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    quarta-feira, agosto 05, 2026

    Lula é um clone para 12,5% do eleitorado, mais que os 8% da Terra plana

     O presidente Lula (PT) veste a camisa da seleção brasileira em meio à Copa do Mundo

     LEONARDO SAKAMOTO

    Se você achava que o debate eleitoral de 2026 seria travado em torno da economia, da segurança pública ou do fim da escala 6x1, é melhor reservar espaço para uma questão anterior: há uma parcela do eleitorado que discute nas redes se o presidente da República é realmente Lula?

    Pesquisa Meio/Ideia divulgada hoje mostra que 12,5% acreditam na mentira que Lula foi substituído por um clone ou sósia. É um em cada oito eleitores. Outros 28,5% não sabem ou não responderam. E 58,9% creem que isso seja fantasia. A margem de erro é de 2,5 pontos.

    Isso não significa, evidentemente, que quatro em cada dez brasileiros acreditem ou não têm certeza que possa existir um clone. Mas revela que uma parcela gigantesca da população não consegue afirmar com segurança que o presidente é ele mesmo, algo que, até pouco tempo atrás, não parecia exigir curso superior, laudo pericial ou acesso a documentos ultrassecretos da CIA.

     Para efeito de comparação, uma pesquisa Datafolha de 2024 (que, claro, foi feita sob outra metodologia) apontou que 8% dos brasileiros acreditavam que a Terra era plana e outros 3% não souberam responder. Ou seja, há mais gente comprando a tese de que Lula saiu de cena e foi trocado por uma réplica do que defendendo que o planeta é uma grande panqueca cósmica.

    Os cruzamentos ajudam a entender onde essa crença encontra terreno fértil. Entre os homens, 15,4% acreditam no clone, ante 9,9% das mulheres. O índice chega a 15,9% entre quem tem apenas o ensino fundamental e cai para 8,4% entre os que concluíram o superior.

    Na direita bolsonarista, 20,2% consideram verdadeira a história. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, são 18,3%, contra 9,8% entre os de Lula. Isso não torna a esquerda imune ao delírio (11% da esquerda lulista também acreditam nele), mas mostra que a teoria encontrou abrigo mais confortável no campo político alimentado há anos pela suspeita permanente contra instituições, imprensa, ciência, eleições e fatos reais.

    A pesquisa, sozinha, não permite dizer quantos chegaram à crença pelas redes sociais. Mas o caminho da mentira está bem documentado. A teoria de que Lula morreu e foi substituído circula desde antes da eleição de 2022, abastecida por áudios anônimos, fotografias manipuladas, falsas comparações físicas e vídeos retirados de contexto.

    Vídeos sobre o suposto clone somaram milhões de visualizações, rendendo um bom dinheiro para seus responsáveis. A falsidade não é apenas ideologia, mas também um, modelo de negócio.

    As plataformas não inventaram a estupidez humana, mas transformaram a fabricação de paranoia em indústria. O algoritmo não pergunta se uma informação é verdadeira. Pergunta se ela prende a atenção, provoca raiva e mantém o usuário diante da tela. Entre a realidade sem graça e o clone comunista produzido em laboratório com a ajuda de chineses e bancado por bilionários pedófilos e por cavaleiros templários e, claro, pelo Leonardo Di Caprio, a segunda opção costuma render mais cliques e, portanto, mais dinheiro.

    O problema não é apenas que milhões de pessoas acreditam numa bobagem. Quem aceita que o presidente foi trocado por um sósia também pode aceitar que urnas foram fraudadas, que vacinas implantam chips e que instituições inteiras participam de conspirações secretas. A mentira mais absurda (e deliciosa) funciona como porta de entrada para outras, eleitoralmente mais úteis.

    Uma democracia pressupõe divergências sobre os fatos, mas precisa de algum chão comum para funcionar. Se uma parcela do eleitorado já não tem certeza de que Lula é Lula, discutir políticas públicas torna-se quase um luxo intelectual.

        UOL  

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