A política de troféus e banquetes
Bruno Boghossian
No fim da tarde, algumas das principais autoridades do país interromperam suas agendas para buscar um troféu no Planalto. Se o país atravessasse uma fase normal, aquele seria um desperdício de tempo e dinheiro. Numa situação com 14 milhões de desempregados, inflação em disparada e uma crise política permanente, foi um despropósito completo.
Os chefes do Congresso e um ministro do STF foram agraciados com um prêmio para quem se destacou na área das comunicações. Pode não ser fácil apontar feitos de Arthur Lira, Rodrigo Pacheco e Dias Toffoli no setor, mas os três cumpriram com excelência papéis de figurantes na encenação de normalidade após as ameaças autoritárias do presidente.
As elites de Brasília reinstalaram a era de acomodações que, ao longo dos últimos anos, deixou o caminho livre para Bolsonaro sabotar políticas públicas e ameaçar a democracia. Uma semana depois do showmício golpista, elas estiveram sentadas ao lado do presidente e discutiram o projeto do governo para estimular a navegação de cabotagem.
Na cerimônia de entrega do prêmio, Bolsonaro vestiu a fantasia. Disse que formava "um só corpo" com STF e Congresso, enalteceu o centrão e alegou que muitas vezes erra "no palavreado". Para não perder o costume, elogiou as Forças Armadas e citou o artigo 142 da Constituição, que ele gosta de usar nos acenos intervencionistas à sua base radical.
Há muita gente disposta a acreditar que o presidente seguirá o roteiro de Michel Temer. Autor da nota em que Bolsonaro pedia uma trégua ao STF, o emedebista foi o centro das atenções de um jantar em que figuras da política e da economia gargalhavam da imitação de um Bolsonaro que falava em mandar um ministro do tribunal para o pau de arara.
O movimento dos últimos dias acalmou investidores e satisfez políticos interessados em gerenciar as crises fabricadas pelo presidente. O país voltou ao velho modelo em que poderosos e endinheirados apostam que podem tutelar Bolsonaro. Os prejuízos desse jogo estão aí.
FOLHA