A pulga de orelha
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Por Gustavo Poli
Não se pode formular a zebra sem a pulga. A pulga é necessária, a pulga é fundamental. Ela deve ser alimentada e preservada em cada orelha torcedora. Sem ela, experimentamos o veneno da empolgação, somos contaminados pela fé arrebatada. Não. Precisamos da pulga de orelha, angustiante e discreta, atéPor isso esse jogo de ontem era perigoso. Não se conjuram zebras com goleadas. A pulga não sobreviveria. Seria imediatamente esmagada pelo cruzamento de Olodum com oba-oba. Sem a pulga não somos zebra. E precisamos ser zebra.
Nosso primeiro tempo ontem foi assustador por isso. Namoramos com a vitória histórica, impiedosa. Por longo intervalo pensei: maldito Sebastian Migné. Em algum lugar entre Porto Príncipe e Filadélfia, uma mosca azul vudu picou esse infeliz que treina o Haiti — e o conduziu ao delírio de que podia jogar contra o Brasil com linha alta. Em algum sono intranquilo, ele abandonou a retranca óbvia e profunda e, em vez de buscar a derrota mínima, decidiu abrir a casinha.
O Haiti é fraquíssimo. É a pior seleção da Copa, segundo o ranking da FIFA. Mas Migné acreditou ter galgado algum parâmetro ao perder de pouco e incomodar a Escócia. A jumência apresentou sua conta em 45 minutos. E por isso amaldiçoei sua alma. A goleada impressionante era tudo o que não precisávamos.
O Brasil tem problemas ofensivos. Não tem um meia criativo de altíssimo nível. E não tem um centroavante de primeira prateleira — por mais que Cunha tenha feito ótima partida na posição. Os laterais não têm velocidade de ultrapassagem.
E o Brasil tem um problema defensivo. Seu principal volante não tem mais o vigor de antes.
Tudo isso é verdade e ainda assim o Brasil pode ser hexa. Os dois outros meias não são marcadores natos — mas têm alguma pegada e talento. Bruno Guimarães tomou a bola do primeiro gol. Paquetá tomou a do segundo e lançou a do terceiro.
A grande virtude da Seleção está na ponta esquerda. Com Neymar avariado, Vini Junior é nosso jogador diferente, capaz de desestruturar esquemas sozinho. Na outra ponta, Raphinha nunca pareceu confortável. E correu tanto no primeiro jogo que a coxa apitou.
Talvez seja um sortilégio do destino. É quase comum que reservas tomem posição e façam diferença no Brasil em Copas. Rayan é um cavalo atropelador — e já mostrou isso em uma temporada na Premier League. Mas ontem não brilhou.
Enfim, celebremos o segundo tempo, as oportunidades criadas pelo Haiti, a grande defesa de Alisson, o marasmo ocasional. Cada um desses pequenos fatores alimentou e preservou a pulga. Para que venha a sexta estrela, toda dúvida é necessária, toda desconfiança é bem-vinda.
Cada jogador brasileiro precisa querer calar profundamente os críticos, precisa odiar o sujeito indeterminado. Precisamos de um “Ninguém acredita na gente” dentro de cada uniforme. De um “Isso aqui é Brasil” em ebulição vestindo casa camisa amarela. Esse será nosso combustível
Por isso, ufa, santo segundo tempo. Veio a necessária vitória pacata, e
seguimos com a pulga. Fiquemos com ela e com nosso perfume de zebra.
Até encontrarmos o primeiro bicho-papão.
O GLOBO


