Flavio Pinheiro >
A Guerra Civil espanhola eclodiu em julho de 1936, há 90 anos. Alberto Bomilcar Besouchet, tenente do Exército e militante do Partido Comunista do Brasil (PCB), desembarcou na Espanha em fevereiro de 1937 para lutar nas Brigadas Internacionais que defendiam os Republicanos contra as tropas de Francisco Franco, depois longevo ditador fascista. Lá foi morto, possivelmente em maio de 1938, em circunstâncias obscurecidas por silêncios e cumplicidades, e seu corpo jamais foi encontrado. Marco Antônio Machado Lima Pereira, Doutor em História Social e Professor da Universidade Federal do Maranhão, relatou em artigos de exemplar rigor e abundante informação as “tensões e conflitos” que cercaram a trajetória de um revolucionário antifascista brasileiro esquecido na efeméride do conflito e que foi abatido por pelotões estalinistas que o tratavam como perigoso trotskista.
Alberto nasceu em 1910 em Santa Catarina. Era o filho caçula de Júlia Bomílcar e Helvécio Renato Besouchet, oficial do Exército. Muito cedo três de seus irmãos mais velhos – Augusto, Marino e Lídia – filiaram-se ao PCB. Aos 23 anos ele aderiu ao partido. Como tenente, foi um dos líderes da insurreição do 29º Batalhão dos Caçadores em Recife, sufocada por militares que a batizaram de Intentona Comunista. Alberto levou um tiro na perna. Conseguiu fugir. Com sentença de 8 anos de prisão perambulou por esconderijos e usava codinomes como “Jack”. Quando a guerra civil espanhola estourou quis ir para lá. Com falso passaporte cubano e o nome de Ernesto Torres chegou a Buenos Aires e de lá partiu para Espanha. Já em combate, um estilhaço de bomba feriu sua perna - não se sabe se a mesma perfurada a bala em Recife. De alguma forma recuperou-se.
O fiasco da Intentona provocou divisões no partido. Em nome dos irmãos Marino e Lídia, Augusto escreveu um manifesto para Luís Carlos Prestes, secretário-geral do PCB, condenando o “golpismo”, tática fracassada para desatar uma revolução. Ainda em 1935, os Besouchet foram expulsos do partido com estardalhaço acusados de trotskistas (adeptos da revolução permanente pregada por Leon Trotsky, dissidente perseguido e, mais tarde, morto por ordem de Josef Stalin). Entre as suspeitas arroladas mencionava-se que eram amigos de Mario Pedrosa, crítico de arte, trotskista.
A pecha do trotskismo dos irmãos viajou até a Espanha, onde eram vistos como espiões traidores da causa. Por consanguinidade, Alberto passou a ser um alvo. Tina Modotti, extraordinária fotógrafa italiana, provavelmente não o conheceu, mas denunciou-o a Vittorio Vidali, seu superior imediato, como elemento perigoso e nocivo. Mais tarde arrependeu-se do que fez em nome do sectarismo político. Pouco depois da denúncia, Alberto foi assassinado por estalinistas em data e local nunca esclarecidos. Dinarco Reis, comunista brasileiro, também combatente na Espanha, espalhou a versão de que Alberto fora preso e fuzilado pelos fascistas numa prisão em Barcelona. Hipótese errada. Augusto, funcionário do Banco do Brasil, mortificou-se de culpa por ter estimulado o irmão a ir para a Espanha. Lídia, escritora e historiadora, fez o que pôde para esclarecer sua morte e buscar seu corpo. Alberto é um mártir pouco conhecido de uma aventura política arriscada, mas que valia um sonho
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