Prisões, censura e chantagem: a guerra de Trump contra universidades
Jamil Chade
O silêncio não prevalecia enquanto o filme transcorria, em um cinema de Nova York. Em cada cena, o público vaiava, aplaudia e reagia. A sessão marcava a estreia nos EUA do documentário The Encampments, que relata os protestos nas universidades americanas em 2024 por conta da guerra em Gaza.
Um de seus personagens principais, porém, não estava na sala, porque está preso. Trata-se de Mahmoud Khalil, detido pelo governo de Donald Trump e acusado, sem provas, de promover uma suposta ideologia de apoio ao Hamas.
Antes de entrar na sala, me deparei com uma situação pouco comum para quem vai ao cinema. Todos nós tivemos nossas sacolas verificadas por seguranças.
"Este é o ar que se respira nas universidades e meios acadêmicos pelos EUA hoje", comentou um casal que estava na fila para ser controlado.
Ao longo dos últimos dez dias, a reportagem do UOL obteve documentos internos, entrevistou professores, estudantes e funcionários de quase uma dezena de universidades americanas. A constatação: as fábricas da elite intelectual da maior economia do mundo estão com medo e em guerra.
Desde janeiro, esses locais de excelência e de liberdade acadêmica passaram a ser alvos de uma ofensiva por parte do governo de Donald Trump.
Tudo começou com uma carta. Ainda em fevereiro, o Departamento de Educação alertava que não toleraria discriminações - contra brancos - e que todos deveriam encerrar programas de diversidade. O que ainda assustava era a ordem para que funcionários delatassem colegas. Quem fosse pego escondendo ou protegendo outro professor que estivesse promovendo a diversidade, seria punido.
Em seguida, o governo Trump abriu investigações contra cerca de cem universidades que, juntas, receberam US$ 33 bilhões em recursos públicos nos últimos dois anos.
Atualmente, 60 delas continuam sendo investigadas por atos supostamente antissemitas, ainda que um terço jamais foi alvo de denúncia antes, nem mesmo interna. Ao anunciar o inquérito, porém, o governo alertou que essas instituições estavam "infestadas por radicalismo", sem apresentar nenhuma prova.
O Departamento de Educação ainda anunciou que investiga 45 universidades, incluindo a Universidade de Kansas, a Universidade de Utah e escolas da Ivy League, como as Universidades de Cornell e Yale.
A alegação é de que essas escolas estão violando a Lei de Direitos Civis de 1964 por conta de contratos com o Projeto Ph.D., uma iniciativa para ampliar a participação de negros na pós-graduação. Dados de 2020 mostram que menos de 4% do corpo docente das escolas de negócios é negro, mas o governo insiste que tais práticas de promoção de afroamericanos "discriminam" outros segmentos da sociedade.
Em uma carta de 17 de fevereiro, obtida pela reportagem, o Departamento de Justiça faz chegar à Universidade de Georgetown um alerta. "Chegou ao nosso conhecimento, de forma confiável, que a Faculdade de Direito de Georgetown continua a ensinar e promover o DEI (programas de diversidade). Isso é inaceitável", afirmou o documento, que comunica a abertura de uma investigação.
No dia 6 de março, a instituição respondeu. "Sua carta desafia a capacidade da Georgetown de definir nossa missão como instituição educacional", rebateu. "Ela indaga sobre o currículo e o ensino em sala de aula da Georgetown, pergunta se a diversidade, a equidade e a inclusão fazem parte do currículo e afirma que seu escritório não contratará pessoas de escolas em que o currículo seja considerado "inaceitável", diz.
"A Primeira Emenda, no entanto, garante que o governo não pode direcionar o que a Georgetown e seu corpo docente ensinam e como ensinam. A Suprema Corte tem afirmado continuamente que entre as liberdades centrais dos direitos da Primeira Emenda de uma universidade estão suas habilidades de determinar, em bases acadêmicas, quem pode ensinar, o que ensinar e como ensinar", insistiu.
Não demorou para que projetos começassem a ser cortados em várias dessas universidades, com a suspensão de centenas de contratos. A Universidade de Columbia perdeu US$ 400 milhões, dos quais US$ 166 milhões eram destinados para lutar contra o vírus do HIV. O governo ainda cortou US$ 175 milhões da Universidade da Pensilvânia como punição por ela ter registrado uma nadadora transgênero em suas equipes.
Na condição de anonimato, professores relataram ao UOL que, ao longo das últimas semanas, muitos departamentos se apressaram a modificar títulos de pesquisas, na esperança de ficar fora do radar da ofensiva ultraconservadora.
Na Universidade de Harvard, encontros sigilosos entre a direção da instituição e professores se proliferaram, na esperança de encontrar formas para driblar a pressão. Mas a instituição conseguiu evitar a abertura de um inquérito por parte da Casa Branca. Washington anunciou na segunda-feira que irá reavaliar os contratos e subsídios avaliados em US$ 9 bilhões com uma das maiores instituições de ensino do mundo. O motivo: a suspeita de antissemitismo.
Do outro lado do oceano, universidades como a de Genebra se deram conta que a crise era real nos EUA quando, de repente, um professor desembarcou na cidade e ofereceu transferir sua pesquisa para a Suíça. Traria junto dele US$ 6 milhões em investimentos por parte de patrocinadores. A universidade local o acolheu de braços abertos.
Mas o golpe mais forte ainda estava por chegar. A prisão de Mohamed Khalil seria apenas a primeira, como prometeu o próprio Trump. As imagens do cerco contra a estudante turca Rumeysa Ozturk, na cidade de Boston, gerou calafrios no mundo acadêmico.
Dias depois, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, anunciou que cerca de 300 estudantes já tiveram seus vistos suspensos. Uma delas era Ranjani Srinivasan, uma estudante de doutorado também da Columbia. Na primeira visita da polícia, ela se recusou a abrir a porta. Um dia depois, quando os agentes voltaram, ela havia fugido para o Canada.
Detenções ainda foram registradas na Universidade de Georgetown e na Universidade Cornell. Enquanto isso, algumas das escolas mais prestigiosas de Boston enviaram alertas a seus estudantes para que, nas férias da Páscoa, não saiam dos EUA. "Não podemos garantir que voltarão", admitiu um professor, pedindo que sua identidade fosse preservada.
Em entrevista ao UOL, Kei Pritsker, diretor do documentário sobre os protestos, acredita que o medo entre a comunidade acadêmica só não é maior que a raiva que existe hoje contra as direções das universidades que optaram por se dobrar ao governo Trump. "Nunca pensei que estaríamos vivendo isso tudo", afirmou.
Para ele, porém, a prisão de Khalil "é apenas um microcosmo de um ataque muito maior contra a liberdade de expressão nos EUA". "A deportação é forma de colocar medo às pessoas para que não se pronunciem", disse.
"Mesmo pessoas sem qualquer relação com a causa palestina deveriam estar preocupadas. Isso envolve todos nós", alertou.
A avaliação de Kei Pritsker é de que a repressão tem sido o último instrumento de um sistema econômico que "já entendeu que não convence mais ninguém". "Quando não da mais para convencer uma população, o que temos é repressão. As pessoas não compram mais a história que esse é o melhor país do mundo, a maior democracia", disse.
Sherif Ibrahim, estudante da pós-graduação da Universidade de Stanford, acredita que ainda a repressão não trará resultados. "Tenho fé. Para que a repressão funcione, eles dependem de nossa capitulação. E isso não vai acontecer. Quando eles recorrem à violência, é por não terem mais nada", disse. "Acho que muita coisa ainda vai acontecer. Ninguém pode parar um tsunami, nem mesmo o deus na Casa Branca", completou.
UOL