Bora ser elegantes?
SERGIO RODRIGUES
O parentesco etimológico das palavras “eleição” e “elegância” é cristalino, mas sempre confundiu o senso comum. Cheia de promessas vãs, sorrisos sintéticos, acenos para terrenos baldios e até caspa falsa nos ombros para parecer “do povo”, como fazia Jânio Quadros, poucas coisas são menos finas, elegantes e sinceras do que uma campanha eleitoral. Mesmo assim, o que era confusão virou insulto domingo passado, a uma semana desse segundo turno tremendo, quando o Brasil atingiu um novo patamar de deselegância. Primeiro, obra de dementes bolsonaristas ou de agentes infiltrados, o míssil inflável com os dizeres Trump nuke Brazil (“Trump, jogue uma bomba nuclear no Brasil”) desfilou sua ereção grotesca na Avenida Paulista sob olhares complacentes. Poucas horas mais tarde, na mesma cidade, o candidato de Trump se pavoneava em torno de Lula como um garnisé de briga que tivesse aprendido a falar umas poucas palavras (“E a Roberta? E a Roberta?”), no “debate” da Band. Se ficou claro que tem muito brasileiro preferindo morrer de feridas como rosas cálidas a viver numa democracia – ou o míssil infame teria sido implodido rapidinho –, não menos claro é o atestado de óbito do bom e velho debate presidencial assinado aquela noite. Não há debate possível no mundo retórico da extrema direita, todo feito de mentira, deboche e cinismo. Mais um motivo para a gente lembrar que a palavra eleição vem do verbo latino eligere, que significa escolher, separar (o bom do ruim). Um verbo que tem como particípio presente o elegantis, aquele que sabe escolher. Em nome de Jesus, Tupã e todos os deuses desta terra, inclusive o dos ateus: bora ser elegantes?


