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    segunda-feira, agosto 03, 2026

    A Odisseia' de Nolan acerta ao investir em herói adulto e culpado

     


     

    Inácio Araujo

      Com "A Odisseia", a notícia principal é que, finalmente, Hollywood admitiu que já existiu no mundo alguma mitologia antes dos super-heróis da Marvel e da DC e, por uma vez, tirou o Batman de cena para investir num herói adulto.

    A segunda é que os planos iniciais anunciam um filme de enorme beleza: uma praia, o mar, um soldado solitário e, enterrado na areia, um enorme cavalo. O de Troia, o fabuloso truque que definiu uma guerra que começou pelo rapto —ou nem tanto— de uma mulher, Helena, papel de Lupita Nyong’o.

    Logo depois, entram os diálogos e o que uma adaptação dessas sugere de mais perigoso —a postura empolada e o melodrama barato. Mas isso logo passa, o que é muito bom.

    Entramos então em Odisseu, ou Ulisses, papel de Matt Damon, aprisionado durante um naufrágio pelas artes de Calipso —Charlize Theron—, que, depois de salvá-lo de um naufrágio, mantém Odisseu prisioneiro em sua ilha por longos anos. Ao fim dos quais tudo que deseja ardentemente é voltar para Ítaca.

    Nessa altura, diga-se, Odisseu já enfrentou perigos extraordinários e chegou à ilha sozinho, tendo perdido todos os seus homens. Esteve, por exemplo, na ilha dos monstruosos ciclopes, onde cegou Polifemo, o mais temível entre os monstros, fato que desencadeou a fúria de Poseidon, deus dos mares e pai da criatura. Daí decorreram os imensos problemas de Odisseu durante seu retorno a Ítaca, onde era rei.

    Aqui é preciso entrar Penélope —Anne Hathaway— na história: a rainha que espera seu marido anos a fio, recusando as propostas de casamento de uma pilha de pretendentes. Ela tem suas artimanhas para manter-se fiel a Odisseu.

    Este enfrentará outros episódios que fazem de "A Odisseia" a aventura das aventuras, como o encontro com a deusa e feiticeira Circe —Samantha Morton—, que enfeitiça e transforma em porcos os guerreiros de Odisseu, ou a travessia do canto das sereias.

    Mas o essencial no Odisseu de Nolan é a enorme culpa que carrega —a sombra de todos os mortos que sua ação guerreira provocou e o atormenta. Essa dor traz também a certeza de um destino infernal. É isso que parece envelhecê-lo precocemente ao longo do filme.

    E talvez por isso, aliás, o filme tenha sido tão econômico na sequência referente ao inferno —o Hades grego. Se Odisseu é sabedoria e sagacidade, traz a consciência de todos os horrores a que sobreviveu tenazmente e de todos os males que provocou.

    O destino infernal do Odisseu é o que compensa o fato de Nolan produzir um herói muito mais próximo da mitologia judaico-cristã do que da grega propriamente dita. No filme, o único contato entre o Olimpo e os homens deve-se às repentinas aparições de Atena, a deusa que protege o protagonista.

    Não se percebem outras intervenções. O mundo dos deuses gregos, no filme, não se comunica com o mundo dos homens; mal sabemos de onde surgem certas entidades. A história de Poseidon, por exemplo: o poderoso senhor dos mares —e de todas as suas decorrências— era nada menos do que irmão de Zeus, deus dos deuses. Ou seja, não era com pouca coisa que Odisseu lutava para sobreviver.

    O essencial é que, no mundo grego, deuses e homens se misturavam, um pouco como acontece nas religiões afro-brasileiras —o que me ensinou o músico Dante Pignatari—, o que é diferente do pensamento judaico-cristão, em que o mundo dos homens é rigorosamente separado de entidades celestes, sobre as quais reina um Deus onipotente.

    Toda a história de Odisseu é a de uma luta em que se envolvem Poseidon —o inimigo—, Atena —sua protetora— e o próprio Zeus. É isso que "A Odisseia" omite e que afasta o filme de seu universo original para algo mais próximo, digamos, do universo Marvel ou DC.

    Mas não se pode culpar Nolan por isso. Ele enfrenta as poderosas forças de Hollywood, os mestres não do universo, mas da Universal —o que, no caso, vale bem mais. Não convinha, portanto, introduzir algo excessivamente exterior ao que a maior parte das pessoas acredita.

    O certo é que Nolan consegue, desta vez, não complicar demais as coisas: trabalha com habilidade os momentos de aventura e até consegue criar alguns momentos comoventes nas sequências finais, aliás prejudicadas pela necessidade de criar, justamente, o "gran finale" da história.

    Seria muito pedantismo esperar um "A Odisseia" que chegasse ao resultado a que, presume-se, Fritz Lang chegaria caso estivesse mesmo filmando "A Odisseia" no belíssimo "O Desprezo", de Godard —é um outro tempo, outro continente e, a rigor, outro mundo. Em todo caso, "A Odisseia" ali é suporte a essa outra epopeia, que é fazer um filme.

    Por fim, Christopher Nolan poderia ter usado com proveito a brilhante ideia que se encontra no "Ulisses", de Mario Camerini, de 1954 —produção mil vezes menor escrita por Ben Hecht. Ali, Calipso —a ninfa que aprisiona o herói— e sua fiel rainha, Penélope, são interpretadas pela mesma atriz: Silvana Mangano. Na verdade, duas mulheres souberam prender o herói: a rainha e a outra. Talvez fossem mesmo uma só.

    Resumindo: "A Odisseia" é um filme a ver, de preferência em Imax.

     FOLHA 

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