como uma peça de museu. Toda adaptação é uma leitura. Mas sua "A Odisseia" traz um Homero higienizado para o público de 2026.

    FOLHA  

      

    Anitta - Você Já Sabe feat. Los Brasileiros (

     

    Você já sabe quem chegou
    Só pelo toque do tambor
    Só pelo toque do tambor
    Você já sabe quem chegou


    A Copa das Bets


    GALVAO




    BIRA DANTAS






    QUINHO


    LADINO



    GUILHERME BANDEIRA


     

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    domingo, agosto 02, 2026

    Macalé - Tempo & Contratempo


    Mas não se ilude tanto, nem esse momento
    Contrastando o tempo com um contratempo O tempo é obra de gente sem raça O tempo não existe, é essa que é a graça

     

    The Hand on King Street | Maozinha na Rua do Rei


     

    The end of reading is here

     

     

     

     

      "We’ve been here before. When society first transitioned from orality to literacy, only a small minority could read. As the only individuals who possessed this valuable skill, they occupied a privileged position, and were paid handsomely for their work. At the Library of Alexandria, scholars in residence lived in the city’s royal complex.

    Today, reading is again clustered among a small minority of the population, but being a person of letters confers less status than it once did. The remaining readers are marginalized, mocked, and in many ways irrelevant. For most people, a life of letters is an economic dead end. Employment at newspapers has fallen by 75 percent in the past two decades. Job openings for academics in the humanities are likewise in decline, and fewer and fewer of the remaining positions are tenure-track. In 2024, only 8 percent of college graduates earned a bachelor’s degree in a humanities discipline. That year, both English and history departments awarded 40 percent fewer degrees than they did in 2012. There’s a fear among historians, whispered during panels and conferences, that they will be the final generation to systematically examine the past."

     longread by Rose Horowitch 

     

    Retrato de familia


    SPACCA

     

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    Tom Waits - "Warm Beer And Cold Women"

     

    Now the moon's risingAin't got no time to loseTime to get down to drinkingTell the band to play the bluesDrink's are on me, I'll buy another roundAt the last ditch attempt saloon


    Inside 'The Odyssey,' Christopher Nolan's Most Epic Movie Yet

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    "The punishing conditions were the point. Nolan considered casting actors to play gods throwing thunderbolts from Mount Olympus but settled on something more primal. “I became more interested in the idea that to people in that period, evidence of gods was everywhere,” he says. In Bronze Age Greece, thunder, rain, and the sun rising didn’t have scientific explanations—they represented the will of the immortals. “The wonderful thing about cinema, and IMAX in particular, is that you can take an audience to a place of immersion, feeling close to events like storms, turbulent seas, high winds. You want the audience to be on the boat with them fearing the ocean, fearing the wrath of Poseidon, the way the characters do. That to me is so much more powerful than any individual image you can have [of a god].”!"

    longread interview with Christopher Nolan
    conducted by Eliana Dockterman
     Inside 'The Odyssey,' Christopher Nolan's Most Epic Movie Yet

    1950 FIFA World Cup: the silence at the Maracanã


    "The Maracanã did not erupt. It collapsed into a silence so total that players later said they could hear their own breathing. Brazil, a country built on music, had no music left. When the English referee George Reader signaled the end of the match, a black cloud fell over the stadium, and it became lifeless, like a cemetery. It was reported later that eight Uruguayans died that day, and several Brazilians committed suicide. In the hours that followed, the city dimmed. Radios went quiet. Celebrations dissolved into stunned stillness. Some fans never made it home. Others wandered the streets as if emerging from a natural disaster."

    read article by CESAR CHELALA

    1950 FIFA World Cup: the silence at the Maracanã | Meer

    Gypsy Hill


     

    Geese - Islands of Men

     

    Lazy eyed, you look weakYou have seen islands of menSinking low as you speakI'm not surprisedWill you stop running awayFrom what is real and what is fake

    Belvedere Road

     


     

    sábado, agosto 01, 2026

    Crises Migratórias


     AMORIM

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    Down South — Paul McCartney

     

    The morning bus was where we two would meet
    I sat beside you on an empty seat
    We talked about guitars and rock and roll
    They were the subjects that would never grow old


    Emily Wilson · An Uncomplicated Man

     

     


    "Nolan’s Odyssey lacks many of the elements that make the poem great. It has nothing convincing to say about time, memory, history, war, or about the relationship between one warrior’s glorious return and the lives of his family, adversaries, comrades, friends and neighbours. It lacks psychological, emotional, political and ethical depth. Its narrative structure is gimmicky. The writing is abysmal. None of the characters has convincing motivation for their actions or words. There are no sex scenes, and all the food looks horrible."

    read the review by EMILY WILSON

     Emily Wilson · An Uncomplicated Man

    Jason Isbell, Amanda ShiresI Follow River (Lykke Li Cover)

     

    Oh, I beg you, can I follow?Oh, I ask you, why not always?Be the ocean, where I unravelBe my onlyBe the water where I'm wading
    You're my river running highRun deep, run wild

    Tu acreditas em...



    FRAGA 

     

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    Supremacistas brancos só saíram do armário, diz Angela Davis

     

     

    "Davis explica por que o trumpismo não é sinônimo do que a maioria está sentindo nos Estados Unidos e nega que a supremacia branca, embora parte da história do país, esteja em ascensão. "Eles apenas saíram do armário."

    Para ela, a tentativa de equiparar antissemitismo à solidariedade palestina deve ser colocada na conta dos conservadores. Já os progressistas ainda não encontraram uma forma de se organizar. Questionada como se sente sendo retratada como um ícone, refuta. "Detesto isso."

    leia entrevista feita por flavia lima 

     

     

    sexta-feira, julho 31, 2026

    St Lawrence Jewry


     

    Centenas nadando do Marrocos à Espanha escancara o fracasso da humanidade

     

     Foto mostra o refugiado sírio Alan Kurdi, de 3 anos, após morrer em naufrágio na costa da Turquia

     LEONARDO SAKAMOTO 

    As imagens de centenas da pessoas tentando alcançar a nado o enclave espanhol de Ceuta, no Norte da África, evocam uma das fotografias mais dolorosas das crises de refugiados no Mediterrâneo, a do menino sírio Alan Kurdi, de três anos, encontrado sem vida em uma praia da Turquia, em 2015. Naquele momento, líderes mundiais prometeram que a comoção produziria mudanças. Onze anos depois, o mar entre a Europa, a África e Ásia continua sendo uma vala comum alimentada pela desigualdade, pela ganância, pelas guerras, pela emergência climática e pela indiferença.

    Ao menos 19 pessoas morreram na atual tentativa de entrada em Ceuta. Nos últimos dias, milhares haviam contornado a nado o quebra-mar que separa Marrocos e Espanha. E milhares de pessoas estenderam-se pelas estradas do país para chegar ao local e tentar a sorte.

    Há famílias, crianças e mulheres, mas são principalmente homens jovens, integrantes de uma geração Z que não vê futuro ou oportunidades no Marrocos no qual nasceram. Quando alguém nessa idade prefere enfrentar o risco a permanecer em casa, o problema não é uma suposta vocação para a ilegalidade. É a falta de alternativas.

    Não se abandona a família, atravessa-se um país e rifa-se a própria vida porque apareceu um vídeo em um grupo de mensagens do zap. As redes sociais podem avisar que uma passagem está aberta, mas não criam o desespero ou o desalento que empurra alguém para dentro da água. Isso é fermentado durante anos.

    O governo marroquino reserva bilhões para estádios e obras relacionadas à Copa do Mundo de 2030, que o país sediará com Espanha e Portugal, enquanto saúde, educação, habitação e emprego permanecem insuficientes. Bairros são removidos para dar passagem à infraestrutura dos grandes eventos, tal como acontece em outros lugares do mundo, inclusive aqui.

    Não surpreende que a gen Z marroquina tenha saído às ruas cobrando serviços básicos e oportunidades nos últimos tempos. Nem que parte dela, diante da repressão e da ausência de perspectivas, passe a enxergar a Europa do outro lado do mar como a única porta de saída.

    Há também famílias empurradas para fora de suas terras pela seca que castiga há anos as regiões mais pobres de Marrocos. Sem água, trabalho ou meios de subsistência, migram primeiro para as cidades e depois para o norte. A emergência climática não aparece na fronteira usando uniforme, mas está presente em cada lavoura perdida, em cada comunidade esvaziada e em cada pessoa obrigada a partir.

    Misturam-se a esse fluxo argelinos, tunisianos, sudaneses, entre outros, marcados por guerras, instabilidade e disputas pelo controle do poder e dos recursos naturais. A Europa gosta de consumir matérias-primas africanas, mas demonstra bem menos entusiasmo quando chegam as pessoas expulsas pelos conflitos e pela miséria associados a essa exploração.

    Onde governos fecham caminhos regulares, redes clandestinas abrem atalhos. Contrabandistas de gente cobram para transportar ou prometer travessias. Quanto mais impossível se torna migrar legalmente, mais lucrativo fica o mercado. Criminalizar quem atravessa sem enfrentar a indústria que lucra com o fechamento das fronteiras é enxugar o mar com uma toalha.
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    A decisão recente da Suprema Corte espanhola, impedindo a devolução sumária daqueles que são interceptados no mar ao tentar chegar a nado a Ceuta e Melilla, espalhou-se rapidamente pelas redes como incentivo. Mas transformar a sentença na causa da crise é conveniente. A corte não concedeu um prêmio a quem nada, apenas afirmou que o Estado precisa respeitar procedimentos, analisar cada situação e garantir direitos previstos em lei.

    Direitos humanos não criam refugiados. Guerras, fome, desigualdade, perseguição, desemprego e colapso ambiental criam.

    E antes de reforçar controles, mobilizar policiais e bloquear estradas, as forças de segurança de Marrocos assistiram com passividade à movimentação. Não é possível afirmar sem provas que Rabat tenha liberado deliberadamente a passagem no começo, mas a inação inicial alimenta a suspeita de que seres humanos estejam sendo tratados como válvula de escape social ou instrumento de pressão diplomática.

    Quando finalmente reagiram, as autoridades impediram jovens de se dirigir à fronteira. Primeiro deixam o desespero correr, depois reprimem os desesperados. Em nenhum dos dois momentos enfrentam as causas que colocaram milhares de pessoas na estrada.

    A crise tampouco é apenas espanhola. Ceuta pode estar recebendo os migrantes agora, mas eles foram produzidos por uma ordem internacional que concentra riqueza, tolera ditaduras úteis, financia guerras, explora recursos naturais e fracassa no combate à mudança climática. Depois, quando as vítimas dessa engrenagem batem à porta dos países ricos, são chamadas de invasoras.

    Isso sem contar que a própria existência de enclaves como Ceuta, um resquício colonial, é extremamente questionável.

    A extrema direita pedirá soldados, muros mais altos, deportações instantâneas e punições coletivas. Ou seja, tacape. Soluções simples, violentas e televisivas dão votos, mas não impedem ninguém de tentar novamente quando ficar significa não ter futuro. Uma cerca que adentra o mar pode deter uma pessoa por uma noite. Não consegue impedir indefinidamente milhões de pessoas sem esperança.

    A resposta imediata precisa incluir resgate, acolhimento, identificação, proteção de crianças e acesso ao pedido de asilo. A resposta duradoura exige rotas legais de migração, cooperação internacional, adaptação à seca, geração de emprego, investimento em educação, saúde e habitação e apoio às comunidades de origem. Recursos internacionais não podem servir apenas para terceirizar a repressão das fronteiras a governos autoritários. Precisam melhorar a vida de quem hoje acredita não ter nada a perder.
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    Milhares de seres humanos nadando em direção à Espanha não constituem apenas uma crise migratória. O fracasso não está em quem entrou no mar em busca de futuro. Está no mundo que tornou o mar a única alternativa.

    UOL 

    Mundo Fantasmo: O riso de Rosa

     

     

    "Um aspecto muito visível na obra de Guimarães Rosa, mas talvez pouco comentado, é o humor que a atravessa em todos os sentidos. Não o humor da mera piada, ou da anedota-de-mesa-de-bar, embora elas estejam presentes e apareçam quando menos se espera; mas, mais frequentemente, o humor de pequenas situações engraçadas da vida diária, tornadas mais engraçadas ainda quando recontadas por jagunços ou capiaus de quem às vezes não esperamos tanta finura, tanta ironia, tanto discernimento. "

    leia a coluna de Braulio Tavares 

    Mundo Fantasmo: 5236) O riso de Rosa (27.5.2026)

    Marilyn Monroe and the World Cup

     

     

    "I went to see Marilyn Monroe: A Portrait, at the National Portrait Gallery in London, the morning after the much-anticipated World Cup football game between England and Argentina. I’m not a big sports fan, and have no attachment to the English squad, but after weeks of public build-up, discussion and expectation, the debacle in Dallas was deflating. I was ready to think about something else and MM seemed an undemanding choice. Little did I guess the exhibition would describe another kind of catastrophe — one more personally affecting than the one that befell English football."

    read the review of the last World Cup games
    and the Marilyn Monroe exhibit
    by Stephen Eisenman  

    Marilyn Monroe and the World Cup - CounterPunch.org

    Bob Dylan - Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again

     

    Well, Shakespeare, he's in the alley
    With his pointed shoes and his bells
    Speaking to some French girl
    Who says she knows me well
    And I would send a message
    To find out if she's talked
    But the post office has been stolen
    And the mailbox is locked
    Oh, Mama, can this really be the end
    To be stuck inside of Mobile
    With the Memphis blues again



    The Queen's Assurance


     

    Nick Mason's Saucerful Of Secrets - Interstellar Overdrive (Live at The Roundhouse)

     

    Belvedere Road


     

    Convenção do Partido

     



    AMORIM


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    David Arney - Billville (feat. Peter Erskine)

     

    quinta-feira, julho 30, 2026

    Bachelor - Stay in the Car [

     

    She said “Stay in the car and I’ll grab what you want”


    Laura Marling - Strange Girl

     

    Build yourself a garden and have something to attendCut off all relations 'cause you could not stand your friendsAnnounced yourself a socialist to have something to defendOh, young girl, please, don't bullshit me


    A Odisseia' de Nolan põe Homero na boca do povo e é experiência poderosa

     

     

    Tadeu Jungle 

      O cinema está na rua. Todo mundo está discutindo "A Odisseia", de Christopher Nolan. Massacrado por parte da crítica e amado pelo público que lota as salas. O filme é pior do que o livro? Por que o filme omitiu o final real? Por que não mostrou o Ninguém do Ciclope?

    Quando gostamos muito de um livro, ao vermos sua adaptação para o cinema, é normal ficarmos decepcionados, porque cada um imaginou a história à sua maneira. Toda adaptação de um texto antigo fala tanto sobre a época em que foi produzida quanto sobre a obra original, fazendo do produto um mix da história e do nosso olhar.

    Mas tanto a história em si quanto o cinema viraram assunto de botequim e isso é uma boa conquista, no meio de tantas bobagens que entopem as redes sociais. Neste momento árduo do mundo, precisamos de cinema, histórias e arte. Platão dizia que Homero, o autor, foi o educador de toda a Grécia.

    Um professor genial, porque ensinava contando histórias —e nelas há inúmeros ensinamentos. Parece que o filme passa a mensagem de Homero: "Você cometeu horrores, mas precisa continuar sendo um ser humano."

    Como continuar sendo um ser humano em um mundo bárbaro em que ele mesmo cometeu atos horrorosos? Esse urubu não sai do ombro de Odisseu. Essa pergunta, ou essa busca, chega rapidamente ao presente: como nos manter humanos em um mundo que se consome em inteligência artificial, talvez nosso grande monstro?

    O filme é polêmico. Na minha visão, as escolhas do diretor produzem uma experiência cinematográfica poderosa, mesmo quando se afastam de Homero. Mas os comentários negativos vão do macro ao micro.

    Por que escolheu Lupita Nyong'o para viver Helena de Troia, tópico top na indignação das redes? Alguns, por exemplo, acham os castelos parecidos com hotéis charmosos.

    Sempre haverá "haters". Importa que me sentei numa cadeira e fui transportado para uma narrativa fluida e musculosa, que me deixou pregado ali, no cinema, por quase três horas, "vendouvindo" uma grande história clássica.

    Se fosse uma adaptação de algo recente, como a Copa de 1970 ou a vida de Juscelino Kubitschek, poderíamos ser mais ferozes na acusação de falsidade, pois conhecemos os personagens e a verossimilhança é necessária para a fluidez da história. Aqui, não. Aqui é Grécia Antiga e cada um tem a sua.

    Temos um filme sobre o retorno, e não sobre a conquista. Isso já nos coloca diante de uma narrativa de volta, e não de avanço. Mesmo que imperceptível a princípio, estamos na contramão das narrativas tradicionais. Eu gosto de unir a frase "estamos indo sempre para casa" da obra-prima "Lavoura Arcaica", de Raduan Nassar, a esta história, pois ela é uma longuíssima viagem de volta, e torcemos para que se complete.

    Trata-se da volta para Ítaca e para Penélope. É uma narrativa que fala do medo, do amor, do desejo, do sexo, das drogas, de cenas de ação extraordinárias, do esquecimento, da memória e da relação com nossos pais e nossos filhos.

    A força do filme vem da forma visceral como a lenda foi traduzida para o cinema. O drama de Ulisses (Odisseu) é vivido com profundidade por Matt Damon. Nolan foi para dentro do personagem e nos faz viver suas dúvidas, seu sofrimento e sua coragem. Odisseu chora. Chora pelas vidas perdidas e não enterradas. Chora pelos anos perdidos. Isso é pesado. É uma saudade do que não viveu.

    Anne Hathaway está adorável. Nolan aproxima Penélope do presente: ela não apenas espera, mas governa pela palavra e administra o desejo e a violência de uma multidão de homens. Uma feminista, ouvi de alguns.

    Os monstros encontrados pelo caminho são algo à parte. O Ciclope me lembrou as esculturas monumentais de Ron Mueck. Nolan usou um boneco real de 18 metros e reproduziu os urros do monstro no set, em tempo real, para que os atores reagissem de verdade. Ficou uma porrada realista.

    A cena de Circe transformando os homens em porcos com certeza é muito mais impactante no cinema do que no livro. É aquele momento em que você se pega fechando os olhos.

    E há mais. As sereias, que fugiram do óbvio e cantam sob a bruma de um sonho, também entram nessa galeria. Esses seres e situações, com atores famosos, ajudam a construir um blockbuster, mas Nolan conseguiu fazer com que eles revelassem também as virtudes e os defeitos humanos.

    A trilha sonora de Ludwig Göransson funciona mais como máquina narrativa do que como mero acompanhamento das imagens. Nada de "música antiga". Nada de orquestra tradicional. Nada do que os épicos de Hollywood nos acostumaram a ouvir. Gongos de bronze, lira, vozes e sintetizadores compõem um clima estranho, que nos aflige e, ao mesmo tempo, nos conduz. A trilha ainda vai render teses acadêmicas, assim como o filme.

    Um filme funciona quando saímos alterados do cinema. Saímos mexidos. Mudados. Aqui, saímos discutindo monstros, deuses, armaduras e infidelidades ao poema. O bom cinema constrói uma verdade, e passamos a vivê-la por duas horas. Três, aqui. Ganhamos uma vida num filme.

    O cinema épico, o cinema de escala monumental, as atrizes e os atores de verdade continuarão a existir. São únicos e necessários. Fundamentais para nossa vida, pois nos ajudam a refletir sobre quem somos, o que desejamos e para onde vamos. Mesmo sabendo que sempre estamos indo para casa.

    FOLHA


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