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    sexta-feira, agosto 21, 2026

    A disputa num campo onde a racionalidade pesa menos que a identidade

    NELSON RICARDO DA COSTA E SILVA

    Sangue frio, pessoal: os próximos números de pesquisas mostrarão apertos, empate e até vantagem para Flávio. Respire. E aguarde duas ou três semanas para vermos se o arsenal contra Flávio vai colar. 
     
    Não adianta falar para iniciados. Indecisos e direita não bolsonarista são as chaves mais aparentes.
    Por quê?
     
    A possibilidade de vitória da extrema direita nas eleições não é apenas uma possibilidade distante — é uma tendência documentada por dados, e o "aperto" nas pesquisas que se avizinha reflete muito além da velha tentativa com "Lulinha": transformações profundas na sociedade brasileira.
     
    O movimento de ascensão da extrema direita não é um fenômeno isolado brasileiro. Como apontam as pesquisas comparativas, há padrões transnacionais que caracterizam o ativismo jovem de direita radical atualmente. O que vemos no Brasil é parte de uma onda que se espalha pelo Ocidente, com particular força na América Latina, onde a combinação de crise econômica, desencanto com a política tradicional e digitalização das relações sociais cria terreno fértil para discursos radicais.
     
    O dado mais contundente que eu conheço vem da pesquisa "Juventudes: Tarefa Pendente" (2025), da Fundação Friedrich-Ebert-Stiftung: 38% dos jovens brasileiros se posicionam à direita, sendo 17% na extrema-direita — o maior percentual em toda a América Latina. 
     
    Para efeito de comparação, no início dos anos 2000, a extrema-direita entre jovens era de apenas 6%; hoje, praticamente triplicou sua presença, enquanto a esquerda encolheu de 27% para 18%.  
    Pesquisa mais recente do Centro de Estudos SoU_Ciência (Unifesp), publicada em janeiro de 2026, corrobora: 23% dos jovens de 18 a 27 anos se declaram bolsonaristas ou próximos ao bolsonarismo, contra 28% petistas. O empate técnico no eleitorado jovem é um fato consumado.
     
    A pesquisadora Beatriz Besen, que dedicou sua tese de doutorado ao estudo da militância jovem na direita radical brasileira e alemã, alerta que não estamos falando de algo homogêneo ou coeso: as portas de entrada na direita radical são muito diversas. Essa diversidade é fundamental para entender o fenômeno, que se desdobra em pelo menos três grandes frentes.
     
    A primeira é o cansaço com o governo Lula e com a política tradicional como um todo. Os jovens, de modo geral, veem a política como algo distante, sujo e ineficaz. Esse desencantamento, combinado com a crise econômica e a percepção de que houve melhorias pontuais, mas insuficientes diante das expectativas, abre espaço para discursos que prometem ruptura. 
     
    Entre os jovens, a corrupção é apontada como o principal problema do país — um discurso capturado com eficácia pela extrema direita.
     
    A isso se soma a força evangélica e a virada religiosa em curso.
    O avanço do neopentecostalismo nas periferias urbanas é um dos fatores mais subestimados. Como mostrou pesquisa de campo em Cidade Tiradentes (SP), a Igreja Universal do Reino de Deus promove cultos como o "Nação dos 318", direcionados a empresários e empreendedores, criando uma subjetividade neoliberal em que a prosperidade individual se confunde com a bênção divina. A Teologia da Prosperidade substituiu, em muitos espaços, a Teologia da Libertação, reforçando a perspectiva da salvação individual e da realização meramente pessoal na existência terrena.
    Mas talvez o vetor mais silencioso e poderoso seja o avanço do empreendedorismo e da meritocracia como valores populares. 
     
    Esse discurso deixou de ser privilégio das elites e se enraizou nas classes populares. A pesquisa da Fundação Perseu Abramo com antigos eleitores do PT na periferia de São Paulo constatou que valores supostamente liberais, como empreendedorismo, meritocracia e esforço individual, estão fortemente presentes nesse universo. 
     
    Por que isso acontece? A resposta está na precarização do trabalho. A geração mais escolarizada da história se depara com um mercado de trabalho instável e fragmentado: 40,9% têm CLT, 13,3% são autônomos PJ/MEI, 11,8% autônomos informais ocasionais, e 10,1% estão desempregados. Diante disso, o empreendedorismo aparece como alternativa de sobrevivência — e o discurso meritocrático, como justificativa para uma realidade brutal: se você não consegue, é porque não se esforçou o bastante. A pesquisadora destaca que, diante da precariedade, empreender não é só uma necessidade imposta pela condição, mas também autoimposta e interiorizada.
     
    A juventude não é mais um reduto progressista — a identificação com a direita cresceu de forma consistente na última década.
     
    O apoio à democracia é superficial: jovens afirmam valorizar a democracia, mas, quando confrontados com cenários de crise, aceitam soluções autoritárias se acreditarem que isso vai "colocar as coisas no lugar" — como restrições a liberdades civis em nome da ordem, ou a defesa de intervenções militares se apresentadas como "garantia de estabilidade". 
     
    A comunicação afetiva (redes sociais) vence a racional: enquanto a política tradicional continua marcada por discursos técnicos, siglas e burocracias, a extrema-direita fala em patriotismo, coragem, liberdade e verdade, de forma direta, performática e emocional, sobretudo por meio de memes, humor e narrativas heroicas. 
     
    Pega na veia de toda uma geração formada em ambientes digitais: rua e chão de fábrica não significam NADA para eles.
     
    Portanto, é mesmo preciso sangue frio e respiração.
     
    O arsenal contra a extrema direita ainda existe — os dados sobre os riscos autoritários, os escândalos de corrupção, a desigualdade que o discurso meritocrático mascara. 
     
    Mas o diagnóstico precisa ser honesto: a virada à direita entre os brasileiros não é conjuntural; é um movimento de fundo, alimentado por precarização estrutural, transformação religiosa e uma comunicação política que entendeu que se ganha no afeto e na identidade, não no debate racional.
     
    E é nesse cenário que indecisos e a direita não bolsonarista se tornam peças-chave — não porque sejam ingênuos, mas porque estão sendo disputados em um campo onde a racionalidade pesa menos que a identidade. 
     
    Chegar até eles exige mais que dados; exige narrativa. 
     
    A disputa não será ganha ou perdida nas próximas semanas. Ela já está em curso há anos, e os números que virão — apertados, de empate ou com vantagem para Flávio — serão apenas o reflexo de uma batalha cultural mais profunda, que exige respostas à altura da complexidade do momento. 
     
    Teremos?
      

     

     

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