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    domingo, julho 19, 2026

    Argentina x Espanha: torcer não pode virar um teste de caráter

     

     

    Thales Machado

     

    Como se não bastasse escolher um lado para a final da Copa, uma parcela da opinião pública, sobretudo nas redes sociais, resolveu distribuir ficha de antecedentes aos torcedores. A Espanha ganhou a condição de escolha moralmente recomendável para o domingo. A Argentina passou a exigir justificativa, ressalva e nota de repúdio. O argumento aparece em diferentes versões: não se pode torcer por um país racista, por uma torcida que protagonizou episódios racistas ou por jogadores que não condenaram publicamente seus companheiros. Em algum ponto desse caminho, uma partida de futebol virou teste de caráter.

    Convém começar pelo que não está em discussão. O canto entoado por jogadores argentinos depois da Copa América de 2024 é racista. Enzo Fernández participou, transmitiu a cena e deve responder pelo que fez. A federação argentina deve ser cobrada por sua reação. Também seria importante que Messi, Scaloni e outros nomes relevantes da seleção já tivessem condenado o episódio com clareza. Há silêncios que decepcionam, manifestações frouxas que dizem menos do que deveriam e instituições que preferem esperar a indignação passar. Combater o racismo pressupõe identificá-los, cobrá-los e não aceitar o velho truque de chamar racismo de brincadeira.

    O problema começa quando a responsabilidade deixa de ter nome e sobrenome e passa a se espalhar por contato. Enzo cantou. Outros jogadores não se manifestaram. Logo, concordaram. Se concordaram, a seleção argentina representa o racismo. Se a seleção representa o racismo, quem torce por ela aceita o pacote. A sequência parece lógica porque percorremos seus passos depressa. Vista com calma, é uma escada cujos últimos degraus foram colocados no ar.

    Enzo Fernandez comemora gol de empate da Argentina diante da Inglaterra; ao fundo, Jude Bellingham lamenta empate no chão — Foto: Shaun Botterill/Getty Images via AFP
    Enzo Fernandez comemora gol de empate da Argentina diante da Inglaterra; ao fundo, Jude Bellingham lamenta empate no chão — Foto: Shaun Botterill/Getty Images via AFP

    Seria maravilhoso viver num mundo em que toda pessoa com alguma influência se pronunciasse contra cada injustiça. Gostaria de ouvir mais jogadores sobre racismo, machismo, homofobia e violências que frequentam estádios, vestiários e diretorias. Pronunciamentos deslocam limites e deixam as vítimas menos sozinhas. Mas há uma diferença entre cobrar uma manifestação e transformar sua ausência em confissão. O silêncio pode ser covardia, desinteresse, proteção do grupo ou concordância. Interpretá-lo exige contexto. Transformá-lo automaticamente em concordância resolve a investigação antes de fazê-la.

    A Espanha oferece um bom teste para essa lógica. Vinicius Junior sofreu ataques racistas repetidos em estádios do país. Em apenas uma temporada, a La Liga encaminhou dez episódios à Promotoria. Houve insultos, sons de macaco, um boneco enforcado numa ponte e até uma campanha para que torcedores usassem máscaras e pudessem atacá-lo sem ser identificados. A federação espanhola reconheceu que o futebol do país tinha um problema. Ainda assim, não houve uma mobilização coletiva, espontânea e contundente dos jogadores da seleção.

    Vini Jr. apontando torcedores que o xingaram com ofensas racistas — Foto: Jose Jordan/AFP
    Vini Jr. apontando torcedores que o xingaram com ofensas racistas — Foto: Jose Jordan/AFP

    Dani Carvajal, companheiro de Vini no Real Madrid e nome importante da seleção espanhola nos últimos anos, condenou os agressores, mas também disse que o país não era racista, recorreu ao argumento de que tinha amigos de outras cores e afirmou que o assunto não era discutido no vestiário da seleção. Foi uma resposta insuficiente diante do que Vinicius vivia? Acho que sim. Isso me autoriza a concluir que Pedri, Rodri, Merino ou todos os espanhóis concordavam com quem chamava Vini de macaco? Claro que não. Curiosamente, ninguém exige do brasileiro que pretende torcer pela Espanha no domingo uma explicação prévia sobre esse silêncio.

    Em março deste ano, durante um amistoso contra o Egito, parte da torcida espanhola cantou “quem não pula é muçulmano”. Lamine Yamal, muçulmano e filho de pai marroquino, estava em campo representando o país. Ele, Pedri, Joan García, Luis de la Fuente e a federação condenaram o episódio. A reação correta não apaga o que aconteceu, mas revela quantas Espanhas cabem na mesma arquibancada. Lamine e Nico Williams também já sofreram ataques racistas de espanhóis enquanto vestiam a camisa espanhola. Uma nação reúne os que atacam, os que são atacados, os que reagem e os que se calam. Não pensa com uma cabeça só, por mais que as redes sociais gostem de desenhá-la assim.

    Yamal leva vantagem em confronto direto contra Mbappé — Foto: David Ramos/Getty Images/AFP
    Yamal leva vantagem em confronto direto contra Mbappé — Foto: David Ramos/Getty Images/AFP

    O Brasil poderia nos ensinar alguma prudência. Na Copa de 2018, torcedores brasileiros cercaram uma mulher na Rússia e a induziram a repetir um canto sexual ofensivo cujo significado ela não conhecia. A cena da “buceta rosa” foi machista, humilhante e particularmente covarde porque explorava a barreira da língua para fazer da vítima parte da piada. Os homens foram identificados e houve repúdio público. Não se viu, porém, uma manifestação relevante dos jogadores da seleção brasileira.

    A omissão foi criticável. Mas imaginemos a conclusão atravessando o mundo: Alisson, Casemiro e Thiago Silva não se pronunciaram; portanto, concordavam com aqueles torcedores; portanto, a seleção brasileira representava o assédio; portanto, um menino de Bangladesh deveria abandonar sua camisa amarela para demonstrar respeito às mulheres. Pouca gente no Brasil aceitaria essa sequência. O menino de Bangladesh, pelo visto, tem direito a alguma complexidade. O brasileiro que gosta de Messi precisa apresentar a documentação completa.

    Os casos de Robinho e Daniel Alves expuseram a mesma seletividade. Robinho foi condenado por estupro coletivo na Itália e cumpre a pena no Brasil. Daniel Alves foi condenado por agressão sexual na Espanha, mas teve a sentença anulada em recurso; a Promotoria recorreu da absolvição. Durante muito tempo, predominou o silêncio entre os jogadores brasileiros. Leila Pereira o chamou de “um tapa na cara de todas as mulheres”, jogadoras da seleção feminina fizeram críticas duras e Danilo falou sobre conscientização. Foi justo cobrar mais do futebol masculino. Seria absurdo concluir que todos os jogadores calados apoiavam a violência sexual e que torcer pelo Brasil significava absolvê-la.

    A obrigação de se manifestar muda conforme o caso, a nacionalidade e a conveniência de quem cobra. Há quem considere o silêncio argentino prova de cumplicidade, mas tenha achado exagerada a cobrança aos atletas brasileiros nos casos Robinho e Daniel Alves. A régua moral, como alguns laterais, apoia bem de um lado e deixa uma avenida do outro.

    Não se trata de colocar racismo e machismo numa competição, mas de testar um princípio. Se silêncio sempre significa concordância, precisamos aceitar essa regra quando ela alcança nossos ídolos e nossa seleção. Se percebemos que a realidade brasileira exige contexto e individualização, os argentinos também merecem ser julgados como indivíduos.

    Uma causa justa não torna bom todo argumento usado para defendê-la. O antirracismo merece precisão: saber quem praticou o ato, quem o protegeu, quem se omitiu, quem reagiu e quem está sendo responsabilizado apenas por ter nascido no mesmo país ou vestir a mesma camisa. A culpa coletiva, além de intelectualmente preguiçosa, atinge com frequência justamente quem enfrenta por dentro as violências atribuídas a toda uma sociedade.

    Torcer não é absolver. É possível querer a vitória da Argentina, condenar Enzo Fernández, considerar decepcionante o silêncio de Messi e exigir mais da AFA. Assim como é possível torcer por Lamine Yamal sem responder pelos espanhóis que atacaram Vinicius ou cantaram contra muçulmanos. Afeto não suspende a consciência crítica, e consciência crítica não exige o confisco de todo afeto.

    No domingo, cada um encontrará seus motivos. Messi, Lamine, Scaloni, a maneira de jogar, uma viagem antiga, uma camisa guardada, o prazer sempre difícil de explicar de ver perder o time que o cunhado escolheu. Nenhum deles fornecerá um certificado de virtude. Argentina x Espanha decidirá a Copa do Mundo. Para avaliar nosso caráter, ainda será preciso um pouco mais do que conferir para quem torcemos. 

    GLOBO 


     

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