Se Trump roubar Gaza dos palestinos, melhor ONU virar shopping ou deposito
LEONARDO SAKAMOTO
Juro que tentei permanecer de férias, mas as declarações do presidente Donald Trump ao lado do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, prometendo uma limpeza étnica em Gaza (sim, a aplicação do termo cai como uma luva) são muito ignóbeis para permanecer em silêncio.
“Nós assumiremos o controle.” Ele propôs, nesta terça (4), expulsar para o Egito e a Jordânia quase dois milhões de palestinos que moram no território destruído pela invasão israelense e criar no local uma “Riviera do Oriente Médio”. Ou seja, defendeu tornar-se sócio de um crime de guerra para implementar o maior empreendimento imobiliário do mundo. Talvez até com condições especiais para a sua empresa, a Trump Organization, erguer imóveis residenciais e comerciais, hotéis, resorts e, claro, campos de golfe.
O que ele fez vai além do campo da bravata para gerar manchetes a fim de encobrir o fato de que não conseguirá melhorar a vida dos trabalhadores dos Estados Unidos no curto prazo ou mesmo para pressionar o Hamas a aceitar termos de rendição ao final do atual acordo de cessar-fogo.
As consequências de suas declarações vão muito além do Oriente Médio. Se uma superpotência pode chegar e avisar que pretende tomar um território que não é seu à revelia do povo que lá habita, como os Estados Unidos vão reclamar quando a China invadir Taiwan? Ou mesmo da invasão da Ucrânia pela Rússia? Claro que as perguntas são retóricas, porque Trump vê os EUA como a única superpotência global com legitimidade para fazer isso.
Se o governo dos Estados Unidos quer ajudar o povo palestino, deveria implementar moradias provisórias no território e financiar a reconstrução rápida de Gaza. É o mínimo da decência, uma vez que foram com suas bombas e o seu respaldo que o governo Netanyahu tentou uma limpeza étnica. Mas o que vemos com Trump é o contrário, com Washington não apenas apoiando, mas avisando que vai tomar as rédeas do genocídio.
Se isso for levado adiante e o mundo não se rebelar, melhor transformar os prédios da ONU em shopping centers.
UOL