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    terça-feira, março 13, 2007

    A MORTE DO CARTUM (Entrevista com Jaguar)

    O cartunista Jaguar, que lança livros em debate hoje, em SP, fala sobre os rumos do humor brasileiro e o legado deixado pelo "Pasquim" à imprensa



    "Humoristas estão muito certinhos"





    Ana Carolina Fernandes/Folha Imagem

    O cartunista e humorista Jaguar, que lança coleção de humor pela editora carioca Desiderata, numa pose de Humphrey Bogart


    O cartum está morrendo, o "Pasquim" não
    foi assim tão influente e o mundo anda ficando sem graça. Apesar de fazer diagnósticos tão alarmistas, o humorista Jaguar não se diz um nostálgico. "Nostalgia é coisa de velho gagá", diz. O humorista avalia que a vida do "Pasquim" poderia ter sido mais curta, pois o jornal foi
    perdendo influência e tiragem. "Devia ter ido cuidar
    da minha vida, mas insisti de teimoso, de burro."

    SYLVIA COLOMBO
    ENVIADA ESPECIAL AO RIO


    Aos 75 anos e ainda freqüentando de modo assíduo os botequins do Rio -e os da cidade
    onde estiver-, Jaguar encontrou a Folha num tradicional
    restaurante da rua São José, no
    centro da cidade, na tarde da
    última sexta-feira.

    O motivo da entrevista é o fato de ele estar agora à frente da
    coleção de humor da editora
    carioca Desiderata, publicando
    novos cartunistas e gente da
    época do "Pasquim", incluindo
    ele próprio. Entre os lançamentos vindouros, um livro de
    cartuns que ele havia publicado
    apenas na Argentina, há mais
    de 30 anos, e do qual não lembrava mais. "Voltei para o Rio,
    cai na gndaia, e esqueci dele."

    O título, sugestivo, é "Nadie Es
    Perfecto" (ninguém é perfeito).
    Leia, abaixo, os principais
    trechos da entrevista.



    FOLHA - Como anda o cartum?

    JAGUAR
    - O cartum é uma espécie em extinção. Tem muita
    gente publicando história em
    quadrinhos, charges, caricaturas. Não é a mesma coisa. Sou
    cartunista, mas sobrevivo fingindo que sou chargista. Se não,
    não pago as minhas contas.

    FOLHA - Qual é a diferença essencial entre cartum e charge?

    JAGUAR
    - Simples. Por exemplo. Hoje fiz uma charge sobre a
    visita do Bush. Desenhei o Lula
    chamando o Bush, que está indo embora do quadrinho. Só
    aparecem os pezinhos dele. Lula estica o dedo e chama: "Ei, ô
    companheiro, e a saideira?". Isso é uma charge. Uma piada
    que, daqui a cinco anos, ninguém vai entender, porque é
    em cima de uma circunstância.

    FOLHA - E o cartum?

    JAGUAR
    - É um troço que você
    faz sobre assuntos que daqui a
    20 anos qualquer um entenderá. Um exemplo clássico, uma
    piada qualquer sobre o "Ricardão dentro do armário". Todo
    mundo sabe do que eu estou falando. Piadas sobre vida conjugal, sexual, todo mundo entende. Em qualquer época. Já piadas em cima de fatos políticos
    momentâneos vão ficando incompreensíveis.

    FOLHA - E por que o cartum está
    em extinção?

    JAGUAR
    - Porque ninguém
    mais publica. Eu não tenho onde publicar. De vez em quando
    emplaco um cartum. Mas tem
    de ser disfarçado de charge. Se
    não for assim, não passa.

    FOLHA - O mundo está se desinteressando do humor?


    JAGUAR
    - Pelo menos deste formato de humor, sim. Tanto que
    revistas no mundo todo estão
    desaparecendo. A única que
    ainda publica cartum de verdade é a "The New Yorker".





    FOLHA - Há uma nostalgia excessiva com relação ao "Pasquim"? As
    pessoas romantizam demais essa
    época?

    JAGUAR
    - Eu não tenho nostalgia nenhuma. Só quero saber o
    que vou fazer amanhã. Mas as
    pessoas ficam com esse papo:
    "Ah, no tempo do "Pasquim'". É
    uma bobagem, coisa de velho
    gagá. Como se tivesse sentido
    existir o "Pasquim" até hoje.

    FOLHA - Quando lê os jornais, vê a
    influência do "Pasquim"?

    JAGUAR
    - Os jornais mudaram
    muito. Mas acho que mudariam de qualquer jeito. Se não
    fosse por um lado, seria pelo
    outro. As coisas já estavam em
    transformação.

    FOLHA - Mas você escreveu que,
    com o "Pasquim", a imprensa tirou
    o paletó e a gravata.

    JAGUAR
    - É verdade, mas a mudança já estava acontecendo. O
    "Pasquim" deu certo porque as
    pessoas se identificaram. Por
    outro lado, posso dizer que
    quem começou essa transformação toda na imprensa brasileira fui eu, e por acidente.

    FOLHA - Como assim?

    JAGUAR
    - A gente tinha feito
    uma entrevista com o Ibrahim
    Sued. Fomos eu, o Tarso de
    Castro e o Sérgio Cabral. Mas
    depois todo mundo sumiu.

    FOLHA - Sumiu?

    JAGUAR
    - Sim, sumiu. Éramos
    um bando de porra-louca. Os
    dois foram para a farra e eu tive
    de tirar a entrevista sozinho. Só
    que eu não sou jornalista e não
    sabia fazer isso. E deixei o texto
    com o jeito coloquial mesmo.
    Virou nosso "estilo".

    FOLHA - E pegou na hora?

    JAGUAR
    - Não. Demorou. Os
    jornais resistiram a adotar o
    tom coloquial. Só depois que a
    publicidade começou a usá-lo é
    que a imprensa foi atrás. Mas
    hoje já acho que essa fórmula se
    esgotou.

    FOLHA - Por quê?

    JAGUAR
    - Nossas entrevistas ficavam boas porque éramos um
    monte de caras de porre que íamos falar com um coitado de
    um entrevistado que não tinha
    chance de abrir a boca. Passava
    um aperto danado.
    Depois que a coisa pegou, a
    imprensa começou a usar essa
    fórmula, só que para levantar a
    bola do entrevistado. Aí perdeu
    a graça.

    FOLHA - Até quando, então, você
    acha que o "Pasquim" justificou a
    sua existência?


    JAGUAR
    - O "Pasquim" foi uma
    experiência muito divertida,
    mas eu poderia tê-la diminuído
    em dez anos. Fiquei fazendo o
    jornal de teimoso. Me endividei. Foi um horror. Todos pularam fora e eu fiquei. O jornal
    perdeu a influência, a tiragem
    era pífia. Podia ter feito como
    os outros, que foram cuidar de
    suas vidas. Mas, não, fiquei lá,
    morando na redação, dormindo num colchonete debaixo da
    prancheta. Um maluco.



    FOLHA - Dá para viver de cartum?


    JAGUAR
    - Não. Eu trabalhei 17
    anos no Banco do Brasil. E nunca faltei nem um dia. O banco
    foi fundamental. Não só pela
    grana, mas porque me ensinou
    a ser profissional. Sou um porra-louca, bêbado, alcoólatra,
    um monte de coisa. Mas nunca
    faltei no trabalho. Também
    nunca deixei de entregar um
    desenho no horário, no dia certo. Isso eu devo ao banco.

    FOLHA - Houve um retrocesso no
    humor brasileiro com relação aos
    anos da ditadura?

    JAGUAR
    - Sim. Essa coisa de não
    poder chamar crioulo de crioulo, por exemplo. Fui casado dez
    anos com uma crioula. Não é
    pejorativo. Não vou começar a
    dizer que casei com uma afro-descendente. É uma hipocrisia.

    Mas a maioria dos humoristas hoje é muito certinha.
    Criou-se um limite e, se a gente
    passa um pouco, leva pito. Eu
    não levo mais porque sou velho
    e sou o Jaguar. Aí as pessoas dizem: "Ah, é o Jaguar, deixa ele".

    Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, 13 de março de 2007

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