Fragmentos de textos e imagens catadas nesta tela, capturadas desta web, varridas de jornais, revistas, livros, sons, filtradas pelos olhos e ouvidos e escorrendo pelos dedos para serem derramadas sobre as teclas... e viverem eterna e instanta neamente num logradouro digital.
Desagua douro de pensa mentos.
sexta-feira, julho 03, 2026
A Copa começa quando um favorito vai embora
Brasil e Paraguai tiveram a falta de delicadeza de tornar a felicidade mais interessante
Thales Machado
Passei boa parte do dia disposto a escrever sobre os derrotados. Havia
uma coluna quase pronta na cabeça, dessas que observam o jogador caído
no gramado, o choro, a mão do adversário no ombro e encontram alguma
beleza onde ninguém queria estar. Brasil e Paraguai, porém, tiveram a
falta de delicadeza de tornar a felicidade muito mais interessante. O
mata-mata, como costuma fazer, eliminou meu texto antes que ele entrasse nesta forma.
A fase de grupos tem lá seus encantos. Há jogo no almoço, no lanche, no
jantar e, dependendo do fuso e da falta de amor próprio, depois da
meia-noite. Descobrimos países, fazemos contas que exigiriam reforço do
Ministério da Fazenda. Mas, numa Copa em que 32 de 48 seleções avançam,
muita coisa vem com rede de proteção.
A Copa começou mesmo quando o Japão fez 1 a 0 e o medo de ir embora
sentou-se com a gente no sofá. Contra o Marrocos, na estreia, a gente
até ensaia uma preocupação, consulta a tabela, diz que o time precisa
melhorar. No mata-mata, não existe projeção para a rodada seguinte:
existe a possibilidade muito concreta de fechar a mala. Mas aí vem o
Brasil, que vira no que era para ser o último minuto, e a comemoração
tem a alegria de quem consegue tirar a bagagem do porta-malas cinco
segundos antes de o táxi arrancar.
Depois vieram Alemanha e Paraguai, um encontro de universos que causava
a mesma estranheza de quando Chaves e Chapolin apareciam juntos. De um
lado, a Alemanha, com Neuer, Kimmich, jogadores de Champions e a pompa
de quem parece chegar ao estádio acompanhada por uma comissão da União
Europeia. Do outro, o Paraguai, que, mesmo tendo bons jogadores,
conserva a aparência de uma seleção formada por atletas que passaram,
passam ou ainda passarão por algum clube instalado entre o 8º e o 14º
lugar do Campeonato Brasileiro. Um compiladão dos melhores da semana de
uma rodada qualquer da Sul-Americana.
É impossível não torcer por esses homens. Em pouco tempo, o lateral
paraguaio de nome familiar se torna próximo; o volante parece aquele
sujeito que já foi expulso contra o Fortaleza numa quinta às 19h; o
goleiro, o grande Orlando, passa a ser tratado pelo primeiro nome, como
se frequentasse o mesmo bar. A Alemanha é uma instituição. Fria e
distante. O Paraguai é um grupo de WhatsApp. Não se conhece todo mundo
que está lá , mas há certa intimidade no ar. E o grupo de WhatsApp,
contra todas as recomendações, sobreviveu.
O jogo foi chato, o que só melhora a defesa do mata-mata. Nem toda
partida precisa ser boa quando pode ser fatal. Durante 120 minutos, a
Alemanha e (principalmente, convenhamos) o Paraguai fizeram o futebol
andar de um lado para o outro com a disposição de quem procura uma vaga
em estacionamento de supermercado. Bastou chegar aos pênaltis para
milhões de pessoas descobrirem superstições que não tinham dez minutos
antes. O mata-mata não garante espetáculo. Garante que, por noventa,
cento e vinte minutos ou mais, o coração desaprenda a ficar quieto.
A ampliação da Copa nos deu uma rodada a mais desses jogos. Se os 16
avos de final são horríveis no nome, são ótimos no conceito: favoritos
assustados, seleções adotadas por uma tarde, cobranças que ninguém tem
coragem de ver e heróis que talvez daqui a seis meses estejam marcando o
ponta do Bragantino. Depois que esta coluna fechou, Marrocos eliminou a
Holanda e produziu outra dessas cenas: brasileiros comemorando pelas
ruas e pelas redes uma vitória que, em tese, não lhes pertencia. É o
mata-mata distribuindo cidadanias provisórias. Ainda teremos mundos
paralelos pela frente.
Minha coluna sobre os derrotados pode esperar. Agora que a Copa
finalmente começou, quem foi derrotado que trate de escrever sobre a
beleza de perder. Até aqui, não tenho lugar de fala.