Sidney Gusman escreve álbum autobiográfico em que lembra fins de semana com o pai: 'Foi libertador'
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PorTélio Navega
— A ideia surgiu em 2018 — explica Sidão, desligado recentemente da MSP, depois de 20 anos de trabalho na empresa como editor de livros. — Eu andava sonhando bastante com meu pai e, num dia, a caminho do trabalho, lembrei que ele, já falecido havia oito anos, tinha nascido e morrido num domingo.
A ideia de colocar suas recordações afetivas no papel, porém, ainda demorou a sair do papel: Sidão não queria terminar o livro com a morte do pai. Até que, no ano seguinte, em 2019, o jornalista — que tem Domingos como nome do meio — recebeu uma boa notícia que lhe permitiu fechar o álbum com chave de ouro, de forma positiva, mas sem spoiler, claro.
— Agora eu só precisava arrumar tempo e vergonha na cara para tirar esse projeto da gaveta — admite, rindo. — Até que, três anos depois, quando já estávamos saindo da pandemia, tive um apagamento de memória. Foi quando decidi que precisava fazer algo para mim.
O susto vivido por Sidão e sua família, com o episódio de amnésia diagnosticado posteriormente como consequência do excesso de trabalho, foi o estopim para reduzir a marcha e pensar mais em si mesmo:
— Eu tinha acabado de voltar da Bienal do Livro de São Paulo, em 2022, e, em casa, ao escovar os dentes, vi uma tatuagem provisória no meu punho direito e não lembrava de tê-la feito.
Sidão perguntou então à mulher que brincadeira era aquela. Ao que ela respondeu, de pronto: você fez uma tatuagem.
— Ela me perguntou onde estavam nossas filhas, e eu não soube responder, embora tivesse saído para levá-las ao aeroporto, para uma viagem. Daí pensei: fodeu, tive um derrame — lembra, aflito. — Corri para o hospital e fiquei oito horas acordado, de tanta adrenalina, mesmo com as tentativas de me fazer dormir. Eu não lembrava de nada, via meus vídeos nas redes sociais e dizia para meu filho que não tinha vivido aquilo. Até que, do nada, eu voltei, felizmente.
O autor diz que escrever algo como “Domingos”, com momentos ternos — como assistir, ainda adolescente, ao pai ganhar uma pelada — ou tensos, como a birra de Seu Domingos diante da paixão do filho por quadrinhos, foi libertador.
— Eu já havia feito quadrinhos corporativos, uma história para o fanzine “Manicomics” e outra para o álbum “Ouro da casa” — explica. — Mas eram coisas curtas. Escrever algo tão pessoal, para alguém como eu, um cara tão reservado nas redes sociais, foi catártico. Abri muito meu coração. No entanto, precisava colocar isso para fora. E, por ser autobiográfico, tinha de transmitir a verdade a quem lesse.
Sidão chega a se emocionar ao relatar algumas das reações dos leitores ao livro:
— Tem pessoas que encontram coincidências com a história. Outras dizem que tiveram um pai de merda, mas adoraram o quadrinho e querem ser para os filhos o pai que eu sou para os meus, e aquele que Seu Domingos foi para mim.
O GLOBO


