Fragmentos de textos e imagens catadas nesta tela, capturadas desta web, varridas de jornais, revistas, livros, sons, filtradas pelos olhos e ouvidos e escorrendo pelos dedos para serem derramadas sobre as teclas... e viverem eterna e instanta neamente num logradouro digital.
Desagua douro de pensa mentos.
A ascensão da extrema direita no mundo é filha das redes sociais —eis uma verdade que, se ainda não foi provada cientificamente, acredito que logo será.
Quando explodiu de vez, perto da virada do século, a internet vinha embalada em fumos humanistas de biblioteca universal e plataforma democrática de informação e voz para todos. Quem se lembra?
Era um progressismo vago que não negava a origem pós-hippie do Vale do Silício. Seu teor de ingenuidade era elevado. A internet permitia fazer coisas antes impensáveis, mas aquele otimismo inicial padecia de um grave viés do bem.
Cena do filme 'Hair' (1979), de Milos Forman, que aborda o movimento hippie e a Guerra do Vietnã - Reprodução
O sonho era que, tendo subitamente acesso imediato a toda a informação disponível na Terra, cada pessoa teria a chance de desenvolver ao máximo seu potencial humano e comunitário.
Os seres humanos se tornariam mais sábios e, devido ao debate permanente de suas sabedorias na ágora imaterial —sempre com a vitória do melhor argumento—, infinitamente ponderados na média.
Corta para o presidente dos EUA anunciando em rede social: "Uma civilização inteira morrerá esta noite". Opa, parece que alguma coisa deu errado, não? Convém voltar algumas casas.
Sim, é óbvio que a internet nunca foi um empreendimento humanitário —aquela era só uma das histórias que ela contava sobre si mesma. Nova fronteira de negócios basicamente privados, logo começava a bombar.
Ao lado da biblioteca e da sala de aula que os idealistas trataram de transferir para o mundo digital, transferiram-se também partes menos nobres e mais rentáveis do empreendimento humano.
Casal em frente à Biblioteca Central da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), uma das mais importantes do mundo - Francisco Cañedo - 27.fev.26/Xinhua
O submundo do crime e os exércitos de golpistas, as coberturas duplex do crime e os salões da jogatina, além de um tipo de lixo populista audiovisual que era uma mutação maligna da TV —tudo migrou junto.
Como o mundo propriamente dito —que agora era necessário qualificar de analógico—, o mundo que cada um de nós passou a habitar via tela sempre foi movido pela busca do lucro, que seria redundante qualificar de inescrupulosa.
A diferença é que, no digital, havia ainda mais recursos para explorar as fraquezas humanas que o crime sempre explorou —como o vício. Nossa própria existência online virou então uma sucessão de armadilhas para capturar atenção. Os produtos éramos nós.
As redes sociais redesenharam por completo o ambiente da informação, realizando a promessa de dar "voz" a todos, e adivinha —em vez de debates democráticos e médias ponderadas, vimos um pega pra capar.
Dedo no olho do inimigo, campanhas de ódio, cinismo rampante, terraplanismo, uma usina de desinformação política que nunca dorme. Sitiadas atrás de suas telas, deprimidas e absolutamente sós em sua interconexão digital plena, as pessoas estão vulneráveis.
Metade da humanidade parece ter hoje um fraco pelo caminho apontado pela extrema direita, essa mistura de "salve-se quem puder" com "farinha pouca, meu pirão primeiro" e "morte ao diferente" que de resto surpreende pouco em tempos tingidos de apocalipse.
Eu me pergunto se ainda vai dar para salvar alguma coisa daquele sonho de 2000, que afinal era bem bonito.