
Carol Ito e Helô D’Angelo, nos retratos de Paulo Vitale para a mostra 'Cartunistas': inversão de papéis (Paulo Vitale/Divulgação)
Exposição 'Cartunistas' de Paulo Vitale, no Centro Cultural Fiesp, apresenta 143 retratos
Por Vanessa Barone...
Paulo Vitale, 60, é fotógrafo e um grande diretor de cena. Isso fica claro em seus retratos, que captam a essência dos personagens fotografados com a intenção de criar uma narrativa poética que fuja do lugar-comum.
Tudo com olhar atento e direção muito particular. Foi assim com as séries transformadas em livros Feito no Brasil (Editora Ipsis, 120 págs., R$ 140,00) — com expoentes da sociedade e da cultura brasileiras, como o músico Tom Zé, a paratleta Aline Rocha e o bailarino Ismael Ivo — e Chefs (Editora Brasileira, 204 págs., R$ 99,90), que reúne imagens de Erick Jacquin, Alex Atala, Helena Rizzo e Danielle Dahoui, entre outras feras da cozinha, em situações inusitadas remetendo ao ofício
Com Cartunistas, trabalho iniciado em 2019 e que ficará exposto a partir da próxima terça (28), no Centro Cultural Fiesp, Vitale foi em busca das figuras humanas que, com seu humor gráfico, divertem, emocionam e ironizam a realidade brasileira.
Eu quis, de forma criativa, inverter o processo: criar charges dos chargistas, cartoons dos cartunistas”, diz o fotógrafo, que cursou história na Universidade de São Paulo (USP) antes de estudar no International Center of Photography, em Nova York, e foi editor de fotografia do jornal O Estado de S.Paulo e das revistas Veja e Época. Com Cartunistas, Vitale trouxe para a frente da câmera quem normalmente se mostra pelo traço.
A exposição vai ocupar a galeria do espaço cultural na Avenida Paulista até setembro. Reúne 143 retratos de nomes como Ziraldo (1932- 2024), Jaguar (1932-2025), Paulo Caruso (1949-2023), Laerte, Eduardo Baptistão e Mauricio de Sousa, entre outras figuras célebres.
A ala mais jovem também está representada por artistas como Helô D’Angelo, Pedro Vinicio (capa de Vejinha na edição de 26 de julho de 2024), Carol Ito e Lukas Werneck — este último, desenhista da Marvel Comics.

A-cartunista-Laerte
Alguns deles foram mais difíceis de fotografar, pela timidez”, afirma Vitale. “E, em alguns casos, como o da cartunista Laerte, demoramos mais para definir o contexto da foto. Com Ziraldo, não consegui um retrato tecnicamente perfeito. Mas acabei fazendo um tributo, pois realizei uma das últimas fotos dele”, diz o fotógrafo sobre o artista e escritor, morto em 2024 — e que foi uma das figuras mais importantes do humor gráfico aliado à crítica sociopolítica do país.
Ao lado de Jaguar, Tarso de Castro, Sérgio Cabral e Luiz Carlos Maciel, Ziraldo foi um dos fundadores do eterno jornal O Pasquim, semanário lançado no Rio de Janeiro em 1969 e que, por meio do humor político, funcionou como resistência à ditadura militar. Pela equipe do jornal passaram nomes como Paulo Francis, Henfil e Millôr Fernandes.
Jaguar
No retrato criado por Vitale para esta série, Ziraldo aparece segurando uma autocaricatura que havia desenhado quando tinha 50 anos. “O meu barato é transformar encontros em imagens”, diz o colecionador de instantes, que, desde 2018, publicou sete livros de retratos e planeja, para breve, mais um, desta vez com colegas de profissão.
Para Helô D’Angelo, ilustradora, quadrinista e jornalista, a participação na série foi pura diversão. “Fiquei muito feliz. Paulo é um querido”, diz a moça. “Ele estudou o meu trabalho e sugeriu usar uma imagem impressa da minha personagem para as fotos”, afirma Helô, que posou junto com seu alter ego dos quadrinhos, também chamada Helô.
Para fazer a menina parecer flutuar, Vitale usou um miniguindaste. “Tudo feito de maneira artesanal, nada foi inserido digitalmente”, explica a artista, que, mesmo acostumada a se mostrar nas redes, ficou um pouco tímida ao ficar frente à câmera de um profissional. “Foi diferente. Mas, aos poucos, fui me soltando. O resultado pareceu um live-action dos meus quadrinhos.”
Eduardo Baptistão
“Paulo Vitale foi muito feliz na escolha do tema. Os cartunistas divertem muita gente e, principalmente, provocam reflexão, mas são muito pouco lembrados como categoria”, diz Eduardo Baptistão, do programa Roda Viva, da TV Cultura.
“Com maestria, Paulo joga luz nesse ofício e nos seus operários, que, no fundo, é o que nós somos. E o bacana é que ele assumiu a verve dos cartunistas pra nos fotografar. Para mim, foi um privilégio”, acrescenta.
Privilégio que o autor de Cartunistas também parece ter desfrutado. “Adoro criar inquietude, trabalhar com a estranheza, buscar um segundo olhar e novas camadas de leitura de uma imagem”, diz Vitale, dono de um talento afiado para misturar criadores e suas criaturas em um mesmo retrato.
Centro Cultural Fiesp (Galeria). Avenida Paulista, 1313, Tel.: 3322-0050. Ter. a dom., 10h/20h. Grátis. Até 20/9.
VEJA SÃO PAULO