Carta ao Leitor — Darcy Ribeiro, Um Brasileiro
Na categoria Educação, Ciência e Tecnologia, um dos escolhidos foi Darcy Ribeiro. Nascido em Montes Claros (MG), em 1922, ele mudou-se para o Pantanal, aos 24 anos, para trabalhar como antropólogo. Fazia pesquisas de campo junto a grupos indígenas, além de ocupar o posto de etnólogo no antigo Serviço de Proteção ao Índio (SPI). “Eu fiz uma coisa pelos índios, que foi criar o Parque do Xingu {no Mato Grosso}. Mas eles fizeram mais por mim. Eles me deram dignidade, e hoje posso ir a qualquer país do mundo falar de índio”, contou depois.
Mas foi, principalmente, na área da educação que se sobressaiu. Darcy criou a Universidade de Brasília (UnB), projeto que convenceu Juscelino Kubitschek a dar início e que foi inaugurado já no governo de João Goulart. Ele foi, aliás, ministro da Educação e chefe da Casa Civil de Jango.
Exilado após o golpe militar de 1964, soube, em Paris, que precisava extirpar o pulmão esquerdo, a essa altura, tomado pelo câncer. “Câncer para montes-clarense é verruga e se cura com benzeção. O meu é dos bons, uma bolinha maligna que, extirpada com o pulmão, dispensável, me deixará bom”, escreveu em correspondência aos amigos que estavam no Brasil. Na verdade, tinha 5% de chances de sobreviver. E sobreviveu (morreria só em 1997, finalmente derrotado pela doença, não sem antes fugir da UTI para acabar de escrever o livro O Povo Brasileiro – a Formação e o Sentido do Brasil). Retornou ao país com a anistia, em 1979, a tempo de se eleger vice-governador de Leonel Brizola no Rio de Janeiro, no começo dos anos 1980. Foi quando idealizou os Cieps para oferecer educação de turno integral às crianças pobres.
A trajetória de Darcy Ribeiro me veio à lembrança graças ao artigo Sem salário digno para professores, promessas de candidatos não passam de propaganda vazia, de Valter Mattos da Costa, publicado nesta edição da Liberta. A leitura também me conduziu a uma das frases mais lúcidas desse pensador, que – apaixonado pela gente brasileira – falava como se tivesse uma metralhadora giratória na voz para acompanhar a velocidade do raciocínio. “A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”, dizia ele. A falta de investimentos e valorização dos professores é parte desse projeto deliberado para manter o status de um país profundamente desigual e injusto.
Se há algo que consola, é outra constatação emblemática de Darcy: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.
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