Muito prazer, a vida real

Carlos Eduardo Mansur
Não é possível dizer que a chegada à Copa do Mundo de uma seleção brasileira em busca de formação, sistema e jogadores confortáveis em suas funções seja uma surpresa. Como mostrou o empate com Marrocos, o Brasil tentará formar um time com o Mundial em andamento. É um teste de racionalidade para o país, inclusive se o time crescer e ganhar o hexa.
Durante o longo flerte entre CBF e Ancelotti, e enquanto treinadores entravam e saíam, muita gente minimizava a falta de um projeto a longo prazo, de um ciclo estável. “Não queremos ser campeões de ciclo” era a frase mais ouvida, retrato de um país que despreza os processos. O dano ficou exposto na estreia. Ocorre que, ainda assim, a seleção é candidata na Copa do Mundo. E o pior que poderíamos fazer seria transformar um eventual título em desserviço, em prova de que planejamento é algo desprezível.
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O trabalho de formação da seleção é tão incipiente que a lesão de Wesley se transformou em um imenso problema. Em sua corrida contra o tempo, Ancelotti encontrara um desenho de time no amistoso com o Egito. Paquetá saía da direita para o centro e liberava o corredor para Wesley. Com a lesão dele, não havia no elenco outro jogador com vocação para cuidar de todo o lado direito, especialmente para atacar por ali.
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Ibañez foi um dos tantos problemas da seleção contra Marrocos. Com a bola, além de um lado direito sem agressividade, a presença de Raphinha fazendo o movimento da esquerda para o meio produzia poucas associações com Vinicius Júnior e quase nenhum momento em que o jogador do Barcelona era lançado em profundidade, sua especialidade. A seleção não articulava bem, por vezes com distâncias grandes entre os jogadores. Achou o gol na grande jogada individual de Vinicius.
Mas a grande questão era pior sem bola. O time é moldado para que Vinicius tenha menos tarefas defensivas. Ele ataca como um ponta, mas quem defende por ali é Raphinha. Não tem funcionado. O resultado é que os volantes do Brasil ficam com muito espaço para cobrir. No calor desta Copa do Mundo e no momento de carreira de Casemiro, é arriscado. Marrocos acumulou meias e sempre deixou o Brasil em inferioridade.
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Ancelotti minimizou o problema e ocupou melhor o campo num 4-3-3 na parte final do primeiro tempo, com Raphinha na ponta direita. O meio-campo teve Paquetá junto a Casemiro —depois substituído por Fabinho — e Bruno Guimarães. O campo ficou mais bem ocupado. Mas a seleção esteve longe de ser criativa.
Caso seja essa a nova ideia, Ancelotti ainda terá dúvidas a resolver: Igor Thiago, que tecnicamente ainda não se firmou, ou Raphinha no centro do ataque? Qual o trio de meio-campo que terá consistência e criação? Vinicius jogará pela ponta, mas terá que defender?
São questões com as quais todo treinador depara ao tentar formar um time. Mas o Brasil fez com que Ancelotti tivesse que lidar com elas em plena Copa. O jogo mostrou o que é o mundo real de uma seleção que corre contra o tempo para se estruturar, num futebol de seleções em que há cada vez mais rivais fortes, como Marrocos. Menos mal que há talento e que a provável classificação para a próxima fase dará mais alguns dias para Ancelotti encaixar o quebra-cabeça.


