Michelle joga um Dark Horse em Flávio Bolsonaro ao dizer que foi apunhalada
LEONARDO SAKAMOTO
"Ele me desrespeitou e me maltratou." Michelle Bolsonaro despachou a pré-candidatura do enteado Flávio para o hospital eleitoral sem sequer levantar a voz. A ex-primeira-dama revelou hoje que o senador, escolhido por Jair para disputar a Presidência, a tratou com agressividade depois que ela ousou discordar de uma aliança do PL com Ciro Gomes no Ceará e como uma pessoa incapaz de entender e participar da vida pública.
Chamou o episódio de "punhalada", em português claro, traição. Disse que ele sugeriu que ela ficasse fora das decisões do partido porque não entendia nada de política. Em suma, machismo. Logo ela, que preside o PL Mulher, mobiliza uma campanha nacional de filiação ao partido, organiza candidaturas de mulheres e é o maior ativo eleitoral da família junto ao segmento evangélico.
"Me tratam como idiota", disse Michelle. E soltou uma frase coalhada de duplo sentido: "Eu sei mais do que eles pensam".
No ano passado, Michelle criticou publicamente a aproximação do PL do Ceará com Ciro Gomes — o mesmo que, segundo ela, chamou Bolsonaro de "ladrão de galinhas" e batizou os filhos do capitão de "ovos de serpentes nazistoides". Michelle apoiava o senador Eduardo Girão (Novo) como candidato da direita ao governo do estado.
Também defendia que a vereadora Priscila Costa, sua aliada, seja a candidata ao Senado pelo estado, o que seria uma determinação do próprio Jair Bolsonaro. O PL, no entanto, caminhou para lançar Alcides Fernandes, pai do deputado André Fernandes, o homem forte do partido no Ceará. Michelle não engoliu.
"Já que a aliança com Ciro é tão boa, por que André não disponibiliza a vaga de seu próprio pai? Por que só a mulher tem que ceder?", perguntou ela, no vídeo.
A reação dos filhos de Bolsonaro foi imediata e coordenada. Flávio, Eduardo, Carlos e até Jair Renan a criticaram publicamente e defenderam Fernandes.
Quando, finalmente, falou com o enteado pelo telefone, foi para ouvir uma patada. "Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política. Diante dessa humilhação, eu disse a ele que estava tudo bem. Entendi que ele não queria o meu apoio ou que este era insignificante. E então eu me recolhi. Fiquei na minha e assim permaneço", disse hoje.
Recolhimento, no vocabulário de Michelle Bolsonaro, foi uma arma. Ela não participou dos eventos de pré-campanha de Flávio, não fez posts de apoio. Ficou em silêncio enquanto o enteado tentava se apresentar como o herdeiro legítimo do bolsonarismo, sem a pessoa que talvez hoje seja o rosto mais popular desse movimento além de seu pai.
Os vídeos divulgados hoje foram, então, gravados diante das cobranças e ataques por ela não participar da pré-campanha. Agora, o silêncio ganhou legenda que diz: Flávio me maltratou, me humilhou, me afastou. Eu o abençoei mesmo assim. Mas não vou ficar calada quando me tratam como se eu fosse idiota.
Ela não pediu para desfazer a aliança com Ciro, não exigiu que Flávio se desculpe publicamente, não disse que vai votar contra o enteado. Revelou que foi maltratada, humilhada, menosprezada e que a tratam como idiota. Tudo aquilo que a mulher pobre, cristã ou não, eleitorado numeroso, sente na pele todos os dias.
Flávio ainda tentava se recuperar do coice que levou quando o Intercept Brasil revelou que ganhou R$ 61 milhões do seu "irmão" Daniel "Banco Master" Vorcaro — dinheiro que seria para o filme sobre a vida de seu pai, mas a PF avalia se foi usado para Eduardo Bolsonaro conspirar contra o Brasil nos EUA.
O público evangélico já vinha abandonando o primogênito de Jair devido ao mau cheiro exalado pelo seu Dark Horse. Agora, ganhou mais um motivo para se afastar dele.
E a madrasta, a mulher que ele mandou ficar quieta porque "não entende de política", deu uma aula de política para o enteado, mostrando que poderá ver seus pleitos atendidos no Ceará. E que, por que não, continua sendo uma opção presidencial para o PL.
E segue o Game of Thrones do clã Bolsonaro.


