'Boicote' a Endrick vai muito além das justificativas de AncelottI
ALICIA KLEIN
Importante destacar logo de início que faço essa análise depois de conversar com diversas pessoas, mas que de todo modo ela parte de uma mulher branca, com muitos privilégios.
Há tempos carrego o incômodo de ver Endrick tratado como um cara supostamente problemático, recebendo menos oportunidades do que o seu futebol merece. Desde que saiu do Palmeiras, enfrentou diversos obstáculos, incomuns para alguém do seu talento.
Abel Ferreira demorou um pouco para utilizá-lo, mas quando finalmente abriu as portas do time para o garoto, ganhou de presente um Brasileirão inesperado, com a Cria da Academia como protagonista. No clube, é raro encontrar alguém que se refira a ele sem usar a palavra "humildade" e "esforço".
O que, então, explica suas passagens pelo Real Madrid, Lyon e, agora, seleção brasileira? Por que ele não é visto como a grande esperança de um grupo sem vida e sem criatividade? Por que é subutilizado?
Tenho uma teoria, testada com gente do meio que respeito e que conhece o futebol (e Endrick) de perto.
Depois de vencer a fome no Distrito Federal e começar a garantir o sustento da família ainda menino, ele se tornou ídolo. Antes de se tornar adulto. Crianças torcedoras de times rivais se aglomeravam nas arquibancadas para conseguir um autógrafo da joia palmeirense antes que ele partisse para a Europa. Um fenômeno. Um jovem preto brilhante, de inteligência claramente acima da média. Não só no futebol.
Saiu do Brasil, com 18 anos recém-completos, já se virando bem em inglês e espanhol. Em meses de Lyon, começou a dar entrevistas em francês. Ele é do videogame, mas não é de festa. Tem uma rotina regrada de sono e alimentação, que provavelmente daria orgulho em Cristiano Ronaldo. Quando afirmou que seu ídolo era Bobby Charlton, obrigou muita gente a pesquisar mais informações sobre a estrela inglesa nascida em 1937. Questionado em uma entrevista, preferiu Bellingham a Neymar — de quem nunca pareceu fazer questão de ser parça.
Cobiçado por todas as grandes fornecedoras de material esportivo, optou pela New Balance, preterindo inclusive a Nike, com quem assinara seu primeiro acordo, aos 11 anos. A Nike, que tem uma relação umbilical e um contrato bilionário com a CBF. A Nike, que guiou a gestão da carreira de Ronaldinho Gaúcho, segundo o irmão/empresário Assis.
A escolha de Endrick focou no maior controle sobre a construção de sua marca pessoal e no protagonismo garantido pela empresa. Na Nike ou na Puma, além de correr o risco de ser apenas mais um, ele precisaria aceitar um contrato de 10 anos, amarrando-se logo no início de uma carreira com imenso potencial de crescimento. Impôs à New Balance um acerto de apenas 4 anos, para, de novo, ter mais controle sobre seu futuro. Tudo isso decidido aos 18 anos.
Endrick nunca integrou a panela, o que Casemiro deixou claro quando disse que ele "ainda não era do grupo" — e quando deu um carrinho no companheiro em um treino pré-Copa da seleção. Quando ainda liderava o Real Madrid, um irritado Ancelotti chamou a atenção do garoto estreante por não passar a bola em um contra-ataque da equipe. Mesmo ele tendo feito o gol. Como ousas não seguir as ideias do sábio comandante europeu!
Talvez seja tudo uma grande teoria da conspiração, mas é difícil acreditar que a decisão de ignorar Endrick com tanta frequência seja apenas técnica. Dizem que Carleto o trata muito bem na concentração — não fazendo mais que a obrigação, por óbvio. De qualquer modo, não o tirou do banco nem nos acréscimos contra o Marrocos, deixando um decepcionante Raphinha em campo até o final.
O futebol está cheio de treinadores que fazem péssimas escolhas apenas por não serem tudo aquilo que se esperava deles. Mas o mundo carrega ainda mais histórias de pessoas negras escanteadas por não baixarem a cabeça, por não se conformarem, não se encaixarem em um estereótipo qualquer que se espere delas. Por não obedecerem. Como disse Taís Araújo, por não aceitarem pessoas negras fora do lugar de subserviência. Viram arrogantes, prepotentes, raivosas, estranhas e vão, de forma mais ou menos sutil, recebendo cada vez menos espaço, por ousarem não diminuir para caber.
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