Um tatu rabiscado no chão de casa, aos 4 anos, foi o primeiro de uma longa linhagem de bichos de Ziraldo Alves Pinto. A carreira do maior cartunista brasileiro do século XX foi marcada por cangurus, elefantes, pulgas, bichinhos da maçã e outros animais fantásticos, mitológicos ou cotidianos. Mas há ainda um vasto zoológico particular a ser descoberto nos acervos do artista mineiro, morto em 2024, aos 91 anos.
Dois lançamentos póstumos exploram o fascínio do cartunista pelos animais. Inaugurando a série de livros “Tem Zira” (Global Editora), organizada pelo designer, ilustrador e escritor Guto Lins, “Tem bicho” reúne araras, tartarugas, moscas, coelhos, joaninhas, sapos, entre tantos outros exemplares da fauna ziraldiana. Produzidas entre os anos 1970 e 2000 para campanhas publicitárias, cartazes, calendários, capas de cadernos e outras publicações, as ilustrações foram garimpadas nas gavetas do Instituto Ziraldo (IZ).
‘A Turma do Pererê’
Já “A Turma do Pererê: uma história para celebrar” traz de volta os personagens da primeira HQ brasileira inteiramente colorida e concebida por um único autor. Publicada originalmente em 1983 e fora de catálogo desde então, a aventura especial ganha agora uma edição em formato art book, complementada por esboços, estudos, materiais de arquivo e textos de especialistas.
Inspirada na fauna e no folclore brasileiros (uma novidade na época), a Turma do Pererê circulou no formato revista em diferentes momentos entre 1959 a 1976, ano em que saiu definitivamente das bancas. Em torno do Saci Pererê e do garoto indígena Tininim, Ziraldo criou uma série de personagens que roubam a cena, como a onça Galileu, o tapiti Geraldinho, o jabuti Moacir e o tatu-rosa Pedro Vieira.
— Quando você olha um bicho do Ziraldo, abre aquele sorriso porque vê que ele poderia ser seu amigo — diz Guto Lins. — Ele buscava os elementos característicos daquele ser e, ao mesmo tempo, surpreendia acrescentando uma expressividade, uma camada de leitura. Ao olhar para o animal e sentir uma relação afetiva com ele, ele virava o jogo e fazia uma personalidade do jeito que queria.
Brincando com os arquétipos dos animais, o cartunista os aproximava dos leitores pelo humor e pela empatia.
—Ele gostava de inverter o que se espera dos animais, como transformar um bicho feroz num bicho meigo, por exemplo — diz Lins. — “A Turma do Pererê” é um clássico disso. O carteiro é um jabuti, o macaco é o leitor, a onça é o bicho mais manso de todos.
O mais difícil na curadoria de “Tem bicho” foi desapegar do que ficou de fora, conta Lins. Entre os 38 mil itens catalogados no Instituto Ziraldo, a fartura de animais é tamanha que daria para editar uns três livros, calcula o curador.
Guto já havia escrito os textos de dois livros organizados a partir de ilustrações deixadas por Ziraldo, ambos centrados em animais. “Entre cobras e lagartos” (2024) tem como protagonista uma cobra sabichona e solitária. “Peixe grande” (2025) faz uma metáfora da trajetória do cartunista na figura de um peixe que sai do Rio Doce, em Minas Gerais, em direção ao mar. Aqui, o bicho é o próprio Ziraldo!
Entre as publicações editadas pelo cartunista em vida, estão obras como “O Bichinho da Maçã” (vencedor do Jabuti de melhor livro de arte de 1982) e “História de dois amores”. Feito em parceria com o poeta Carlos Drummond de Andrade, este último narra a amizade entre um elefante e uma pulga. E há ainda a fábula ilustrada e musical “Os saltimbancos”, enorme sucesso criado em parceria com Chico Buarque, sobre um jumento, um cachorro, uma gata e uma galinha que fogem para a cidade grande para escapar da maldade dos donos.
— Ziraldo já era ecológico antes de esse termo existir — afirma Guto Lins. — O próximo livro de “Tem Zira” vai ser dedicado às árvores. Assim como com os bichos, ele nunca desenhava apenas uma árvore. Antes de fazer um jambu, um caimbé, um jequitibá, ele estudava essas plantas. Era um observador dessa riqueza que o nosso país sempre ofereceu.
Entre todos os bichos de Ziraldo, nenhum parece ter ocupado tanto espaço em sua imaginação quanto o canguru. Ele descobriu o marsupial ainda criança, em uma enciclopédia, e ficou fascinado. Aos 14 anos, deixou sua Caratinga natal rumo ao Rio levando uma pasta repleta de desenhos do animal. O canguru continuaria aparecendo ao longo de sua vida, ganhando até um livro próprio (“Meu amigo, o canguru”, de 1987).
— Centenas de cangurus lotam as gavetas do Instituto Ziraldo — revela Adriana Lins, diretora artística da instituição. — Desde os cartuns publicados nas páginas das revistas Cigarra e O Cruzeiro, nos anos 1950 e 1960, às páginas da Mad americana e da Penthouse, passando pela imprensa de vários países da Europa, pelo Jornal do Brasil e pelo livro antológico “Dez em Humor”, que tem 15 páginas só de canguru.
Em outubro, um canguru de Ziraldo será a imagem do cartaz da Mostrinha, seção infantil da Mostra de Cinema de São Paulo. As curadoras da mostra visitaram o instituto há alguns meses e encontraram a imagem perfeita para estampar o evento.
— Foi impossível resistir ao carinho de uma Mãe Canguru por seu filhote — conta Adriana.
GLOBO

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