Futebol x 'fubetol' é o jogo da Copa
Sérgio Rodrigues
Que no país governado por Trump chamem futebol de "soccer", entende-se. Ficaram para trás em acordar para o esporte que o mundo escolheu, coitados. Terão acordado finalmente, como sugere aquela bola que atropelou o Paraguai?
Americanices à parte, futebol vai ser sempre futebol. Ou assim eu acreditava até o momento em que, entre um jogo e outro da Copa, de repente olhei para a onipresente palavra futebol e li "fubetol".
Foi um lapso que meu cérebro logo corrigiu, mas depois fiquei pensando: e se a dislexia se justificar? Vivendo no Brasil, é impossível interagir minimamente com a Copa do Mundo da América do Norte sem ser bombardeado por anúncios de casas de aposta online.
A Cazé TV no YouTube, a única a transmitir todas as 104 partidas, tem o patrocínio de quatro "bets", como essas empresas carinhosamente se vendem. A Globo, de três. Tudo normal: 12 clubes da série A do Campeonato Brasileiro estampam bets no peito.
Poucos se escandalizam. Nossa sociedade decidiu agir como se fosse tranquilo oferecer insistentemente às pessoas um produto que será danoso para um grande número delas, podendo em casos extremos levar ao desespero e à morte. A restrição única de idade, além de insuficiente, é driblável. "Jogue com responsabilidade", um conselho cínico.
Trata-se de saúde pública. O vício em jogo é uma das propensões doentias da mente humana, fraqueza passível de ser estimulada maliciosamente por quem se dispõe a lucrar com a danação dos outros.
Criar uma rede nacional de milhões de cassinos de bolso, legalizados e abertos 24 horas, não é tão diferente de vender crack no horário nobre com slogan chique ("Tinha uma pedra no meio do seu caminho"), produção de qualidade e sorrisos caríssimos de gente famosa —a nova nobreza digital.
Desde as cavernas, sempre foi bandidagem esse jogo, e assim o Estado deveria tratá-lo. Nada a ver com restringir liberdades individuais: a "liberdade" para induzir e explorar comercialmente a ruína humana se chama —ou deveria se chamar— crime.
Não que o Brasil fosse inocente quando era só o país do futebol. Sempre houve leniência, como aliás em grande parte do mundo, com o uso da paixão esportiva para vender cerveja. Mais antigamente, até cigarro pegava carona na audiência.
Mesmo com a "atenuante" de que o alcoolismo e o tabagismo destroem a pessoa bem mais devagar que o vício em jogo, não se via o fumante Sócrates estrelando anúncio de Hollywood no intervalo de Brasil e URSS, partida de estreia da seleção na Copa de 1982. Era impensável.
Não é mais. No país do "fubetol", no intervalo de Brasil e Marrocos —como de resto o tempo todo—, lá estava Vinicius Jr. vendendo a Betnacional, "a bet dos brasileiros" na voz de Galvão Bueno. "Bota essa paixão pra jogo", diz o pregão.
O que estava em jogo na Copa costumava ser diferente. As bets fizeram da experiência do futebol, em grande medida, uma outra coisa, merecedora de outro nome —"fubetol", com a aposta no coração da palavra, "ol" como um funcional sufixo genérico e "fu", bem, dispensando comentários.
FOLHA


