O decenio decisivo
LOR (Luis Oswaldo Rodrigues) :
Então, sem vacilo, para sobreviver na catástrofe climática, vamos ter que correr com algumas ideias que o cientista Luiz Marques apresenta em seu último livro “O decênio decisivo – propostas para uma política de sobrevivência”.
Tenho participado de movimentos ecológicos, lido, escrito e desenhado para procurar entender a mudança climática (ver ao final alguns dos meus textos), mas quase todas as dúvidas que eu tinha foram respondidas no livro do Luiz Marques. Portanto, é o livro mais importante que já li sobre nossa realidade política, econômica e social numa análise rigorosa dos temas relacionados ao aquecimento global e à catástrofe climática que já está em curso.
O “decênio decisivo” a qu se refere Luiz Marques - para que pudéssemos reduzir os impactos do aquecimento global - é a década que estamos vivendo (2020 a 2030), na qual deveria haver mudanças significativas no capitalismo predador e seu consumo de energia insustentável. Sem estas mudanças drásticas, não conseguiremos ficar abaixo dos 2 graus de elevação da temperatura média da superfície do planeta, o que significa alterações profundas do clima no planeta, as quais ameaçam a civilização atual e a continuidade da nossa própria espécie.
Algumas ideias fartamente documentadas no livro do Luiz Marques são:
1) Não há mais tempo para reverter a mudança climática que o modo de produção capitalista provocou
2) Não há capitalismo sustentável
3) Não há sinais de que a elite dominante possa mudar seu modo de vida predatório, inclusive porque elas não dão a mínima para os cientistas
4) Não há, até agora, tecnologia salvadora
5) Não sabemos exatamente o que acontecerá, mas todos os cenários cientificamente estudados são de sofrimento para milhões de pessoas
6) Não há solução individual
7) Não há para onde fugir
Diante desta situação, as alternativas para reduzirmos o sofrimento das futuras gerações, segundo Luiz Marques, são (parênteses meus, como entendi):
Redução radical e emergencial das diversas desigualdades entre os membros da espécie humana (socialismo democrático).
Diminuição imediata do consumo humano de materiais e de energia (em todas suas formas, portanto decrescimento econômico).
Extensão da ideia de sujeito de direito às demais espécies, à biosfera e às paisagens naturais (o planeta não é recurso, muito menos infinito).
Restauração e ampliação das reservas naturais, que devem ser consideradas como santuários inacessíveis aos mercados globais (especialmente onde vivem os povos originários).
Desmantelamento da economia global e transição para uma civilização descarbonizada (mudar para energia eólica, nuclear e solar).
Desglobalização do sistema alimentar e sua transição para uma alimentação baseada em nutrientes vegetais (abolir o consumo industrial da carne, zerar o desmatamento).
Transformar o arcabouço jurídico internacional em benefício de uma soberania nacional relativa (um mundo sem fronteiras, sem nacionalismos).
Acelerar o decrescimento econômico e a transição demográfica (ou seja, menos crescimento com população mundial menor).
Meu pânico vem do fato de já estarmos no meio da década... e o que vemos é o capitalismo aumentando sua destruição do ambiente, incluindo as novas guerras, os muitos governantes negacionistas do aquecimento global, o enfraquecimento das entidades internacionais de controle do clima e o esvaziamento das ações em defesa do ambiente, como a COP 30, em Belém. Assim, o novo mundo que está surgindo ameaça se tornar a sexta extinção em massa.”


