Alejo Carpentier

Flavio Pinheiro
A rica plumagem do estilo e a assombrosa erudição do cubano Alejo Carpentier (1904-1980) estão disponíveis de novo. Num momento em que Cuba está assediada por pressões imperiais, saudosas de cassinos e hotéis que rescendiam a luxo cafona e predatório, é oportuno lembrar dele. Filho de pai francês e mãe suíça, Carpentier foi para Cuba com dois anos e lá decantou para sempre sua alma. Em agosto de 2024 a Editora 34 lançou “A Cidade das Colunas” (tradução de Samuel Titan Jr), breve e cativante ensaio motivado por fotos esplêndidas de Havana do italiano Paolo Gasparini, hoje com 92 anos. “No princípio foi o mestre de obras, o homem do prumo e da argamassa”, diz Carpentier logo na abertura. E a arquitetura que veio depois das primeiras edificações corresponde a variada fisionomia urbana e humana de Havana. “Desde sempre a rua cubana foi buliçosa e falastrona, com sua litania de pregões, seus camelôs intrometidos, seus confeiteiros anunciados por sinetas maiores que o próprio tabuleiro de doces...” A rua de alegria mestiça o tempo todo conversa com inconfundíveis marcas arquitetônicas. Uma arquitetura marcada por tantas colunas, mas também por sombras e penumbras, defesas da intimidade e anteparos para o sol.
Mas Carpentier está de volta também com “O Recurso do Método”, caprichada reedição com nova tradução (André Aires) lançada pela Editora Pinard em dezembro de 2025. “Recurso...” inscreve-se na linhagem de romances latino-americanos sobre ditadores, como “Eu o Supremo”, do paraguaio Augusto Roa Bastos, “O Senhor Presidente”, do guatemalteco Miguel Ángel Asturias, ou “O Outono do Patriarca”, do colombiano Gabriel Garcia Márquez. Neles o que parece anedótico ou caricato é simplesmente veraz. O ridículo premia tiranos. O ditador de Carpentier, com manhas e ares aristocráticos dialoga com “O Discurso do Método”, de René Descartes (1596-1650), um dos fundadores da filosofia moderna. Mas apenas para malversar seus princípios e encobrir com este verniz malvadezas e violentos arroubos autoritários. O livro começa com preguiçoso despertar... “mas eu acabei de me deitar. E já toca a campainha. Seis e quinze. Não pode ser. Sete e quinze, talvez. Mais perto. Oito e quinze. Esse despertador será um prodígio da relojoaria suíça, mas seus ponteiros são tão finos que quase não se veem. Nove e quinze. Também não. Os óculos. Dez e quinze. Isso sim”. Ditaduras não dispensam comodidades das elites em que se espelham.
Para ler mais Carpentier: “O Reino deste Mundo”, “O Século das Luzes”, “O Cerco” e “Concerto Barroco”. Livraços.
ILUSTRAÇÃO: LOREDANO


