Frutas viram estrelas de novelas feitas com inteligência artificial que dominam redes
Bananas, abacates e morangos falantes vivem dramas banais e ajudam perfis a conquistarem a atenção em um ambiente digital competitivo
Se você abriu o Tiktok ou o Instagram nas últimas semanas, é bem possível que tenha esbarrado com um abacate traído, uma banana revoltada ou um morango no meio de uma briga. As chamadas “novelinhas das frutas” tomaram conta das redes com enredos que poderiam ir ao ar no horário nobre, mas estrelados por personagens improváveis.
Em vídeos curtos, com vozes sintéticas, histórias de traição, ciúmes e conflitos familiares são condensadas em menos de um minuto. O resultado é viciante — episódios rápidos, cheios de ganchos, que fazem o público querer saber o que acontece depois.
O fenômeno cresceu rápido. Perfis como o Ai.cinema021_, Novela.frutas e Novelinhas dopomar ajudaram a popularizar o formato, acumulando milhões de seguidores e de curtidas ao adaptar narrativas de um reality show para o universo das frutas.
Entre os criadores está Andrea Martins, de 25 anos, dona do perfil Romances Fruti, com mais de 400 mil seguidores. Para ela, o apelo está justamente no absurdo. “O público ama uma briga e casos de traições, meus vídeos mais vistos têm essa premissa.”
Martins diz que, no início, o maior desafio foi lidar com o programa que cria as novelinhas. “A IA gerava uma maçã em uma cena e, na seguinte, ela parecia um tomate. Tive que estudar muito para manter a consistência dos personagens.” Hoje, ela afirma dominar as ferramentas. “Consigo criar um vídeo em 30 minutos, antes demorava três horas.”
O retorno também veio. “Muita gente acha que é só brincadeira, mas já consigo monetizar, e o dinheiro ajuda com as contas”, diz ela, que ganha com visualizações em vídeos mais longos. “O engajamento está ficando melhor, agora que as pessoas estão conhecendo.”
O sucesso não ficou restrito aos criadores independentes. Marcas, influenciadores e até instituições públicas passaram a surfar na onda. Foi o caso da Prefeitura de Salvador. Ana Stamatto, de 30 anos, conta que a ideia surgiu dentro da própria equipe de mídias sociais do governo. “A gente já tinha percebido esses conteúdos há um tempo e ficou meio obcecado. Sempre que aparecia, mandava um para o outro”, ela afirma.
A adaptação, no entanto, exigiu cuidado. “O mais difícil foi o roteiro. A gente precisava manter a graça da ‘trend’, mas também trazer uma informação importante”, afirma. No caso, a equipe usou a narrativa para divulgar serviços públicos como academias gratuitas e restaurantes populares.
O esforço valeu a pena. “Foi o maior engajamento da prefeitura no ano. Tivemos mais de 500 mil curtidas e milhares de comentários. Mais importante que isso, conseguimos fazer as pessoas conhecerem serviços que muita gente nem sabia que existiam”, afirma.
Por trás da aparente simplicidade dos vídeos, há lógica —e estratégia. Segundo o advogado e especialista em direito digital Alexander Coelho, o sucesso está menos na qualidade estética e mais na forma como o conteúdo é consumido hoje. “O que prende a atenção é a combinação de familiaridade, estranheza e recompensa rápida. É simples de entender e não absurdo o suficiente para interromper o ‘scroll’”, afirma.
Num ambiente dominado por algoritmos, ganhar segundos de atenção vale mais do que um vídeo tecnicamente sofisticado.
“As histórias exploram gatilhos narrativos antigos —conflito, curiosidade e antecipação. É o velho folhetim, só que adaptado para a economia da atenção”, diz.
O fenômeno também levanta alertas. O especialista aponta que esse tipo de conteúdo —muitas vezes classificado como “AI slop”, ou seja, produzido em grande volume pelas IAS e com baixo esforço— pode até gerar alcance, mas nem sempre constrói valor de marca. “Existe o risco de trocar atenção por erosão de reputação.”
Além disso, o consumo constante de vídeos curtos e repetitivos pode impactar o comportamento dos usuários. “Há indícios de associação com desatenção, fadiga cognitiva e dificuldade de manter foco prolongado, especialmente entre os mais jovens”, afirma Coelho. Outro ponto sensível é o potencial de desinformação. “Quando um formato aparentemente inofensivo viraliza, ele pode ser usado para espalhar conteúdos problemáticos ou reforçar estigmas. A escala não elimina o dano —às vezes, só disfarça.”
No campo jurídico, o uso de inteligência artificial também abre discussões sobre direitos autorais, como alerta Coelho. “A IA não responde legalmente. Quem responde e deve se atentar aos cuidados são as pessoas ou empresas por trás do conteúdo.”


