
LEONARDO SAKAMOTO
Há 130 milhões de razões para criticar o relacionamento promíscuo entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, tal como há 130 milhões de razões para criticar a grana que o senador Flávio Bolsonaro recebeu do mesmo Vorcaro. Mas só uma estará na pauta dos protestos bolsonaristas neste 7 de setembro.
Como falta amor no mundo, mas também falta interpretação de texto, aviso que este artigo não defende Moraes, pego em conversas em que era tratado como advogado particular e consiglieri do bilionário. Longe disso, o ministro precisa se explicar e se tiver cometido crimes, pagar por eles. O que quero aqui é entender como o caso está sendo usado do ponto de vista eleitoral.
Para encher os protestos da direita no 7 de setembro, a campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência da República escolheu Moraes como inimigo, como era de se esperar. Copia uma fórmula já testada e que funcionou na Lava Jato (aliás, tem tanta gente copiando a Lava Jato por esses dias, mostrando que nada foi aprendido, que eu me sinto num grande Dia da Marmota, voltando a 2016).
A campanha de Flávio busca colar que a tentativa de golpe perpetrada por seu pai não existiu e foi tudo uma armação do STF para devolver Lula ao poder. Provavelmente, com a ajuda de cavaleiros templários, dos illuminati, de laboratórios chineses, bilionários comunistas e, claro, Leonardo Di Caprio, tudo conspirado na borda da Terra plana.
O timing é uma mão na roda para o bolsonarismo porque Flávio, sozinho, não empolga muita gente, nem dentro do seu campo ideológico.
E é fácil entender o porquê: Flávio não é Jair. Pode ter herdado o sobrenome, a estrutura política, parte do eleitorado e a máquina de comunicação construída pelo pai, mas não o principal ativo eleitoral de Jair, a capacidade de falar diretamente com sua base e produzir identificação emocional, isso ele não transfere para o primogênito.
Bolsonaro pai pode ser rejeitado por metade do país e ainda assim é impossível negar sua capacidade de mobilização. Ele fala, provoca, cria conflito e transforma ressentimento em presença física nas ruas. Flávio não. É por isso que Moraes se torna tão importante para sua candidatura.
O ministro funciona como aquilo que o senador não consegue ser: um elemento capaz de despertar paixão política. Neste caso, paixão negativa. O ódio a Moraes agrega mais gente do que o entusiasmo pelo senador.
Mas não é o único ministro que ajuda a dar um grau na sua campanha. Enquanto Moraes ocupa o papel de grande vilão, André Mendonça começa a ser promovido pela extrema direita à condição de herói ao atropelar regras e sendo seletivo para investigar o colega e deixar para as vésperas do primeiro turno algo que poderia ter feito seis meses antes, interferindo no processo eleitoral.
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Ou seja: na manifestação cujo objetivo real é fortalecer um presidenciável, dois ministros do STF despertam mais emoção que o próprio.
É uma situação curiosa para quem pretende comandar o país. Flávio precisa do pai para herdar votos, de Moraes para produzir indignação e de Mendonça para oferecer algo ao seu rebanho. Falta apenas descobrir qual é exatamente a função de Flávio nessa história.
UOL