Por que Espanha x Argentina é uma final ainda melhor do que parece?
Carlos Eduardo Mansur
Porque há muitas histórias dentro de uma só partida: da possibilidade de ampliar ainda mais o legado de Messi — sim, ainda é possível — ao choque entre os campeões de América do Sul e Europa. Mas, principalmente, o cada vez mais raro encontro entre seleções que conservam traços característicos de suas escolas de futebol.
Houve certa surpresa quando a Espanha dominou a França na semifinal, porque estava criado um consenso de que os franceses eram uma presença certa no último jogo da Copa. É compreensível porque havia no time uma exuberância traduzida em individualidades que pareciam sempre prestes a ganhar jogos. Era sedutor. E a derrota francesa levou à falsa impressão de que a final perderia brilho.
Porque ficou um tanto esquecido o fato de que, na semifinal, a Espanha apenas recuperou um futebol que sempre a caracterizou. Os espanhóis foram a melhor seleção deste ciclo. E terão, no domingo, um rival sob medida para que se crie o cenário mais fascinante para a decisão. Vivemos um futebol globalizado que tendeu a estandardizar as formas de jogar, apagar escolas, traços de identidade locais que o futebol, como manifestação cultural, era capaz de exprimir. Mas justamente Argentina e Espanha, as duas seleções que mais claramente fogem a esta regra, farão a final.
Lionel Scaloni, técnico argentino, costuma contar que assumiu o cargo, em 2018, convencido por várias das ideias consagradas no futebol globalizado atual: velocidade, pressão, transições rápidas. Até entender que “os melhores jogadores argentinos jogam outro tipo de jogo”. E construiu um time muito identificado com o imaginário coletivo do futebol do país: aproximações, trocas de passes curtas, combinações.
A Espanha é um fenômeno mais recente, uma interpretação própria do chamado “jogo de posição” consagrado pelo Barcelona de Guardiola, com profunda influência na seleção campeã de 2010. É também um modelo baseado em posse e controle, mas que ganhou nos últimos anos pontas como Lamine Yamal e Nico Williams, responsáveis pelo drible e pela aceleração perto do gol rival, que acrescentavam agressividade, algo em parte perdido porque Williams raramente esteve disponível nesta Copa.
Domingo, vão entrar em campo dois times reconhecíveis, duas escolas cujas seleções preservam um imaginário ligado ao futebol desses países. As duas gostam da bola, mas interpretam a posse e o controle de formas claramente distintas. Para os espanhóis, as referências são os espaços no campo. É através da posição, da zona ocupada por cada jogador, que se pretende criar vantagens, atraindo rivais, tirando de posição ou gerando superioridades em áreas do campo. Para os argentinos, a referência é a bola. Em torno dela jogadores se juntam para tocar e avançar, progredir. E, claro, deixar Messi confortável para decidir quando o time precisar.
Antes do jogo, é difícil fugir da sensação de que há um certo favoritismo espanhol. Serão dois times lutando para ter o controle da bola, e a diferença parece estar no que aconteceria com cada um dos times caso seja o rival quem consiga ditar o ritmo. E, neste ponto, a Espanha parece ter mais segurança defensiva e armas para ganhar sem controlar. Mas mesmo essa impressão soa frágil porque não faltaram situações em que a Argentina foi posta contra a parede neste Mundial. E sempre apareceu Messi para encontrar uma saída.
Por falar no maior jogador do mundo, salvo um evento impactante na final, seja um pênalti perdido ou algo fora do roteiro, a Copa já tem o seu craque.
GLOBO


