Faria Lima apoiará Flávio Bolsonaro se Trump atacar bancos a pedido dele?

LEONARDO SAKAMOTO
Existe um tipo específico de ironia que só o Brasil é capaz de produzir com tanta eficiência. A Faria Lima, o endereço sagrado do capitalismo tupiniquim, aquele corredor engravatado onde se decide o destino do país entre um gin e uma planilha de projeções, resolveu apostar suas fichas em Flávio Bolsonaro para 2026. O filho mais velho do capitão, herdeiro político de um governo que tentou rasgar a Constituição como quem descarta um relatório desfavorável, virou o candidato preferido do mercado para conter a reeleição de Lula.
Faz sentido, numa lógica torta que o mercado financeiro domina: não importa se a democracia range, desde que o spread não aperte. Só que dessa vez, o bumerangue voltou com pontaria cirúrgica.
Flávio Bolsonaro articulou junto ao governo de Donald Trump a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. Um gesto que, nas palavras do promotor Lincoln Gakiya, que atua ha duas décadas contra facções, atrapalha o combate ao crime, mas que, no teatro político brasileiro, pode soa linha dura. O que é palanque garantido no interior paulista e nas periferias indignadas do Rio.
O problema é que terrorismo, para os Estados Unidos, não é categoria retórica. É gatilho jurídico e financeiro de proporções industriais. Quando Washington classifica uma organização como terrorista, entra em vigor todo um arsenal de sanções que não pergunta onde você mora, em que moeda você opera ou se você sabia ou não do que estava fazendo.
O sistema norte-americano — especialmente o OFAC (Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros), o braço do Tesouro que implementa sanções econômicas — trabalha com a seguinte lógica: se você tem relação financeira com quem tem relação com terroristas, mesmo que não saiba disso, você tem um problema. E aí entram bloqueio de ativos, exclusão do sistema financeiro internacional e, no limite, processo criminal nos Estados Unidos.
O PCC e o CV não são organizações que operam em cavernas. Elas movimentam dinheiro. Esse dinheiro passa por algum lugar. Esse algum lugar, em muitos casos, tem CNPJ, tem agência, tem gerente de relacionamento e, quem sabe, tem escritório na Faria Lima ou nas suas adjacências. Bancos. Fintechs. Gestoras. Seguradoras. Fundos de investimento. Corretoras.
Embora o histórico de lavagem de dinheiro no Brasil sugira que a ingenuidade do setor financeiro tem limites bem convenientes (o Banco Master de Daniel Vorcaro, "irmão" de Flávio Bolsonaro, está aí para não deixar mentir), é leviano afirmar que a maioria das instituições são parceiras do crime organizado de forma deliberada. Contudo, a legislação norte-americana não exige intenção para punir. Por isso, o resultado pode ser catastrófico para quem aposta que a jogada de Flávio era apenas marketing eleitoral barato.
Quando Jair Bolsonaro tentou dar um golpe de Estado, os gestores olharam para as planilhas e concluíam que, com golpe ou não golpe, o dia continuaria amanhecendo para eles. Essa é a verdade que ninguém da Faria Lima vai colocar no LinkedIn: não é que o mercado financeiro seja contra a democracia. É que ele é, em larga medida, indiferente a ela.
Democracia é uma variável, não um valor. Se o ambiente para negócios for favorável sob um regime que pisou na Constituição, tudo bem. Se for desfavorável sob um governo democraticamente eleito, é catástrofe institucional. E agora esse mesmo mercado está bancando o filho do golpista que, por sua vez, acabou de plantar uma bomba financeira debaixo das cadeiras giratórias de vidro da gloriosa avenida Brigadeiro Faria Lima.
O mais desconcertante é que, sem dúvida, parte significativa do mercado vai sorrir para Flávio Bolsonaro mesmo depois disso. Pelo menos a piada agora tem outra dimensão. Não é mais só o Brasil que pode pagar a conta de uma escolha política irresponsável. São as instituições financeiras brasileiras que podem descobrir, da pior forma possível, que pedir a Trump para classificar organizações criminosas como terroristas tem consequências que nenhuma planilha de risco contemplou.
A Faria Lima queria um candidato que trouxesse segurança jurídica, previsibilidade e afastasse os fantasmas do populismo de esquerda. O que pode ter ganhado é uma auditoria do Tesouro norte-americano e um telefonema do compliance que ninguém quer receber. Boa sorte com a revisão da planilha.


