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  • O BRASIL EH O QUE ME ENVENENA MAS EH O QUE ME CURA (LUIZ ANTONIO SIMAS)

  • Vislumbres

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    Fragmentos de textos e imagens catadas nesta tela, capturadas desta web, varridas de jornais, revistas, livros, sons, filtradas pelos olhos e ouvidos e escorrendo pelos dedos para serem derramadas sobre as teclas... e viverem eterna e instanta neamente num logradouro digital. Desagua douro de pensa mentos.


    sexta-feira, junho 19, 2026

    Was Neymar worth the risk?

     

    OLIVER KAY 

    The Brazilian Football Confederation (CBF) issued a statement on Thursday saying Neymar had not travelled to Philadelphia for their game against Haiti on Saturday. Instead, the CBF said, the 34-year-old “will remain in New Jersey to optimize the final phase of his recovery process”.

    Neymar is highly unlikely to be fit before the knockout stage due to a lingering calf problem that has raised questions about head coach Carlo Ancelotti’s decision to recall him to the squad, almost three years since his last international appearance.

    There are obvious differences between the situations — Pulisic hoping to be involved against Australia today, Neymar unavailable for another week at least — but in both cases it has brought a sense of melodrama. Pochettino and Ancelotti might feel the media and public fixation on an injured player has some kind of positive effect, diverting some of the intensity away from the team’s preparations ahead of a big game. Alternatively, they might feel it causes a headache.

    Ancelotti’s decision to call up Neymar was a surprise after another season punctuated by injuries. If it was a calculated risk, then the calculation has to be based on an assumption that the Santos forward can make a big impact in the knockout round.

    A player of Neymar’s supreme talent is always capable of producing a moment of brilliance, even when nothing like 100 per cent fit. But if he is unable to play in the group stage, then it might be touch-and-go in the knockout stage, too.

    It looks like a risk, even after a flurry of goals for Santos brought a clamour for his inclusion. The thought of Neymar returning to inspire the selecao after a horrible run of injuries — like the great Brazilian forward Ronaldo did in 2002 — is an appealing one, but it looks increasingly like a long shot.

    THE NEW YORK TIMES


    The Rolling Stones - Waiting On A Friend -

     

    IN MEMORIAM SONNY ROLLINS


    Roll, Jordan Roll - The Princely Players

     

    Went down to the river Jordan,where John baptised threeWell I walked to the devil in hellsayin John ain't baptise meI say;Roll, Jordan, roll


    quinta-feira, junho 18, 2026


     

    The first round of World Cup games is over: Best team, player, worst prediction and who will win?

     

    The first round of World Cup games is over: Best team, player, worst prediction and who will win? 

    "The first round of World Cup games is over — featuring 24 matches, 75 goals, and one Lionel Messi.
    But at this early stage, how do our writers think the rest of the tournament will shape up? And who thought this Argentina side were finished?"
     
    read the discussion by the the new york times panel
     

    The first round of World Cup games is over: Best team, player, worst prediction and who will win? - channel1la.com

    Delay na transmissão


     

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    Futebol x 'fubetol' é o jogo da Copa

     

    Sérgio Rodrigues

    Que no país governado por Trump chamem futebol de "soccer", entende-se. Ficaram para trás em acordar para o esporte que o mundo escolheu, coitados. Terão acordado finalmente, como sugere aquela bola que atropelou o Paraguai?

    Americanices à parte, futebol vai ser sempre futebol. Ou assim eu acreditava até o momento em que, entre um jogo e outro da Copa, de repente olhei para a onipresente palavra futebol e li "fubetol".

    Foi um lapso que meu cérebro logo corrigiu, mas depois fiquei pensando: e se a dislexia se justificar? Vivendo no Brasil, é impossível interagir minimamente com a Copa do Mundo da América do Norte sem ser bombardeado por anúncios de casas de aposta online.

    Inglaterra e Croácia jogam em estádio de Dallas, nos EUA, pela primeira rodada da fase de grupos da Copa do Mundo - Kai Pfaffenbach/Reuters

    A Cazé TV no YouTube, a única a transmitir todas as 104 partidas, tem o patrocínio de quatro "bets", como essas empresas carinhosamente se vendem. A Globo, de três. Tudo normal: 12 clubes da série A do Campeonato Brasileiro estampam bets no peito.

    Poucos se escandalizam. Nossa sociedade decidiu agir como se fosse tranquilo oferecer insistentemente às pessoas um produto que será danoso para um grande número delas, podendo em casos extremos levar ao desespero e à morte. A restrição única de idade, além de insuficiente, é driblável. "Jogue com responsabilidade", um conselho cínico.

    Trata-se de saúde pública. O vício em jogo é uma das propensões doentias da mente humana, fraqueza passível de ser estimulada maliciosamente por quem se dispõe a lucrar com a danação dos outros.

    Criar uma rede nacional de milhões de cassinos de bolso, legalizados e abertos 24 horas, não é tão diferente de vender crack no horário nobre com slogan chique ("Tinha uma pedra no meio do seu caminho"), produção de qualidade e sorrisos caríssimos de gente famosa —a nova nobreza digital.

    Desde as cavernas, sempre foi bandidagem esse jogo, e assim o Estado deveria tratá-lo. Nada a ver com restringir liberdades individuais: a "liberdade" para induzir e explorar comercialmente a ruína humana se chama —ou deveria se chamar— crime.


    .

    Não que o Brasil fosse inocente quando era só o país do futebol. Sempre houve leniência, como aliás em grande parte do mundo, com o uso da paixão esportiva para vender cerveja. Mais antigamente, até cigarro pegava carona na audiência.

    Mesmo com a "atenuante" de que o alcoolismo e o tabagismo destroem a pessoa bem mais devagar que o vício em jogo, não se via o fumante Sócrates estrelando anúncio de Hollywood no intervalo de Brasil e URSS, partida de estreia da seleção na Copa de 1982. Era impensável.

    Não é mais. No país do "fubetol", no intervalo de Brasil e Marrocos —como de resto o tempo todo—, lá estava Vinicius Jr. vendendo a Betnacional, "a bet dos brasileiros" na voz de Galvão Bueno. "Bota essa paixão pra jogo", diz o pregão.

    O que estava em jogo na Copa costumava ser diferente. As bets fizeram da experiência do futebol, em grande medida, uma outra coisa, merecedora de outro nome —"fubetol", com a aposta no coração da palavra, "ol" como um funcional sufixo genérico e "fu", bem, dispensando comentários.

    FOLHA 

     


    Ponto a ponto, o que há nos 14 parágrafos do acordo entre EUA e Irã

     

    Mariana Sanches

    Em um texto curto, de apenas 14 parágrafos, reside a esperança do governo dos Estados Unidos de encerrar definitivamente a guerra com o Irã e abrir caminho para um acordo duradouro sobre o programa nuclear daquele país que, segundo Donald Trump, seria o motivo primordial para a impopular empreitada militar que ele lançou contra o país persa no fim de fevereiro.

    Na tarde desta quarta, 17, pouco antes da assinatura formal, o conteúdo do Memorando de Entendimento Islamabad entre EUA e Irã foi revelado por dois altos funcionários do governo Trump, reservadamente, ao UOL.

    Conforme descreveu um dos integrantes da gestão Trump, "o memorando não nos obriga, literalmente, a nada. Mas, é claro, se os iranianos o cumprirem bem, então queremos recompensar esse bom comportamento e transformar a relação deles com o Oriente Médio e com o mundo".
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     O texto prevê, em seu primeiro e segundo parágrafos, que os dois países cessem ataques mútuos militares imediata e definitivamente, e que as hostilidades também sejam encerradas no Líbano - embora Israel, responsável pelos ataques contra o Hezbollah ao sul de Beirute, não seja um signatário do acordo. Os dois parágrafos iniciais reconhecem o respeito à soberania dos Estados Unidos, do Irã e do Líbano, e asseguram a integralidade territorial do Líbano, que tem sido ameaçada pelo governo do israelense Benjamin Netanyahu.

    No terceiro parágrafo, EUA e Irã se comprometem a chegar a um acordo de paz definitivo em um período de até 60 dias, renováveis, caso os dois lados assim o desejem.

    O acordo de paz definitivo incluiria algum tipo de compromisso dos iranianos sobre não enriquecer urânio para uso bélico, algo que especialistas têm considerado um feito muito complexo para ser atingido em tempo tão exíguo. Questionado sobre quão realista era essa previsão, um dos negociadores americanos diretamente envolvido na negociação disse "estar mais focado no que acontece até o fim de semana", do que nos próximos passos da negociação.

    No quarto e quinto parágrafos, o Irã e os EUA se comprometem a iniciar, a partir da assinatura do Memorando, a completa reabertura do Estreito de Ormuz, para que os níveis de navegabilidade do canal marítimo, por onde escoavam 20% do petróleo do mundo antes do início da guerra, retornem à normalidade em um prazo de até 30 dias.

    Por ao menos 60 dias, o Irã se comprometeu a não cobrar nenhum tipo de pedágio ou taxa às embarcações que atravessem o Estreito.

    A proposta é mais realista do que prometeu Donald Trump, para quem seria possível retomar o trânsito regular de embarcações na área já na próxima sexta-feira. Os negociadores americanos reconhecem, porém, que demorará um certo tempo para remover minas marítimas colocadas na área e reestabelecer a segurança no canal. Os EUA se comprometem ainda a retirar suas forças militares da região em até 30 dias após a assinatura de um acordo final, pós-memorando, e retomar seu nível de força no Golfo Pérsico ao que havia antes de fevereiro deste ano.

    O texto diz ainda que o Irã trabalhará com os governos de Omã e de outros países do Golfo Pérsico em um acordo de longo prazo sobre a administração e a soberania do Estreito de Ormuz, o que deixa aberta a possibilidade de que, no futuro, o Irã passe a cobrar pela navegabilidade na área.

    Nada disso era cogitado antes do início da guerra, e o Irã jamais havia fechado o canal antes - poder que descobriu ter graças ao conflito com os EUA e que alguns especialistas dizem ser uma ameaça geopolítica maior do que o próprio programa nuclear de Teerã.

    Tenho certeza de que os iranianos defenderão seus direitos com a maior agressividade possível, mas, fundamentalmente, a passagem livre de taxas pelo Estreito de Ormuz permanecerá — e continuará assim —, pois os Estados do Golfo Pérsico jamais concordariam com um arranjo que não permitisse o acesso livre de taxas ao Estreito de Ormuz para eles próprios e para suas indústrias,
    afirmou uma autoridade americana envolvida nas negociações.

    O sexto parágrafo é um dos mais controversos, e críticos para os EUA, em todo o memorando. "Os EUA comprometem-se, juntamente com os parceiros regionais, a elaborar um plano definitivo e mutuamente acordado, no valor de pelo menos US$300 bilhões de dólares, para a reconstrução e o desenvolvimento econômico da República Islâmica do Irã. O mecanismo para a implementação desse plano será finalizado como parte de um acordo definitivo no prazo de 60 dias", diz o texto do Memorando de Entendimento de Islamabad.

    Há alguns dias, Trump chegou a negar que houvesse previsão para este fundo, algo que o Irã vende como uma compensação financeira pela guerra. Na interpretação de Washington, os EUA se comprometem a organizar o fundo, mas não estão obrigados a colocar diretamente nenhum dinheiro nele, muito menos recursos de impostos de cidadãos americanos.
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    No sétimo parágrafo, os EUA se comprometem a encerrar "todos os tipos de sanções" ao Irã, incluindo as resoluções do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), as resoluções do Conselho de Governadores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e todas as sanções unilaterais dos EUA, primárias e secundárias. O levantamento das sanções deve seguir um cronograma, que também depende de um acordo final de paz.

    No oitavo parágrafo, o Irã se compromete a não tentar desenvolver ou obter armas nucleares. E os dois países se comprometem a trabalhar juntos, sob supervisão da AIEA, para dar fim ao estoque de urânio enriquecido a 60% que o Irã ainda detém. O cronograma de descarte do material deve coincidir com o levantamento das sanções dos EUA, previstas no parágrafo anterior.

    "Estamos dizendo que as sanções serão levantadas — e as questões nucleares estão interligadas — e que, na medida em que vocês (Governo do Irã) cumprirem as exigências sobre as questões nucleares, obterão o alívio das sanções", explicou um funcionário da administração Trump.

    No parágrafo 9, Irã e EUA se comprometem a manter o "status quo" sobre o programa nuclear e as forças militares até chegarem a um acordo final.

    No décimo parágrafo, os EUA concedem que, após a assinatura do Memorando, darão imediatamente licenças e autorizações de exportação de petróleo bruto do Irã, assim como outros produtos petrolíferos e derivados iranianos. Em Washington, a medida é vendida como importante para trazer redução ao preço do petróleo no mercado global.

    No parágrafo 11, os EUA fazem ainda outra concessão: a partir da assinatura deste documento, descongelarão os fundos e ativos do Irã sob seu controle, que poderá ser acessado pelo Banco Central Iraniano. Segundo uma das autoridades dos EUA, não será algo imediato e feito de uma só vez. "Eles nos entregam o material nuclear enquanto estamos engajados nesta negociação final e, em resposta, nós liberaremos alguns ativos congelados. Mas eles não pegarão nenhum dinheiro se não se comportarem", disse um dos negociadores dos EUA.

    No parágrafo 12, os dois países concordam que algum "mecanismo executivo" seja criado pra monitorar e fiscalizar o cumprimento dos termos do Memorando de Entendimento de Islamabad. Autoridades americanas se mostram céticas sobre esse ponto, pela enorme falta de confiança de parte a parte. E dizem que usarão sua capacidade de inteligência para se certificar de que os iranianos estejam cumprindo sua parte no acordo.

    O parágrafo 13 estabelece que os parágrafos 1 (fim das hostilidades militares), 4, 5 (reabertura total do Estreito de Ormuz), 10 e 11 (levantamento de sanções e descongelamento de ativos do Irã) devem ser os primeiros a serem cumpridos e que os demais estão condicionados a isso.
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    Por fim, o parágrafo 14 diz que um acordo final, obtido até 60 dias após a assinatura do Memorando de Islamabad, será ratificado por uma resolução vinculante do Conselho de Segurança da ONU.

    Os negociadores americanos dizem que, reservadamente, muitos canais de negociação foram abertos com autoridades da Guarda Revolucionária do Irã e que, em privado, estas autoridades têm demonstrado interesse em encerrar o conflito e cumprir os termos do Memorando de Entendimento. Mas não descartam que Trump retome o uso da força caso o Irã não cumpra com sua parte no acordo.

    UOL

     

    James Blood Ulmer: morreu um dos últimos grandes aventureiros da guitarra




    "O crítico Greg Tate descreveu-o uma vez como “o elo perdido entre Jimi Hendrix e Wes Montgomery, por um lado, e o universo P-Funk e Mississippi Fred McDowell, por outro”. A imagem é certeira e reforça a ideia de que Ulmer, como poucos outros artistas, conseguiu fazer dialogar tradições aparentemente incompatíveis sem que a sua música perdesse identidade."

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    James Blood Ulmer (1940-2026): morreu um dos últimos grandes aventureiros da guitarra - Rimas e Batidas

    Como Messi desmontou um jornal inteiro

     

    Thales Machado

    Uma edição de jornal começa muito antes da notícia que justificará sua capa. É uma aposta coletiva, mistura de planejamento e torcida para que o futebol colabore com quem tenta contá-lo. A gente olha os jogos, as reportagens e os personagens em campo e tenta adivinhar qual história sobreviverá até a noite. Depois, com alguma convicção e bastante fingimento, escolhemos um caminho.


    Na Copa, esse exercício fica ainda mais divertido. Há jogos o dia inteiro, craques espalhados pelo continente e um relógio que não respeita o tamanho da história. Às vezes, ao decidir a capa, o sujeito que vai reescrever o torneio nem entrou em campo.


    A terça-feira, 16 de junho, parecia promissora. Tínhamos a estreia da França de Mbappé e da Argentina de Messi. Só que, na véspera, a Espanha de Lamine Yamal enfrentara Cabo Verde e Vozinha, goleiro de 40 anos, terminara dono da manchete. O aviso estava dado: não adianta combinar a edição apenas com os favoritos.


    Ainda assim, é preciso começar de algum lugar. E começamos por Cristiano Ronaldo. Portugal só estrearia no dia seguinte, mas Cristiano chegaria à sua sexta Copa com a possibilidade de um feito inédito: tornar-se o primeiro jogador a marcar em seis edições diferentes. Mesmo sem a confirmação de que seria titular, a história era grande, havia um repórter em Houston e permitia uma capa planejada com antecedência, luxo raríssimo durante um Mundial.


    Pedimos à equipe visual uma proposta centrada nele: Cristiano estaria sozinho na primeira edição. Dependendo do que Messi fizesse à noite, a segunda poderia reunir os dois. Depois de quase duas décadas polarizando o futebol mundial, Messi e Cristiano dividiriam também a capa de um caderno do GLOBO.
    Parecia uma boa ideia. Faltou apenas combinar com Mbappé.


    No fim da tarde, em Nova Jersey, ele fez dois gols na vitória da França sobre o Senegal, um deles um golaço, ultrapassou Pelé e, naquele momento, o próprio Messi na lista de artilheiros das Copas. Já não fazia sentido deixar na capa um astro que jogaria apenas no dia seguinte quando outro acabava de se impor, novamente, como aquilo que vem sendo desde 2018: um jogador construído especialmente para o Mundial. Levanta a placa.


    A nova capa ficou pronta com o título "2+2": os dois gols que ele havia marcado e os outros dois de que precisava para alcançar os 16 de Miroslav Klose. Era forte e coerente com o que o dia produzira até ali. Foi fechada, enviada e impressa na primeira edição, que circulou sem qualquer informação sobre Argentina e Argélia, jogo marcado para as dez da noite.


    Às dez, porém, Messi entrou em campo em Kansas City e começou a desmontar tudo.


    Havia uma outra opção preparada: se marcasse uma vez, dividiria a capa com Mbappé. Os dois chegariam aos 14 gols em Copas e ficariam a apenas dois de Klose. Seria uma imagem perfeita para contar a disputa entre gerações.
    Messi, aparentemente, achou pouco.


    Fez o primeiro gol, depois o segundo e depois o terceiro. Em uma única noite, alcançou os 16 de Klose, passou a dividir com ele o posto de maior artilheiro da história das Copas e ainda se tornou o primeiro jogador a atuar em seis edições consecutivas. Mbappé, que poucas horas antes parecera tomar de assalto a história da competição, já havia sido alcançado, ultrapassado e empurrado para fora da capa.


    Foi a terceira capa principal do dia. O título escolhido foi "A História", porque já não havia muito como disputar com o tamanho do que acontecia. Messi não era apenas o personagem da rodada ou o jogador de uma grande atuação. Havia alcançado, na mesma noite, dois marcos que pareciam reservados à soma de uma carreira inteira. E fizera isso com três gols, de maneira contundente o bastante para evitar qualquer debate. Àquela altura, ninguém mais perguntava quem deveria estar na capa. A única pergunta era quanto do jornal precisaríamos refazer.


    Porque Messi não mexeu apenas na manchete. Entrou pelas páginas internas, atravessou textos já fechados, bagunçou tabelas e obrigou a edição inteira a se atualizar ao tamanho de sua noite. A reportagem sobre Mbappé precisou ser revista. O texto sobre Cristiano Ronaldo, também. Uma matéria sobre a estreia do Congo perdeu espaço. A tabela dos artilheiros, a página da Argentina, as chamadas e a hierarquia da edição mudaram.


    Perto da meia-noite, enquanto Messi comemorava em Kansas City, uma redação no Centro do Rio reabria páginas já fechadas e refazia a forma como o leitor receberia aquela Copa na manhã seguinte. Há muitas belezas nas Copas, e essa é outra. Um gol marcado a milhares de quilômetros altera instantaneamente o trabalho de dezenas de pessoas que não estão no estádio. A bola entra em Kansas City e uma foto cai no Rio. Messi marca de novo e uma manchete desaparece. Faz o terceiro e um jornal inteiro precisa ser atualizado porque o mundo que existia antes daquele gol já ficou velho.


    No começo do dia, Cristiano Ronaldo era a capa. Depois, Mbappé se impôs. No fim, Messi não dividiu espaço com ninguém. Tomou a capa, tomou o recorde, tomou a edição e tomou algumas horas de sono de quem precisava explicar o que ele acabara de fazer.


    É assim que se fecha um caderno de Copa: planejando com cuidado para depois assistir aos grandes jogadores destruírem o planejamento. E ainda bem. Porque, no fundo, todo editor de Esportes deseja secretamente que o futebol produza uma história tão grande que seja necessário jogar a página pronta fora. 

    O GLOBO  


     

     

    Ranking the top 50 players at the 2026 World Cup:

     

    "Everyone loves the World Cup, and everyone loves player rankings — or at least the chance to furiously disagree with them."

    SEE THE RANKING 

     

     

    quarta-feira, junho 17, 2026

     


    Como o Brasil pode recuperar o meio-campo?

     

     Idelber Avelar

    Idelber Avelar

    Respeito quem acha que trocar um camisa 9 por outro resolveria os problemas da seleção, mas sou dos que se preocupam mais com o sistema do time.

    Entre as Copas que tínhamos condições de ganhar e não ganhamos, a oscilação entre uma estrutura simétrica e uma estrutura torta foi decisiva em duas delas —em 1950 e em 1982—, com vetores opostos.

    Em 1982, a estrutura simétrica funcionou na preparação, com três meio-campistas e um responsável pela direita, Isidoro. Na Copa, usamos estrutura torta, com o quadrado de meio-campistas, com Falcão, e sem ponta direita. A Canarinho encantou, mas a assimetria foi decisiva para a eliminação.

    Em 1950 foi o contrário. A diagonal, estrutura assimétrica a que estávamos acostumados, deu lugar à simétrica que quase toda Europa usava, o WM. Na diagonal, o quadrado de centro-médios e meias transforma-se em paralelogramo, com um lado mais avançado, em geral o esquerdo. Com cacoete de diagonal, o WM brasileiro deixou um latifúndio na esquerda, usado pelo ponta Ghiggia para atacar Bigode em campo aberto. Assim saíram os gols do Uruguai.

    Se em 1982 e 1950 a assimetria ocorria nos eixos horizontais, em 1974 e 2006 era nos verticais, na relação entre defesa, meio-campo e ataque. Na abertura da Copa 2022, escrevi na Folha que aquelas duas Copas tinham em comum não só a soberba pós-título como o problema do empilhamento de atacantes e defensores, com o consequente despovoamento do meio.

    Fomos eliminados pela Croácia, no único jogo em que ela sabia que tinha chances contra o Brasil: a partida cozinhada pelo sobrepovoamento croata do meio, estratégia que funcionou muito no primeiro tempo. O técnico Zlatko Dalič sorriu ao ver o Brasil escalado com só dois meio-campistas natos.

    Em 2026, nos enrolamos de novo com problemas de simetria. Como já alertou Tostão, aqui a nomenclatura (4-2-4, 4-3-3, 4-4-2) mais atrapalha que ajuda. Discordo de quem diz que Carlo Ancelotti está perdido —não significa que tenha se encontrado. Ele sabe que quer se defender com duas linhas de quatro e quer combinações entre Vini Jr. e Raphinha quando o Brasil tem a bola. 

    Isso funcionava com Wesley. Seus pulmões garantiam a cobertura na direita. Danilo não entrega a mesma extensão, o que força Paquetá à direita, o que traz o problema da inferioridade numérica no meio. Isso poderia ter sido mitigado com Matheus Cunha. Mas, talvez imaginando que o Brasil pudesse ser letal na bola longa, Ancelotti optou pelo centroavantão Igor Thiago. Ficamos com o pior dos dois mundos: um a menos no meio sem ter um a mais na frente.

    As soluções criam problema em outro lugar, como uma Hidra de Lerna ou um fliperama bate-toupeira (o Whack-a-Mole da metáfora de Tim Vickery). Casemiro, Bruno e Danilo Santos (ou Paquetá) com Raphinha, Endrick e Vini poderiam funcionar, mas exigiria o sacrifício de Raphinha, na recomposição e na ocupação do flanco direito. Não é o que ele faz no Barcelona.

    No esquema anterior, o preço pago pela presença do ponta-direita aberto, Luiz Henrique, era o sacrifício de Matheus Cunha, recompondo na esquerda. Também dá para guardar Endrick para o segundo tempo e jogar com Matheus Cunha de falso 9, com a recomposição sendo resolvida entre ele e Raphinha. O que não é o que ele faz no Manchester United.

    Ou o Brasil jogará com inferioridade numérica no meio-campo ou alguém acumulará funções a que não está acostumado. Aguardemos.

    FOLHA 

     

     

    Even if the Iran war is over, it made its mark: the fear, killing and upheaval were all normalised

     



    As the world waited for rational outcomes fromirrational players, the people being bombed were forced to adjust to the fact of terror as part of daily life

    Sarah Vaughan - Tenderly (Live from Sweden) Mercury Records 1958

     

    The shore was kissed
    by sea and mist
    tenderly
    I can't forget
    how two hearts met
    breathlessly

    South Norwood


     

    Rumo ao Hexa...

    AROEIRA





    JBOSCO





    LUTE 



    FRAGA 


     

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    terça-feira, junho 16, 2026

    Donald Trump’s Iran deal: a pause is not a triumph

     The Guardian view on Donald Trump’s Iran deal: a pause is not a triumph | Editorial 

    " Donald Trump should not be allowed to call this a triumph. He has bought a pause after an illegal war of choice that failed to secure its declared aims, devastated Iran, destabilised Lebanon and sent shocks through energy and fertiliser markets, leaving many people poorer and hungrier. A campaign launched to display US military strength is likely instead to be remembered for demonstrating its limits." 

    The Guardian view on Donald Trump’s Iran deal: a pause is not a triumph | Editorial | The Guardian

    'Boicote' a Endrick vai muito além das justificativas de AncelottI

    Endrick no banco de reservas no jogo Brasil x Marrocos 

     

     

     ALICIA KLEIN

    Importante destacar logo de início que faço essa análise depois de conversar com diversas pessoas, mas que de todo modo ela parte de uma mulher branca, com muitos privilégios.

    Há tempos carrego o incômodo de ver Endrick tratado como um cara supostamente problemático, recebendo menos oportunidades do que o seu futebol merece. Desde que saiu do Palmeiras, enfrentou diversos obstáculos, incomuns para alguém do seu talento.

    Abel Ferreira demorou um pouco para utilizá-lo, mas quando finalmente abriu as portas do time para o garoto, ganhou de presente um Brasileirão inesperado, com a Cria da Academia como protagonista. No clube, é raro encontrar alguém que se refira a ele sem usar a palavra "humildade" e "esforço".

    O que, então, explica suas passagens pelo Real Madrid, Lyon e, agora, seleção brasileira? Por que ele não é visto como a grande esperança de um grupo sem vida e sem criatividade? Por que é subutilizado?

    Tenho uma teoria, testada com gente do meio que respeito e que conhece o futebol (e Endrick) de perto.

    Depois de vencer a fome no Distrito Federal e começar a garantir o sustento da família ainda menino, ele se tornou ídolo. Antes de se tornar adulto. Crianças torcedoras de times rivais se aglomeravam nas arquibancadas para conseguir um autógrafo da joia palmeirense antes que ele partisse para a Europa. Um fenômeno. Um jovem preto brilhante, de inteligência claramente acima da média. Não só no futebol.

    Saiu do Brasil, com 18 anos recém-completos, já se virando bem em inglês e espanhol. Em meses de Lyon, começou a dar entrevistas em francês. Ele é do videogame, mas não é de festa. Tem uma rotina regrada de sono e alimentação, que provavelmente daria orgulho em Cristiano Ronaldo. Quando afirmou que seu ídolo era Bobby Charlton, obrigou muita gente a pesquisar mais informações sobre a estrela inglesa nascida em 1937. Questionado em uma entrevista, preferiu Bellingham a Neymar — de quem nunca pareceu fazer questão de ser parça.

    Cobiçado por todas as grandes fornecedoras de material esportivo, optou pela New Balance, preterindo inclusive a Nike, com quem assinara seu primeiro acordo, aos 11 anos. A Nike, que tem uma relação umbilical e um contrato bilionário com a CBF. A Nike, que guiou a gestão da carreira de Ronaldinho Gaúcho, segundo o irmão/empresário Assis.

    A escolha de Endrick focou no maior controle sobre a construção de sua marca pessoal e no protagonismo garantido pela empresa. Na Nike ou na Puma, além de correr o risco de ser apenas mais um, ele precisaria aceitar um contrato de 10 anos, amarrando-se logo no início de uma carreira com imenso potencial de crescimento. Impôs à New Balance um acerto de apenas 4 anos, para, de novo, ter mais controle sobre seu futuro. Tudo isso decidido aos 18 anos.

    Endrick nunca integrou a panela, o que Casemiro deixou claro quando disse que ele "ainda não era do grupo" — e quando deu um carrinho no companheiro em um treino pré-Copa da seleção. Quando ainda liderava o Real Madrid, um irritado Ancelotti chamou a atenção do garoto estreante por não passar a bola em um contra-ataque da equipe. Mesmo ele tendo feito o gol. Como ousas não seguir as ideias do sábio comandante europeu!

    Talvez seja tudo uma grande teoria da conspiração, mas é difícil acreditar que a decisão de ignorar Endrick com tanta frequência seja apenas técnica. Dizem que Carleto o trata muito bem na concentração — não fazendo mais que a obrigação, por óbvio. De qualquer modo, não o tirou do banco nem nos acréscimos contra o Marrocos, deixando um decepcionante Raphinha em campo até o final.

    O futebol está cheio de treinadores que fazem péssimas escolhas apenas por não serem tudo aquilo que se esperava deles. Mas o mundo carrega ainda mais histórias de pessoas negras escanteadas por não baixarem a cabeça, por não se conformarem, não se encaixarem em um estereótipo qualquer que se espere delas. Por não obedecerem. Como disse Taís Araújo, por não aceitarem pessoas negras fora do lugar de subserviência. Viram arrogantes, prepotentes, raivosas, estranhas e vão, de forma mais ou menos sutil, recebendo cada vez menos espaço, por ousarem não diminuir para caber.

    UOL 

    O mistério do futebol

     


    "A maior ficção futebolística do Brasil não está no romance, está na transmissão esportiva, está na crônica, na reportagem, no memorialismo... Está na não-ficção. Que é ficção, em última análise, porque ao contar como foi um jogo contamos o jogo que era para ter sido, nas proporções épicas que nosso desejo e nossa imaginação lhe atribuem. Querem saber os fatos crus, os obstinados fatos? Ora, leiam a ficha técnica do jogo, e boa noite."


        LEIA O STACK DE BRAULIO TAVARES 

    Dollar Brand ‎(Abdullah Ibrahim) - Mannenberg ~ 'Is Where It's Happening

    the anthem of the anti-apartheid movement

     IN MEMORIAM

    May Be The Last Time, I Don't Know - Bessie Jones

     

    May be the last time we sing together
    (Oh, it may be the last time, I don't know)
    Well, it may be the last time we sing together
    (May be the last time, I don't know)


    Sly & The Family Stone - Family Affair

     

    One child grows up to beSomebody that just loves to learnAnd another child grows up to beSomebody you'd just love to burn
    Mom loves the both of themYou see, it's in the bloodBoth kids are good to momBlood's thicker than the mud

    South Norwood


     

    segunda-feira, junho 15, 2026

    Mas que mãos grandes, Vozinha?!

    DUKE




    GILMAR




    MARTINEZ

     

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    Cabo Verde, Vozinha e o dia em que o relógio venceu

     

     

     Goleiro Vozinha, de Cabo Verde, é celebrado pelos companheiros de time após fechar o gol no jogo contra a Espanha na Copa do Mundo

    Thales Machado

     

    O futebol moderno passa boa parte do tempo procurando adolescentes.

    A cada temporada surge um novo fenômeno de 16 anos, um novo prodígio de 17, um novo menino destinado a mudar o jogo antes mesmo de ter idade para dirigir. Clubes investem milhões na juventude. Torcedores discutem potencial futuro. A indústria inteira parece movida pela obsessão de descobrir o amanhã antes que ele aconteça. Então chega uma Copa do Mundo e o personagem do torneio até aqui é um goleiro de 40 anos chamado Vozinha.

    A Espanha terminou, com razão, frustrada com o empate sem gols contra Cabo Verde, a maior zebra do torneio até agora. Vozinha terminou chorando, abraçado pelos companheiros, celebrado por uma ilha inteira e por outros países um tanto maiores. Durante noventa minutos, defendeu tudo o que havia para defender. E talvez também tenha defendido uma ideia cada vez mais rara no futebol: a de que o tempo nem sempre é um adversário.

    Seu nome verdadeiro é Josimar Dias. Recebeu esse nome em homenagem a Josimar, o lateral do Botafogo que encantou o mundo na Copa de 1986. O apelido veio por outro caminho. Foi criado pelos avós e cresceu tão próximo deles que acabou virando Vozinha para todo mundo.

    Há algo de bonito nisso. Enquanto tantos jogadores chegam à Copa carregando marcas, slogans e estratégias de marketing cuidadosamente desenhadas, o herói improvável de Cabo Verde entrou em campo carregando um apelido jocoso da infância.

    A história é cercada de improbabilidades tanto quanto Cabo Verde é cercada pelo Atlântico. Vozinha não soa como nome de goleiro destinado a parar uma potência mundial. Não é nome de astro da Copa. Não parece sequer nome de atleta profissional. É o apelido de alguém que continua sendo tratado com carinho pelos parentes mesmo depois de adulto.

    Mas foi ele quem parou um dos ataques mais talentosos desta Copa. A Espanha entrou em campo representando tudo o que o futebol contemporâneo mais valoriza: juventude, velocidade, novidade. O país que revelou Lamine Yamal ao mundo e que parece ter descoberto uma mina inesgotável de talentos antes mesmo de eles atingirem a maioridade. Cabo Verde apareceu com um goleiro veterano que chegou ao torneio sem clube. Era quase um confronto de ideias: o futuro contra o tempo, a promessa contra a permanência, a leveza dos 17 anos contra o peso dos 40. E, por noventa minutos, o relógio venceu.

    O futebol é uma das poucas áreas da vida em que alguém de 40 anos já é tratado como sobrevivente. Um médico de 40 anos está entrando no auge. Um professor de 40 anos ainda tem décadas pela frente. Um jornalista de 40 anos costuma receber mais responsabilidades do que nunca. Mas um jogador de futebol nessa idade é frequentemente apresentado como uma curiosidade estatística, quase uma peça de museu. Por isso Vozinha provoca tanta simpatia imediata. Em um esporte que transformou a juventude em obsessão, ele apareceu para lembrar que experiência também pode ser uma forma de talento.

    Existe algo que nenhuma televisão consegue mostrar quando uma seleção pequena surpreende numa Copa do Mundo. Não aparece nos melhores momentos, não entra nas estatísticas e raramente cabe nos resumos. É o peso da improbabilidade. A distância percorrida até chegar ali.

    Cabo Verde tem pouco mais de meio milhão de habitantes. É menor do que muitas cidades que sediam esta Copa. Durante décadas, seu maior desafio não foi vencer partidas de futebol, mas simplesmente construir um país em ilhas espalhadas pelo oceano. Um país em que mais cabo-verdianos vivem fora de suas fronteiras do que dentro delas. E, ainda assim, ali estava.

    O futebol adora nos convencer de que tudo pertence aos jovens. Que a próxima grande história está sempre por vir. Que o mais importante é aquilo que ainda vai acontecer. Nesta segunda-feira, a melhor história da Copa foi outra.

    Foi a de um homem chamado Josimar, batizado em homenagem a uma Copa de quatro décadas atrás, conhecido pelo mundo como Vozinha, que chegou aos 40 anos ainda perseguindo um sonho que parecia impossível.

    Talvez seja um lembrete oportuno. Que nem todo futuro chega antes da hora. Às vezes ele chega depois dos quarenta.

    Há anos o futebol procura o próximo fenômeno.

    Ao menos por hoje, quem roubou a cena foi a geração anterior

    O GLOBO

    Muito prazer, a vida real

     May be an image of soccer, football, cleats and text that says '1 MAZAROU 13 Intiz 13 CUP'

     

    Carlos Eduardo Mansur

     

    Não é possível dizer que a chegada à Copa do Mundo de uma seleção brasileira em busca de formação, sistema e jogadores confortáveis em suas funções seja uma surpresa. Como mostrou o empate com Marrocos, o Brasil tentará formar um time com o Mundial em andamento. É um teste de racionalidade para o país, inclusive se o time crescer e ganhar o hexa.

    Durante o longo flerte entre CBF e Ancelotti, e enquanto treinadores entravam e saíam, muita gente minimizava a falta de um projeto a longo prazo, de um ciclo estável. “Não queremos ser campeões de ciclo” era a frase mais ouvida, retrato de um país que despreza os processos. O dano ficou exposto na estreia. Ocorre que, ainda assim, a seleção é candidata na Copa do Mundo. E o pior que poderíamos fazer seria transformar um eventual título em desserviço, em prova de que planejamento é algo desprezível.

    O trabalho de formação da seleção é tão incipiente que a lesão de Wesley se transformou em um imenso problema. Em sua corrida contra o tempo, Ancelotti encontrara um desenho de time no amistoso com o Egito. Paquetá saía da direita para o centro e liberava o corredor para Wesley. Com a lesão dele, não havia no elenco outro jogador com vocação para cuidar de todo o lado direito, especialmente para atacar por ali.

    Ibañez foi um dos tantos problemas da seleção contra Marrocos. Com a bola, além de um lado direito sem agressividade, a presença de Raphinha fazendo o movimento da esquerda para o meio produzia poucas associações com Vinicius Júnior e quase nenhum momento em que o jogador do Barcelona era lançado em profundidade, sua especialidade. A seleção não articulava bem, por vezes com distâncias grandes entre os jogadores. Achou o gol na grande jogada individual de Vinicius.

    Mas a grande questão era pior sem bola. O time é moldado para que Vinicius tenha menos tarefas defensivas. Ele ataca como um ponta, mas quem defende por ali é Raphinha. Não tem funcionado. O resultado é que os volantes do Brasil ficam com muito espaço para cobrir. No calor desta Copa do Mundo e no momento de carreira de Casemiro, é arriscado. Marrocos acumulou meias e sempre deixou o Brasil em inferioridade.

    Ancelotti minimizou o problema e ocupou melhor o campo num 4-3-3 na parte final do primeiro tempo, com Raphinha na ponta direita. O meio-campo teve Paquetá junto a Casemiro —depois substituído por Fabinho — e Bruno Guimarães. O campo ficou mais bem ocupado. Mas a seleção esteve longe de ser criativa.

    Caso seja essa a nova ideia, Ancelotti ainda terá dúvidas a resolver: Igor Thiago, que tecnicamente ainda não se firmou, ou Raphinha no centro do ataque? Qual o trio de meio-campo que terá consistência e criação? Vinicius jogará pela ponta, mas terá que defender?

    São questões com as quais todo treinador depara ao tentar formar um time. Mas o Brasil fez com que Ancelotti tivesse que lidar com elas em plena Copa. O jogo mostrou o que é o mundo real de uma seleção que corre contra o tempo para se estruturar, num futebol de seleções em que há cada vez mais rivais fortes, como Marrocos. Menos mal que há talento e que a provável classificação para a próxima fase dará mais alguns dias para Ancelotti encaixar o quebra-cabeça.

     

     

    Empate na estreia reforça dúvidas que a seleção já carregava para a Copa

     

     Vini Jr. no empate do Brasil com o Marrocos na estreia da Copa do Mundo

    Por Marcelo BarretO

    Tenho especial fascínio por uma das nossas tradições em Copa do Mundo: vocês da imprensa pedem um palpite de placar a todos os entrevistados, sejam ex-jogadores, celebridades ou populares suados. O resultado final nunca é tabulado, mas dessa coleção de aleatoriedades às vezes sai uma percepção. Para a estreia do Brasil, mais do que não haver otimismo exagerado nos gols a favor, notei que quase todo mundo cedia um ao Marrocos. Podia ser um sinal de desconfiança com a nossa defesa, que levara gol nos cinco jogos anteriores. Ou de respeito ao adversário

    O Marrocos foi o quarto colocado na última Copa, mas só tem sete jogadores remanescentes daquele grupo. O treinador, que assumiu há três meses, levou a seleção sub-20 do país ao título mundial, mas só um desses jovens foi com ele para o time principal. Um ciclo de mudanças, que não esteve imune a crises – o técnico anterior foi demitido porque se esperava mais da atuação na Copa Africana, conquistada no tapetão. Mesmo assim, os marroquinos chegaram mais organizados do que os brasileiros. Postaram-se em linha no ataque, trocaram passes com calma, invertendo o eixo das jogadas. E acharam o gol previsto pelos palpiteiros num contra-ataque, justamente quando sofria os primeiros momentos de pressão.

    No empate, a surpresa não foi a forma, mas o momento. O pouco que o Brasil conseguira no primeiro tempo viera dos duelos individuais de Vini Jr contra Hakimi. Depois da abertura do placar, um abatimento geral se somou aos erros individuais, como os botes sem tempo de Ibañez e as bolas perdidas por Paquetá. Até que o atacante que Ancelotti monta o time para deixar livre correspondeu ao que se espera dele – e a seleção foi para o intervalo com um resultado melhor do que a atuação.

    O time que voltou, com Fabinho e Danilo substituindo Casemiro e Ibañez (os mais perdidos no primeiro tempo, ambos punidos com cartão amarelo), era mais calmo. A postura defensiva melhorou, a pressão na saída de bola aumentou – um bom lembrete de que Copa do Mundo tem muitos outros fatores envolvidos além da organização tática. Na segunda pausa para hidratação, com Luiz Henrique e Matheus Cunha em campo, finalmente já não parecia mais que o pentacampeão mundial em campo era o de vermelho.

    Marrocos também mudou, deixando o time mais jovem. Mas o ritmo do jogo diminuiu. Embora já fosse noite em Nova Jersey, o calor, que esteve próximo dos 30 graus durante todo o jogo, cobrou seu preço. A torcida brasileira no estádio começou a pedir a entrada de Endrick, vendo no jovem jogador alguém capaz de botar alguma energia extra no time, mas quem entrou foi o outro Danilo, com mais preocupações defensivas do que nos amistosos pré-Copa.

    O jogo terminou com pressão do Marrocos, com o marroquino Bouaddi como o melhor em campo, com atuação insegura de Gabriel Magalhães, sem que Alisson tenha conquistado a confiança da torcida e sem um indício claro de que o curto trabalho de Ancelotti à frente da seleção tenha dado mostras de uma grande evolução. Não me lembro de algum dos palpiteiros ter previsto um empate. Mas quem quiser arriscar um placar contra o Haiti deverá levar em conta que o Brasil chegará com as mesmas dúvidas que tinha na estreia. 

    O GLOBO 

     

     

    5 Dinosaurs




     

    Welcome to Trump’s World Cup, a depressingly angry version of football uniting the planet

     Welcome to Trump’s World Cup, a depressingly angry version of football uniting the planet | Barney Ronay

    "There is a suggestion that the sheer scale of Fifa’s complicity might finally leave Infantino exposed, vulnerable to the challenge of his members at next year’s presidential hustings. This World Cup is his life’s work, his masterpiece, but possibly also a moment of overreach. Infantino has absorbed Fifa into his bones, become its one man brand, its official Instagram mouthpiece, the sun king who believes he has a divine calling to be in these rooms doing these things. Now I am become football, destroyer of worlds.

    He has also stretched Fifa’s own statutes by aligning the global game with a single divisive political movement, has run this World Cup without a local organising committee, overseeing it rainmaker-style alongside the Maga politician and renowned American patriot Andrew Giuliani. Football survived Qatar and Russia. It will survive this too, but in what form, with what degree of love and trust and connection? How thin can you stretch this thing, how far can you push the window of tolerance? We may be about to find out."

     read article by BARNEY RONAY 

    Welcome to Trump’s World Cup, a depressingly angry version of football uniting the planet | World Cup 2026 | The Guardian


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