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  • O BRASIL EH O QUE ME ENVENENA MAS EH O QUE ME CURA (LUIZ ANTONIO SIMAS)

  • Vislumbres

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    Fragmentos de textos e imagens catadas nesta tela, capturadas desta web, varridas de jornais, revistas, livros, sons, filtradas pelos olhos e ouvidos e escorrendo pelos dedos para serem derramadas sobre as teclas... e viverem eterna e instanta neamente num logradouro digital. Desagua douro de pensa mentos.


    terça-feira, julho 21, 2026

    “Tu finish” entrará para a história como a sentença mais acertada de todos os tempos

     



    "É fácil e tentador falar mal de Neymar. Ele faz por merecer as muitas críticas à maneira pela qual conduziu, e já podemos falar no passado, uma carreira que poderia ser realmente brilhante e edificante. Em vez disso, teve lampejos em campo e uma atividade extra-curricular bem mais rumorosa fora dele. Não é preciso, de novo, fazer listas. Corre-se o risco, sempre, de cair num moralismo barato ao relacionar seu ocaso a festas, mulheres, mansões, carrões, iates, penteados e relógios.

    Tenho lá minhas restrições, sobretudo estéticas, a determinadas mansões e carrões. Suas escolhas para gastar a fortuna que arrecada, porém, são pessoais e não cabe a ninguém contaminar análises esportivas com gostos pessoais. Seu comportamento, porém, é público e amplamente exposto pelo próprio em suas redes sociais, o que o submete ao escrutínio permanente de torcedores, fãs, inimigos, jornalistas, todo mundo. E eu, se é que minha opinião importa, sempre achei o rapaz um bobalhão."


    leia texto de FLAVIO GOMES 

    Só Copa (11) - Flavio Gomes - Gira Mondo

    World Cup 46 graus

     

     

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    How Argentina turned the World Cup final dirty with shoves, skulduggery and squealing

     

     

     But just how dirty was the 2026 World Cup final? We’ve picked out the most niggly moments.

    How Argentina turned the World Cup final dirty with shoves, skulduggery and squealing - The Athletic

    Trump, Infantino and an awkward dash: Everything that happened in the World Cup trophy presentation

     

     

    Trump, Infantino and an awkward dash: Everything that happened in the World Cup trophy presentation - The Athletic

    Espanha campeã do mundo: E o Brasil, para onde vai?

     

     

    Carlos Eduardo Mansur

     

    Conta a história do futebol que campeões ditam tendências. Mais ainda quando esses campeões se consagram numa final tão dominante, e até certo ponto frustrante, porque durante muitos dias se projetou um duelo e, no fim das contas, o que aconteceu em Nova Jersey foi um monólogo futebolístico. Então, sob o ponto de vista brasileiro, cabe tentar entender para onde vamos após o título da Espanha.

    Quando os mesmos espanhóis ganharam o mundo em 2010, em meio à brutal dominação do Barcelona de Guardiola, era como se o chamado Jogo de Posição fosse uma referência da “forma certa” de se jogar futebol. Em todos os continentes, surgiram cópias, boa parte delas rascunhos mal desenhados. Mas muitos conceitos daquele time terminaram incorporados ao jogo contemporâneo. Hoje, a lei da ação e reação do futebol já fizera emergirem maneiras eficientes de enfrentar o modelo posicional, até que a Espanha se firma como a melhor seleção do planeta praticando uma releitura desta exata forma de se praticar futebol. Que lição o Brasil tira disso?

    O risco é exatamente ter a leitura equivocada do que aconteceu. Nova Jersey não assistiu à comprovação da superioridade do jogo posicional sobre o modelo de aproximações e associações curtas dos argentinos. O que houve foi uma imensa imposição desta Espanha sobre esta Argentina. O futebol não cria modelos infalíveis ou fórmulas prontas, tampouco aposenta modelos. Então, o Brasil não precisa, necessariamente, viver outra febre, outra epidemia de cópias do modelo espanhol. Há mil maneiras de se jogar e ganhar.

    O que existiu na construção desta Espanha campeã do mundo, isto sim, foi o que mais falta ao Brasil quando o assunto é seleção: um norte. Há um projeto de futebol em torno da equipe que representou a Espanha no Mundial, após ciclos de Copas mal jogadas em 2014 e 2018, mas que não desfizeram a crença no tipo de futebol que o país abraçou. E, como em todo projeto de futebol bem-sucedido, há os planos e os felizes encontros. O surgimento de Lamine Yamal e Nico Williams, símbolos de um mundo sem fronteiras, de uma Europa multiétnica, multicultural, deu ao jogo de posse e passes o acréscimo do drible, da agressividade perto do gol rival. E, nos últimos três anos e meio, Luis de la Fuente trabalhou com esta equipe de forma estável.

    O Brasil não precisa ser a Espanha, jogar como ela. Precisa preencher as lacunas de sua formação, em setores como o meio-campo e as laterais, mas fundamentalmente ter um projeto de futebol estável na CBF, voltado para a seleção, para os grandes torneios.

    Quanto à final, ao jogo, a Espanha superou a Argentina em todas as fases e faces da partida. Se os argentinos ameaçavam pressionar, Rodri se colocava como homem livre para distribuir o jogo. Se os meias MacAllister ou Enzo Fernández eram atraídos, Olmo e Oyarzabal esbanjavam leitura de espaços para encontrar a bola. Faltava à Espanha um finalizador, talvez a grande lacuna de sua escola.

    Mas a ampla posse, o amplo domínio coletivo, foi levando a Argentina à exaustão. E a expulsão de Enzo Fernández foi o golpe fatal sobre um time que só conseguia resistir, nunca ameaçar. Na prorrogação, 16 anos após Iniesta, Ferran Torres fez o gol que voltou a consagrar o jeito espanhol de jogar futebol.

    GLOBO

    Yamal, soccer star and son of African migrants, personifies a changing Spain

     

     "Yamal’s response was interpreted as a criticism of the implication that players of immigrant background do not completely belong to the countries that they play for. In countries like France and Spain, where the children of nonwhite immigrants sometimes struggle to penetrate the establishment, soccer provides a rare opportunity to become national icons.

    Yamal, born and raised in Spain, has also felt the sting of anti-Muslim slurs in soccer stadiums. Spanish fans, who almost certainly knew that their star player was Muslim, tried to motivate the crowd to jump up and down in a game against Egypt this year by chanting “You’re a Muslim if you don’t jump.” That prompted Yamal to lament “ignorant, racist” fans who were “disrespectful” to Muslims. He has also faced criticism from Moroccans who felt betrayed by Yamal’s playing for Spain and not Morocco, where his father was born."


    read report by Jason Horowitz

    Yamal, soccer star and son of African migrants, personifies a changing Spain

    Alex Maas - Been Struggling

     

    When we woke
    To the pearl grey dawn of winter
    Then we spoke
    All the silence had turned to laughter

    domingo, julho 19, 2026

    Spain vs Argentina World Cup final predictions: Winners plus Golden Ball and Golden Boot picks

     

    Spain vs Argentina World Cup final predictions: Winners plus Golden Ball and Golden Boot picks - The Athletic

    Por que Espanha x Argentina é uma final ainda melhor do que parece?

     

     

    Carlos Eduardo Mansur

    Porque há muitas histórias dentro de uma só partida: da possibilidade de ampliar ainda mais o legado de Messi — sim, ainda é possível — ao choque entre os campeões de América do Sul e Europa. Mas, principalmente, o cada vez mais raro encontro entre seleções que conservam traços característicos de suas escolas de futebol.

    Houve certa surpresa quando a Espanha dominou a França na semifinal, porque estava criado um consenso de que os franceses eram uma presença certa no último jogo da Copa. É compreensível porque havia no time uma exuberância traduzida em individualidades que pareciam sempre prestes a ganhar jogos. Era sedutor. E a derrota francesa levou à falsa impressão de que a final perderia brilho.

     

    Porque ficou um tanto esquecido o fato de que, na semifinal, a Espanha apenas recuperou um futebol que sempre a caracterizou. Os espanhóis foram a melhor seleção deste ciclo. E terão, no domingo, um rival sob medida para que se crie o cenário mais fascinante para a decisão. Vivemos um futebol globalizado que tendeu a estandardizar as formas de jogar, apagar escolas, traços de identidade locais que o futebol, como manifestação cultural, era capaz de exprimir. Mas justamente Argentina e Espanha, as duas seleções que mais claramente fogem a esta regra, farão a final.

    Lionel Scaloni, técnico argentino, costuma contar que assumiu o cargo, em 2018, convencido por várias das ideias consagradas no futebol globalizado atual: velocidade, pressão, transições rápidas. Até entender que “os melhores jogadores argentinos jogam outro tipo de jogo”. E construiu um time muito identificado com o imaginário coletivo do futebol do país: aproximações, trocas de passes curtas, combinações.

    A Espanha é um fenômeno mais recente, uma interpretação própria do chamado “jogo de posição” consagrado pelo Barcelona de Guardiola, com profunda influência na seleção campeã de 2010. É também um modelo baseado em posse e controle, mas que ganhou nos últimos anos pontas como Lamine Yamal e Nico Williams, responsáveis pelo drible e pela aceleração perto do gol rival, que acrescentavam agressividade, algo em parte perdido porque Williams raramente esteve disponível nesta Copa.

    Domingo, vão entrar em campo dois times reconhecíveis, duas escolas cujas seleções preservam um imaginário ligado ao futebol desses países. As duas gostam da bola, mas interpretam a posse e o controle de formas claramente distintas. Para os espanhóis, as referências são os espaços no campo. É através da posição, da zona ocupada por cada jogador, que se pretende criar vantagens, atraindo rivais, tirando de posição ou gerando superioridades em áreas do campo. Para os argentinos, a referência é a bola. Em torno dela jogadores se juntam para tocar e avançar, progredir. E, claro, deixar Messi confortável para decidir quando o time precisar.

    Antes do jogo, é difícil fugir da sensação de que há um certo favoritismo espanhol. Serão dois times lutando para ter o controle da bola, e a diferença parece estar no que aconteceria com cada um dos times caso seja o rival quem consiga ditar o ritmo. E, neste ponto, a Espanha parece ter mais segurança defensiva e armas para ganhar sem controlar. Mas mesmo essa impressão soa frágil porque não faltaram situações em que a Argentina foi posta contra a parede neste Mundial. E sempre apareceu Messi para encontrar uma saída.

    Por falar no maior jogador do mundo, salvo um evento impactante na final, seja um pênalti perdido ou algo fora do roteiro, a Copa já tem o seu craque.

     

    GLOBO  

      

    Why the World Cup final is a battle between individualism (Lionel Messi) and teamwork (Spain)

     

     

    By Michael Cox

    There are team sports. There are individual sports. And there are sports where the tension between the team and the individual is the most fascinating thing.

    Certain games are so unarguably team sports that there’s no incentive for any player to go solo. You won’t ever read newspaper player ratings for rowing or synchronised swimming. Equally, there are certain sports — golf, say — where players technically have team-mates in certain competitions, but where it’s ultimately all about individual performance. There’s no genuine combination play.

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    Football is in the zone of conflict. The fundamental quality required when building a World Cup-winning side is a group of top-level footballers. No one has ever won this competition without several world-class players in their starting XI. Equally, there are numerous examples of teams who have failed despite all the talent they could hope for, and teams who punch above their weight through cohesion and mutual understanding.

    All this is fairly obvious, but never before in World Cup history has there been a final between two teams at obviously opposite ends of the spectrum. Other World Cup finals have been billed as Johan Cruyff vs Franz Beckenbauer (1974), Roberto Baggio vs Romario (1994) or Lionel Messi vs Kylian Mbappe (2022). But this is more of a hybrid: it’s Spain vs Messi.


    Spain are not reliant on one individual. Their obvious superstar, Lamine Yamal, has had a relatively quiet tournament; flashes of magic, certainly, but one goal and no assists. Their other two regular forwards, Alex Baena and Mikel Oyarzabal, are not obviously world class. Their midfielders have all had some prominent games, and some quieter games.

    But Spain function because they’re all about the system. Everyone knows their role. No one does their own thing. It doesn’t matter whether it’s the first team, the reserve team, the women’s team or one of various youth teams. Spain are about a collective, about sacrificing your individual desires to work for the whole.

    The defining feature of their impressive 2-0 victory over France, the favourites for this tournament going into the semi-finals, was how Spain used their full-backs on the overlap. Whereas France’s forwards acted as if the full-backs were there to play a supporting role, making workmanlike decoy runs to allow players time and space, Spain’s forwards saw those players as equals: a fundamental part of the side, worth playing clever passes to. Spain’s win was sealed when right-back Pedro Porro played a give-and-go with No 10 Dani Olmo to get in behind and score. It feels like, in the France side, the No 10 would have tried to produce a moment of individual magic.


    Spain have various leaders in key statistical categories, spread across their front three. Oyarzabal has had the most shots on target (11), Yamal has attempted the most dribbles (49), Baena has created the most chances (10). And then there’s Argentina, whose leader in those three categories is Messi (18), Messi (41) and Messi (25).

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    The funny thing, of course, is that Spain have played in roughly this way for the best part of two decades, and the previous time they won the World Cup, back in 2010, there was an interesting contrast between their style and the approach of Barcelona the following season, precisely due to Messi. The two sides featured five of the same six in midfield and attack: Sergio Busquets, Xavi Hernandez, Andres Iniesta, David Villa and Pedro Rodriguez. The difference was that Spain had deep midfielder Xabi Alonso, while Barca had Messi. And by virtue of being the world’s best player, Messi was given licence to do his own thing.

    Even upon his arrival at La Masia from the age of 13, Messi was different. When asked his favoured position, Messi said ‘enganche’, the Argentine word for No 10. No one had a clue what he was talking about. Barcelona’s philosophy was all about passing. Messi’s style was to be a dribbler. At first Barcelona tried to turn Messi into something more typical of their academy, before realising this wasn’t a typical Barcelona player at all. Not only did Messi’s dribbling become the first world-class element of his game, he eventually rose to such prominence that he was brought inside off the right flank and into a false nine position. Given the positioning of Pedro and Villa, wide forwards who ran in behind rather than hugging the touchline, Messi was in effect playing as an enganche.

    The crucial thing about the Messi of that period, though, was that it wasn’t about making allowances for him. He changed Barcelona’s system, certainly, and other players — particularly Zlatan Ibrahimovic — suffered as a consequence. But in terms of his defensive contribution, Messi mucked in. In terms of shape, Barcelona were always well balanced. When he and Cristiano Ronaldo were both at their best, it was clear Real Madrid had to make allowances for Ronaldo’s lack of defensive contribution. The holding midfielders had to slide across, the winger on the other side needed to play deeper, the No 10 had to do more defensive work, the striker was there to serve Ronaldo. He, of course, justified his freedom from the system, much as Mbappe generally has for France. But Messi felt like he was part of the system.


    At 39, Messi doesn’t have the legs of old. Even at World Cup 2022, everyone understood that Messi needed to channel his energy, and switch off without possession. Therefore, the striker alongside Messi, usually Julian Alvarez, actually spends much of the time deeper than him, dropping into midfield to pick up the opposition holding midfielder. Messi has licence to wander back, spending much of his time in offside positions.

    Equally, in attack, Argentina try to work the ball into him whenever possible, at times when attackers would be better off taking a shot on themselves. “We will do everything to make sure Messi wins the World Cup again,” said his striker partner Alvarez after his brilliant goal won a tight quarter-final against Switzerland. “Every game is a battle for him.”

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    And this is how Argentine football works. Throughout this World Cup, their fans have paraded banners, flags and drums that depict Mario Kempes, Diego Maradona and Messi. This essentially means: 1978, 1986, 2022. The individuals are interchangeable with the successes.

    The curious thing is that football has steadily become less about individualism and more about collectivism over the decades, while media coverage focuses increasingly on players rather than teams. This World Cup has been notable for the star players all turning up, yes, but some of the analysis of teams has been somewhat reductive. Cape Verde weren’t a solid side solely because of goalkeeper Vozinha; they were well organised and technically impressive. Portugal weren’t underwhelming purely because of Ronaldo; no area of the side seemed to function properly.

    The beauty, of course, is that both methods remains viable. Spain are European champions. Argentina are South American champions. Teamwork often seems a more successful and sustainable approach in the modern era of football. But when the opposition’s star individual is the greatest footballer ever, anything could happen.

    THE NEW YORK TIMES 

       

    3 X Flores




     

    Orlando Silva - Carinhoso (1937)

     

    Meu coração, não sei por quê
    Bate feliz quando te vê
    E os meus olhos ficam sorrindo
    E pelas ruas vão te seguindo
    Mas mesmo assim foges de mim


    C.J. Chenier & The Red Hot Louisiana Band - Au Contraire, Mon Frere [Remastered]

     

    Argentina x Espanha: torcer não pode virar um teste de caráter

     

     

    Thales Machado

     

    Como se não bastasse escolher um lado para a final da Copa, uma parcela da opinião pública, sobretudo nas redes sociais, resolveu distribuir ficha de antecedentes aos torcedores. A Espanha ganhou a condição de escolha moralmente recomendável para o domingo. A Argentina passou a exigir justificativa, ressalva e nota de repúdio. O argumento aparece em diferentes versões: não se pode torcer por um país racista, por uma torcida que protagonizou episódios racistas ou por jogadores que não condenaram publicamente seus companheiros. Em algum ponto desse caminho, uma partida de futebol virou teste de caráter.

    Convém começar pelo que não está em discussão. O canto entoado por jogadores argentinos depois da Copa América de 2024 é racista. Enzo Fernández participou, transmitiu a cena e deve responder pelo que fez. A federação argentina deve ser cobrada por sua reação. Também seria importante que Messi, Scaloni e outros nomes relevantes da seleção já tivessem condenado o episódio com clareza. Há silêncios que decepcionam, manifestações frouxas que dizem menos do que deveriam e instituições que preferem esperar a indignação passar. Combater o racismo pressupõe identificá-los, cobrá-los e não aceitar o velho truque de chamar racismo de brincadeira.

    O problema começa quando a responsabilidade deixa de ter nome e sobrenome e passa a se espalhar por contato. Enzo cantou. Outros jogadores não se manifestaram. Logo, concordaram. Se concordaram, a seleção argentina representa o racismo. Se a seleção representa o racismo, quem torce por ela aceita o pacote. A sequência parece lógica porque percorremos seus passos depressa. Vista com calma, é uma escada cujos últimos degraus foram colocados no ar.

    Enzo Fernandez comemora gol de empate da Argentina diante da Inglaterra; ao fundo, Jude Bellingham lamenta empate no chão — Foto: Shaun Botterill/Getty Images via AFP
    Enzo Fernandez comemora gol de empate da Argentina diante da Inglaterra; ao fundo, Jude Bellingham lamenta empate no chão — Foto: Shaun Botterill/Getty Images via AFP

    Seria maravilhoso viver num mundo em que toda pessoa com alguma influência se pronunciasse contra cada injustiça. Gostaria de ouvir mais jogadores sobre racismo, machismo, homofobia e violências que frequentam estádios, vestiários e diretorias. Pronunciamentos deslocam limites e deixam as vítimas menos sozinhas. Mas há uma diferença entre cobrar uma manifestação e transformar sua ausência em confissão. O silêncio pode ser covardia, desinteresse, proteção do grupo ou concordância. Interpretá-lo exige contexto. Transformá-lo automaticamente em concordância resolve a investigação antes de fazê-la.

    A Espanha oferece um bom teste para essa lógica. Vinicius Junior sofreu ataques racistas repetidos em estádios do país. Em apenas uma temporada, a La Liga encaminhou dez episódios à Promotoria. Houve insultos, sons de macaco, um boneco enforcado numa ponte e até uma campanha para que torcedores usassem máscaras e pudessem atacá-lo sem ser identificados. A federação espanhola reconheceu que o futebol do país tinha um problema. Ainda assim, não houve uma mobilização coletiva, espontânea e contundente dos jogadores da seleção.

    Vini Jr. apontando torcedores que o xingaram com ofensas racistas — Foto: Jose Jordan/AFP
    Vini Jr. apontando torcedores que o xingaram com ofensas racistas — Foto: Jose Jordan/AFP

    Dani Carvajal, companheiro de Vini no Real Madrid e nome importante da seleção espanhola nos últimos anos, condenou os agressores, mas também disse que o país não era racista, recorreu ao argumento de que tinha amigos de outras cores e afirmou que o assunto não era discutido no vestiário da seleção. Foi uma resposta insuficiente diante do que Vinicius vivia? Acho que sim. Isso me autoriza a concluir que Pedri, Rodri, Merino ou todos os espanhóis concordavam com quem chamava Vini de macaco? Claro que não. Curiosamente, ninguém exige do brasileiro que pretende torcer pela Espanha no domingo uma explicação prévia sobre esse silêncio.

    Em março deste ano, durante um amistoso contra o Egito, parte da torcida espanhola cantou “quem não pula é muçulmano”. Lamine Yamal, muçulmano e filho de pai marroquino, estava em campo representando o país. Ele, Pedri, Joan García, Luis de la Fuente e a federação condenaram o episódio. A reação correta não apaga o que aconteceu, mas revela quantas Espanhas cabem na mesma arquibancada. Lamine e Nico Williams também já sofreram ataques racistas de espanhóis enquanto vestiam a camisa espanhola. Uma nação reúne os que atacam, os que são atacados, os que reagem e os que se calam. Não pensa com uma cabeça só, por mais que as redes sociais gostem de desenhá-la assim.

    Yamal leva vantagem em confronto direto contra Mbappé — Foto: David Ramos/Getty Images/AFP
    Yamal leva vantagem em confronto direto contra Mbappé — Foto: David Ramos/Getty Images/AFP

    O Brasil poderia nos ensinar alguma prudência. Na Copa de 2018, torcedores brasileiros cercaram uma mulher na Rússia e a induziram a repetir um canto sexual ofensivo cujo significado ela não conhecia. A cena da “buceta rosa” foi machista, humilhante e particularmente covarde porque explorava a barreira da língua para fazer da vítima parte da piada. Os homens foram identificados e houve repúdio público. Não se viu, porém, uma manifestação relevante dos jogadores da seleção brasileira.

    A omissão foi criticável. Mas imaginemos a conclusão atravessando o mundo: Alisson, Casemiro e Thiago Silva não se pronunciaram; portanto, concordavam com aqueles torcedores; portanto, a seleção brasileira representava o assédio; portanto, um menino de Bangladesh deveria abandonar sua camisa amarela para demonstrar respeito às mulheres. Pouca gente no Brasil aceitaria essa sequência. O menino de Bangladesh, pelo visto, tem direito a alguma complexidade. O brasileiro que gosta de Messi precisa apresentar a documentação completa.

    Os casos de Robinho e Daniel Alves expuseram a mesma seletividade. Robinho foi condenado por estupro coletivo na Itália e cumpre a pena no Brasil. Daniel Alves foi condenado por agressão sexual na Espanha, mas teve a sentença anulada em recurso; a Promotoria recorreu da absolvição. Durante muito tempo, predominou o silêncio entre os jogadores brasileiros. Leila Pereira o chamou de “um tapa na cara de todas as mulheres”, jogadoras da seleção feminina fizeram críticas duras e Danilo falou sobre conscientização. Foi justo cobrar mais do futebol masculino. Seria absurdo concluir que todos os jogadores calados apoiavam a violência sexual e que torcer pelo Brasil significava absolvê-la.

    A obrigação de se manifestar muda conforme o caso, a nacionalidade e a conveniência de quem cobra. Há quem considere o silêncio argentino prova de cumplicidade, mas tenha achado exagerada a cobrança aos atletas brasileiros nos casos Robinho e Daniel Alves. A régua moral, como alguns laterais, apoia bem de um lado e deixa uma avenida do outro.

    Não se trata de colocar racismo e machismo numa competição, mas de testar um princípio. Se silêncio sempre significa concordância, precisamos aceitar essa regra quando ela alcança nossos ídolos e nossa seleção. Se percebemos que a realidade brasileira exige contexto e individualização, os argentinos também merecem ser julgados como indivíduos.

    Uma causa justa não torna bom todo argumento usado para defendê-la. O antirracismo merece precisão: saber quem praticou o ato, quem o protegeu, quem se omitiu, quem reagiu e quem está sendo responsabilizado apenas por ter nascido no mesmo país ou vestir a mesma camisa. A culpa coletiva, além de intelectualmente preguiçosa, atinge com frequência justamente quem enfrenta por dentro as violências atribuídas a toda uma sociedade.

    Torcer não é absolver. É possível querer a vitória da Argentina, condenar Enzo Fernández, considerar decepcionante o silêncio de Messi e exigir mais da AFA. Assim como é possível torcer por Lamine Yamal sem responder pelos espanhóis que atacaram Vinicius ou cantaram contra muçulmanos. Afeto não suspende a consciência crítica, e consciência crítica não exige o confisco de todo afeto.

    No domingo, cada um encontrará seus motivos. Messi, Lamine, Scaloni, a maneira de jogar, uma viagem antiga, uma camisa guardada, o prazer sempre difícil de explicar de ver perder o time que o cunhado escolheu. Nenhum deles fornecerá um certificado de virtude. Argentina x Espanha decidirá a Copa do Mundo. Para avaliar nosso caráter, ainda será preciso um pouco mais do que conferir para quem torcemos. 

    GLOBO 


     

    No domingo, eu quero que ganhe a Espanha. Porque eles merecem

     

      

    Fernando Kallás

     

    Não sei se é um defeito ou qualidade, mas eu não consigo viver sem me envolver emocionalmente com tudo que faço. Sempre me apaixonei com enorme facilidade, me entrego de corpo e alma às minhas amizades e caio no choro por qualquer coisa. Me emociona especialmente ver o sucesso de pessoas queridas e histórias de sacrifício que terminam com a alegria de quem fez por merecer.

    Pode ser uma ingenuidade ou romantismo, mas são momentos que me fazem querer acreditar que nesse mundo voraz ainda pode haver justiça para os justos. Que as coisas eventualmente dão certo para quem é do bem.

    Mas essa noção de bem ou mal é algo ambígua quando se trata de esporte. O que realmente define quem merece ou não, quem fez mais ou menos? No esporte, o que mais há são histórias de superação. Ninguém chega na elite sem ter passado por um longo caminho, deixando curvas e obstáculos para trás que acabam moldando a personalidade e o caráter de atletas e técnicos.

    A vitória de um significa (quase sempre) o sofrimento do outro. Isso acaba fazendo do ato de torcer uma ação de enorme egoísmo. Mas é parte do jogo. Alguém tem que ganhar e alguém tem que perder.

    O torcer para o jornalista esportivo, na maioria dos casos, é um ato diferente de um torcedor comum e os motivos vão muito além da ética jornalística. O torcedor vibra pelas cores de um clube, pelo país onde nasceu, por um nome em uma camisa.

    Mas o jornalista acaba conhecendo o outro lado do esporte, o lado humano dos que entram em campo ou daqueles que estão nos bastidores. Técnicos, preparadores, auxiliares, dirigentes, assessores. E essas relações pessoais que vão sendo construídas muitas vezes acabam se sobrepondo sobre a paixão que aquele jornalista tinha quando criança por algum clube, por exemplo. Porque, quando você se vê diante de um grupo humano especial, que faz as coisas direito, com talento, esforço e humildade, você quer genuinamente que as coisas deem certo para eles.

    Esse sentimento aconteceu comigo na Eurocopa de 2024. Comecei a cobrir a seleção espanhola com o Luis Enrique logo quando entrei na Reuters, um ano antes da Copa de 2022. O ambiente era ruim dentro e fora do vestiário. Lembro do clima pesadíssimo na coletiva de imprensa dele logo após a eliminação precoce, nas oitavas, para o Marrocos.

    Com a saída de Luis Enrique, chegou Luis de la Fuente, que vinha de ser técnico da base durante quase dez anos. Uma surpresa enorme, quase ninguém sabia quem ele era. Mesmo com o título da Nations League em 2023, pouca gente botava fé nesse time antes da Eurocopa na Alemanha.

    Luis de la Fuente comemora com Yamal após título da Euro 2024 — Foto: Odd ANDERSEN / AFP

    Dois meses antes da competição, tive a oportunidade de entrevistar De la Fuente. Ele chegou na sala, me chamou pelo nome, e conversou comigo durante meia hora sobre como estava convicto de que era mais importante dar prioridade às pessoas antes dos conceitos futebolísticos. Que além de bons jogadores, só iria convocar atletas que fossem boas pessoas.

    A filosofia dele é simples e está baseada em colocar o coletivo acima do individual. E para isso ele precisa de uma convivência saudável no vestiário. “Quem determina a saúde de um vestiário são aqueles que não jogam,” dizia.

    Achei aquilo fascinante, mas meio ingênuo e romântico. Acreditar que um time dirigido por um técnico de base boa praça, cheio de jogadores do Athletic Bilbao e Real Sociedad e um garoto de 16 anos do Barcelona seria capaz de competir contra seleções com estrelas mundiais.

    E acompanhar aquele caminho, jogo a jogo, foi uma das experiências mais incríveis da minha vida. Ver como um time sem egos, onde os reservas se alegram e se emocionam com o sucesso dos titulares, que jovens escutam e respeitam seu treinador com uma admiração construída por anos de convivência na base.

    Oyarzabal, da Real Sociedad, é artilheiro da Espanha na Copa do Mundo — Foto: FRANCK FIFE / AFP

    Na terça-feira, voltei a me emocionar, lá em Dallas, porque a atitude continua a mesma, mesmo depois do sucesso na Euro. No domingo, eu quero que ganhe a Espanha. Porque eles merecem.

    GLOBO 


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