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    sexta-feira, junho 26, 2026

    Casimiro, o ex-amigo revolucionário

    Homem de barba e óculos veste terno escuro e segura troféu dourado com as duas mãos em palco com iluminação azul e vermelha.
     


    Tati Bernardi


    A nova febre das redes sociais é lamentar que o streamer e empresário Casimiro Miguel não é mais o "amigão do sofá", tampouco o revolucionário que esperávamos.

    Eu só assisto a futebol durante a Copa do Mundo, portanto conheci Casimiro quando ele começou a fazer reacts de casas de milionários. Do seu quartinho mambembe, Cazé ria de vídeos com salas suntuosas e sofás impecavelmente brancos que cachorros não podiam sujar.

    Esperava-se que o sujeito que peitou o monopólio da Rede Globo, emissora que se consolidou apoiando a ditadura militar, só poderia atuar como um grande líder "contra o sistema" e a favor dos pobres e oprimidos (esses mesmos que hoje ele ajuda, enquanto enriquece desbragadamente, a se tornarem ainda mais pobres, oprimidos e viciados em bets).

    Sem a pose ensaiada e a locução formal de jornalistas consagrados e chatos (lembra quando o Tiago Leifert era o que existia de mais moderno?), o criador de conteúdo estourou quando decidiu sustentar seus pais (que estavam sem renda durante a pandemia) fazendo lives diárias e despretensiosas. Seu pai ficava preocupado: "Isso é lícito?".

    Em 2022, a Globo achou que não valia a pena transmitir a Copa do Qatar na internet, então Casimiro foi lá e comprou o direito de transmissão dos jogos. Absolutamente genial. Daí vieram as Olimpíadas de Paris em 2024 e o Mundial de Clubes em 2025. Em algum momento a Globo percebeu o que estava rolando e tentou copiar, mas não deu certo. Aliás, nada que a Globo vem forçosa e sofridamente fazendo para parecer "divertida" chega aos pés do que Diogo Defante faz apenas por ser ele mesmo.

    Sempre simpatizei com o Casimiro, por isso cogitei encontrar um jeito de defendê-lo. Primeiro, responsabilizando o Congresso Nacional, que legislou e autorizou as bets em 2018 (o que mudou em 2023 parece não ter resolvido o problema). Depois, tentando pulverizar a demonização: Galvão Bueno se diz um "vendedor de emoções" e tá lá anunciando bets. Por fim, argumentando que, sem o apoio da publicidade, não se faz nem um canal sobre literatura. Mas a verdade é que Casimiro se tornou indefensável.

    O problema não é descobrir que nosso ex-amigo revolucionário é ambicioso e abraçou gostoso o capitalismo. O problema também não é a publicidade em si: as campanhas da Lego ("Everyone wants a piece") e da Nike ("Rip the script") são brilhantes e não fazem ninguém perder a sanidade mental, a moradia e até a própria vida.

    O problema é saber que os 35 milhões de inscritos na CazéTV têm sido induzidos ao erro da forma mais torpe que existe. Não basta a exposição ininterrupta à publicidade das casas de apostas, agora o "call to action" vem no meio da frase de um comentarista esportivo. É como se o William Bonner te estimulasse a apostar em cavalos enquanto narra que o Flávio Bolsonaro foi grosseiro com a madrasta.

    Detalhe: indução ao erro não é crime só na opinião de parlamentares do PSOL, mas dentro das regras do mercado financeiro.

    E a gente faz o quê? Deixa de se emocionar com o futebol? Jamais. Eu sigo aqui, chorando com o técnico de Curaçao, a mãe do Matheus Cunha e o pai do Endrick. Sigo vibrando com os dribles do Vini Jr., com a música "Wonderwall" sendo cantada pela seleção e pela torcida da Inglaterra e com o eterno Ferris Bueller do nosso lado.

    Esta é a Copa das Bets, mas é também a primeira Copa que aplica a Lei Vini Jr. contra ofensas racistas e xenofóbicas. É também a primeira Copa em que minha filha torce por seu país e grita "Foi pênalti" a cada passe de bola.

    Eu tenho certeza de que o Casimiro ainda se emociona com tudo isso também.

    FOLHA

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