Narrar sem entender
(ilustração: Romero Cavalcanti)
"Eneida de Moraes foi uma escritora nascida no Pará e depois radicada no Rio de Janeiro, com longa atuação na imprensa carioca. No seu livro de crônicas Aruanda (1957) ela conta, entre outras histórias saborosas, a história da amizade de seu pai com um vizinho. O pai dela era um ex-comandante de navio, e toda noite, depois do jantar, recebia a visita desse amigo, Seu Lima, que morava ali perto.
O outro velho vinha para conversar, mas na verdade os dois ficavam sentados em duas cadeiras de balanço, no terraço, balançando-se, fumando e olhando a rua. Depois de meia hora de silêncio, o Comandante dava um suspiro fundo e dizia:
-- Pois é isso, Seu Lima.
E o outro respondia:
-- É verdade, Comandante.
Este é provavelmente o mais cinematográfico dos diálogos, e no entanto não aparece em nenhum manual-de-roteiro de Syd Field ou de Robert McKee. Não por culpa deles, é claro. Eu vejo esse diálogo, com sua tonelada de significados implícitos, como algo extraído de um filme de Andrei Tarkovsky ou do recentemente falecido Béla Tarr."
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