No domingo, eu quero que ganhe a Espanha. Porque eles merecem
Fernando Kallás
Não sei se é um defeito ou qualidade, mas eu não consigo viver sem me envolver emocionalmente com tudo que faço. Sempre me apaixonei com enorme facilidade, me entrego de corpo e alma às minhas amizades e caio no choro por qualquer coisa. Me emociona especialmente ver o sucesso de pessoas queridas e histórias de sacrifício que terminam com a alegria de quem fez por merecer.
Pode ser uma ingenuidade ou romantismo, mas são momentos que me fazem querer acreditar que nesse mundo voraz ainda pode haver justiça para os justos. Que as coisas eventualmente dão certo para quem é do bem.
Mas essa noção de bem ou mal é algo ambígua quando se trata de esporte. O que realmente define quem merece ou não, quem fez mais ou menos? No esporte, o que mais há são histórias de superação. Ninguém chega na elite sem ter passado por um longo caminho, deixando curvas e obstáculos para trás que acabam moldando a personalidade e o caráter de atletas e técnicos.
A vitória de um significa (quase sempre) o sofrimento do outro. Isso acaba fazendo do ato de torcer uma ação de enorme egoísmo. Mas é parte do jogo. Alguém tem que ganhar e alguém tem que perder.
O torcer para o jornalista esportivo, na maioria dos casos, é um ato diferente de um torcedor comum e os motivos vão muito além da ética jornalística. O torcedor vibra pelas cores de um clube, pelo país onde nasceu, por um nome em uma camisa.
Mas o jornalista acaba conhecendo o outro lado do esporte, o lado humano dos que entram em campo ou daqueles que estão nos bastidores. Técnicos, preparadores, auxiliares, dirigentes, assessores. E essas relações pessoais que vão sendo construídas muitas vezes acabam se sobrepondo sobre a paixão que aquele jornalista tinha quando criança por algum clube, por exemplo. Porque, quando você se vê diante de um grupo humano especial, que faz as coisas direito, com talento, esforço e humildade, você quer genuinamente que as coisas deem certo para eles.
Esse sentimento aconteceu comigo na Eurocopa de 2024. Comecei a cobrir a seleção espanhola com o Luis Enrique logo quando entrei na Reuters, um ano antes da Copa de 2022. O ambiente era ruim dentro e fora do vestiário. Lembro do clima pesadíssimo na coletiva de imprensa dele logo após a eliminação precoce, nas oitavas, para o Marrocos.
Com a saída de Luis Enrique, chegou Luis de la Fuente, que vinha de ser técnico da base durante quase dez anos. Uma surpresa enorme, quase ninguém sabia quem ele era. Mesmo com o título da Nations League em 2023, pouca gente botava fé nesse time antes da Eurocopa na Alemanha.
Dois meses antes da competição, tive a oportunidade de entrevistar De la Fuente. Ele chegou na sala, me chamou pelo nome, e conversou comigo durante meia hora sobre como estava convicto de que era mais importante dar prioridade às pessoas antes dos conceitos futebolísticos. Que além de bons jogadores, só iria convocar atletas que fossem boas pessoas.
A filosofia dele é simples e está baseada em colocar o coletivo acima do individual. E para isso ele precisa de uma convivência saudável no vestiário. “Quem determina a saúde de um vestiário são aqueles que não jogam,” dizia.
Achei aquilo fascinante, mas meio ingênuo e romântico. Acreditar que um time dirigido por um técnico de base boa praça, cheio de jogadores do Athletic Bilbao e Real Sociedad e um garoto de 16 anos do Barcelona seria capaz de competir contra seleções com estrelas mundiais.
E acompanhar aquele caminho, jogo a jogo, foi uma das experiências mais incríveis da minha vida. Ver como um time sem egos, onde os reservas se alegram e se emocionam com o sucesso dos titulares, que jovens escutam e respeitam seu treinador com uma admiração construída por anos de convivência na base.
Na terça-feira, voltei a me emocionar, lá em Dallas, porque a atitude
continua a mesma, mesmo depois do sucesso na Euro. No domingo, eu quero
que ganhe a Espanha. Porque eles merecem.
GLOBO


