Como Messi desmontou um jornal inteiro
Thales Machado
Uma edição de jornal começa muito antes da notícia que justificará sua capa. É uma aposta coletiva, mistura de planejamento e torcida para que o futebol colabore com quem tenta contá-lo. A gente olha os jogos, as reportagens e os personagens em campo e tenta adivinhar qual história sobreviverá até a noite. Depois, com alguma convicção e bastante fingimento, escolhemos um caminho.
Na Copa, esse exercício fica ainda
mais divertido. Há jogos o dia inteiro, craques espalhados pelo
continente e um relógio que não respeita o tamanho da história. Às
vezes, ao decidir a capa, o sujeito que vai reescrever o torneio nem
entrou em campo.
A terça-feira, 16 de junho, parecia promissora.
Tínhamos a estreia da França de Mbappé e da Argentina de Messi. Só que,
na véspera, a Espanha de Lamine Yamal enfrentara Cabo Verde e Vozinha,
goleiro de 40 anos, terminara dono da manchete. O aviso estava dado: não
adianta combinar a edição apenas com os favoritos.
Ainda assim, é
preciso começar de algum lugar. E começamos por Cristiano Ronaldo.
Portugal só estrearia no dia seguinte, mas Cristiano chegaria à sua
sexta Copa com a possibilidade de um feito inédito: tornar-se o primeiro
jogador a marcar em seis edições diferentes. Mesmo sem a confirmação de
que seria titular, a história era grande, havia um repórter em Houston e
permitia uma capa planejada com antecedência, luxo raríssimo durante um
Mundial.
Pedimos à equipe visual uma proposta centrada nele:
Cristiano estaria sozinho na primeira edição. Dependendo do que Messi
fizesse à noite, a segunda poderia reunir os dois. Depois de quase duas
décadas polarizando o futebol mundial, Messi e Cristiano dividiriam
também a capa de um caderno do GLOBO.
Parecia uma boa ideia. Faltou apenas combinar com Mbappé.
No
fim da tarde, em Nova Jersey, ele fez dois gols na vitória da França
sobre o Senegal, um deles um golaço, ultrapassou Pelé e, naquele
momento, o próprio Messi na lista de artilheiros das Copas. Já não fazia
sentido deixar na capa um astro que jogaria apenas no dia seguinte
quando outro acabava de se impor, novamente, como aquilo que vem sendo
desde 2018: um jogador construído especialmente para o Mundial. Levanta a
placa.
A nova capa ficou pronta com o título "2+2": os dois gols que
ele havia marcado e os outros dois de que precisava para alcançar os 16
de Miroslav Klose. Era forte e coerente com o que o dia produzira até
ali. Foi fechada, enviada e impressa na primeira edição, que circulou
sem qualquer informação sobre Argentina e Argélia, jogo marcado para as
dez da noite.
Às dez, porém, Messi entrou em campo em Kansas City e começou a desmontar tudo.
Havia
uma outra opção preparada: se marcasse uma vez, dividiria a capa com
Mbappé. Os dois chegariam aos 14 gols em Copas e ficariam a apenas dois
de Klose. Seria uma imagem perfeita para contar a disputa entre
gerações.
Messi, aparentemente, achou pouco.
Fez
o primeiro gol, depois o segundo e depois o terceiro. Em uma única
noite, alcançou os 16 de Klose, passou a dividir com ele o posto de
maior artilheiro da história das Copas e ainda se tornou o primeiro
jogador a atuar em seis edições consecutivas. Mbappé, que poucas horas
antes parecera tomar de assalto a história da competição, já havia sido
alcançado, ultrapassado e empurrado para fora da capa.
Foi a terceira
capa principal do dia. O título escolhido foi "A História", porque já
não havia muito como disputar com o tamanho do que acontecia. Messi não
era apenas o personagem da rodada ou o jogador de uma grande atuação.
Havia alcançado, na mesma noite, dois marcos que pareciam reservados à
soma de uma carreira inteira. E fizera isso com três gols, de maneira
contundente o bastante para evitar qualquer debate. Àquela altura,
ninguém mais perguntava quem deveria estar na capa. A única pergunta era
quanto do jornal precisaríamos refazer.
Porque Messi não mexeu
apenas na manchete. Entrou pelas páginas internas, atravessou textos já
fechados, bagunçou tabelas e obrigou a edição inteira a se atualizar ao
tamanho de sua noite. A reportagem sobre Mbappé precisou ser revista. O
texto sobre Cristiano Ronaldo, também. Uma matéria sobre a estreia do
Congo perdeu espaço. A tabela dos artilheiros, a página da Argentina, as
chamadas e a hierarquia da edição mudaram.
Perto da meia-noite,
enquanto Messi comemorava em Kansas City, uma redação no Centro do Rio
reabria páginas já fechadas e refazia a forma como o leitor receberia
aquela Copa na manhã seguinte. Há muitas belezas nas Copas, e essa é
outra. Um gol marcado a milhares de quilômetros altera instantaneamente o
trabalho de dezenas de pessoas que não estão no estádio. A bola entra
em Kansas City e uma foto cai no Rio. Messi marca de novo e uma manchete
desaparece. Faz o terceiro e um jornal inteiro precisa ser atualizado
porque o mundo que existia antes daquele gol já ficou velho.
No
começo do dia, Cristiano Ronaldo era a capa. Depois, Mbappé se impôs. No
fim, Messi não dividiu espaço com ninguém. Tomou a capa, tomou o
recorde, tomou a edição e tomou algumas horas de sono de quem precisava
explicar o que ele acabara de fazer.
É assim que se fecha um caderno
de Copa: planejando com cuidado para depois assistir aos grandes
jogadores destruírem o planejamento. E ainda bem. Porque, no fundo, todo
editor de Esportes deseja secretamente que o futebol produza uma
história tão grande que seja necessário jogar a página pronta fora.
O GLOBO


