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    Fragmentos de textos e imagens catadas nesta tela, capturadas desta web, varridas de jornais, revistas, livros, sons, filtradas pelos olhos e ouvidos e escorrendo pelos dedos para serem derramadas sobre as teclas... e viverem eterna e instanta neamente num logradouro digital. Desagua douro de pensa mentos.


    segunda-feira, abril 06, 2026

    A barata americana

     

    AGUALUSA

    Donald Trump anuncia o completo esmagamento do Irã. Logo a seguir surpreende-se com a resistência. Admite ter proposto um cessar-fogo. Diz que foram os iranianos a iniciar as conversações. Reivindica a vitória total. Na frase seguinte proclama, com a ingenuidade de um anjo recém-saído das mãos de Deus, que ninguém poderia prever o encerramento do Estreito de Ormuz. Escreve que o Irã tem 48 horas para reabrir a passagem, caso contrário, aniquilará várias usinas de energia. Anuncia que suspende por cinco dias os ataques às infraestruturas energéticas. Diz-se disposto a abandonar o cenário de guerra. Os europeus que resolvam o problema. Irrita-se com o alheamento dos europeus. Implora ajuda aos europeus. Grita que não precisa dos europeus. Confessa que os israelenses o forçaram a iniciar o conflito. Volta, ainda na mesma frase, a proclamar vitória. Diz que não se importa que os aiatolás se mantenham no poder desde que lhe entreguem o petróleo. Noticia o levantamento do embargo petrolífero ao inimigo mortal. Acrescenta que nunca os americanos foram tão vitoriosos. É uma vitória a seguir à outra. Tantas vitórias já cansam.

    Analistas conservadores se esforçam por dar um véu de coerência aos desencontrados discursos do presidente norte-americano. Suam. Balbuciam. É um esforço formidável, inglório, como tentar dar consistência a uma efêmera nuvem num esplendoroso céu de verão.

    “O problema é que Trump partiu para a guerra sem um Plano B”, reconhece um deles.

    “Talvez não tivesse nem sequer um Plano A”, arrisca outro, num fio de voz.

    Um terceiro elogia a intuição de Donald Trump. O presidente americano, segundo este especialista, e outros da mesma escola, seria uma espécie de poeta da estratégia política e militar. Eu diria mais — um profeta! O próprio Donald confessou ter tomado a decisão de atacar o Irã após escutar os seus ossos. Não disse quais. Podemos imaginá-lo a dialogar, por exemplo, com a tíbia direita. É mais fácil imaginá-lo debruçado sobre a tíbia do que a falar com o estribo, desde logo porque Trump nem deve conhecer a palavra, quanto mais o osso.

    Acredito na intuição. Tenho para mim que a intuição é uma manifestação sutil de inteligência. O pensamento se organizando, num súbito clarão, antes da linguagem. Qualquer pedra tem mais intuição do que Donald Trump.

    O atual presidente americano pode ser um inimigo temível, sim, não por causa da sua intuição, mas por causa da sua estupidez. A estupidez é imprevisível.

    Canalhas, tiranos, pessoas perversas, todos eles traçam estratégias. Obedecem a estratégias. Podemos combatê-los. É muito mais difícil enfrentar um homem tolo, sobretudo um homem tolo com grande poder, porque, como acontece com as baratas americanas, nunca sabemos que rumo irá tomar.

    Donald Trump é uma barata americana com uma bomba nuclear atada às costas. Uma barata americana esvoaçando, a toda velocidade, numa sala fechada.

    Eu estou encolhido, imóvel, num canto da sala.

    Medo. Muito medo.

     

    O GLOBO 

     

     

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