Kassio declara voto em Flávio se tratar 10 milhões de eleitores como bots
Se Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), considerar que os quase 10 milhões de seguidores do Exército do Lula são parte de uma operação de robôs simplesmente porque se organizam para impulsionar mensagens nas redes sociais, e suspender o canal hoje, poderá dispensar qualquer cerimônia e anunciar seu voto em Flávio Bolsonaro. Seria apenas a formalização de uma preferência política que sua atuação já vem tornando difícil de disfarçar.
Ao determinar que a Meta, dona do WhatsApp, apresente informações sobre a atuação do canal administrado por André Janones, questionando a existência de sincronização de atividades, replicação sistemática de conteúdos e amplificação artificial, o ministro lança sobre seres humanos a suspeita de "comportamento inautêntico".
Alguém precisa explicar ao presidente do TSE que campanha eleitoral não é uma reunião de indivíduos isolados, esperando uma inspiração divina para decidir o que compartilhar. Campanhas existem justamente para organizar pessoas, distribuir conteúdos, combinar horários de publicação, promover hashtags e disputar espaço entre os assuntos mais comentados.
Isso tem nome: mobilização política. Coisa que, no mundo das redes e aplicativos, os lulistas estão fazendo melhor nest segundo turno de 2026 enquanto bolsonarismo já faz desde 2018.
Se milhões de eleitores recebem uma orientação para publicar determinada hashtag às 20h e resolvem fazê-lo, não se transformam magicamente de comportamento inautêntico. Continuam sendo cidadãos exercendo sua vontade, como em um panelaço. A coordenação não elimina a autenticidade da participação.
Evidentemente, se o Exército do Lula estiver espalhando mentiras, que as publicações ilegais sejam removidas e seus responsáveis punidos. Se houver contas falsas ou automação irregular, que sejam identificadas. Mas transformar articulação política em suspeita de fraude é fazer de conta que não se sabe como funciona a internet.
Ou alguém acredita que os aliados de Flávio Bolsonaro não possuem grupos de WhatsApp, não distribuem vídeos prontos, não combinam publicações nem organizam mutirões para levantar hashtags? Como já disse, o bolsonarismo construiu boa parte de sua força eleitoral justamente sobre essa capacidade de mobilização digital. Por que, então, a organização da direita seria militância legítima, enquanto a da esquerda vira comportamento inautêntico?
Confundir mobilização coletiva com manipulação artificial, sem demonstração de fraude, significa criminalizar o próprio funcionamento de uma campanha.
As revelações de hoje de Breno Pires e Pedro Tavares, na revista piauí, sobre Nunes Marques e os interesses de Daniel Vorcaro tornam esse comportamento ainda mais preocupante. As suspeitas envolvendo a atuação do ministro em votações de interesse do banqueiro, que ele nega, levantam dúvidas sobre sua situação política e institucional. Nesse contexto, uma vitória de Flávio Bolsonaro poderia representar um ambiente mais favorável à sua sobrevivência diante das denúncias, passam pelo recebimento de propina na forma de dinheiro ou serviço de garotas de programa.
A obrigação do presidente do TSE é garantir que os brasileiros escolham livremente seu governante, não agir de forma que favoreça um dos candidatos. E milhões de brasileiros têm o direito de se organizar para defender Lula, assim como outros milhões podem fazer o mesmo por Flávio.
Robôs não votam, pessoas votam. E pessoas também se organizam para convencer outras pessoas. Se Kassio Nunes Marques tratar quase 10 milhões de seguidores (que, se fossem uma cidade, seria menor apenas que São Paulo no Brasil) como bots apenas porque atuam em benefício de Lula, estará colocando sob suspeita não a militância petista, mas sua própria imparcialidade.
E, nesse caso, nem precisará declarar voto em Flávio Bolsonaro.
LEONARDO SAKAMOTO
UOL


