A ascenção do autoritarismo nos EUA é uma realidade
JAMIL CHADE
Primeiro foram deportados os criminosos estrangeiros, aqueles indesejados numa sociedade que zela pela segurança de seus filhos. Muitos aplaudiram.
Depois, foram os estrangeiros sem documentos que cometeram o crime de cruzar as fronteiras para tentar sobreviver. Mais uma vez, muitos não contiveram o sorriso.
Mas não demorou para que as deportações e prisões chegassem aos estrangeiros, desta vez com todos seus papéis em ordem. Seus crimes? Expressar suas opiniões políticas.
Enquanto isso, acadêmicos passaram a ter recursos cortados por tratarem de temas "inadequados".
De repente, um mal-estar se estabeleceu.
Um novo dicionário foi publicado, vetando termos que não seriam mais adequados numa sociedade livre. Em um ano, nos estados ultraconservadores, dez mil obras foram censuradas de bibliotecas públicas e escolas.
Em palanques que flertam com cenas que pensávamos que eram incapazes de serem repetidas depois da queda do nazismo, a sugestão é de que até mesmo americanos poderiam também ser expulsos do país.
Nesta semana, uma imagem me chocou. A responsável pela Segurança Interna dos EUA, Kristi Noem, fez questão de gravar uma mensagem aos imigrantes num cenário aterrorizante. Atrás dela, não havia uma bandeira americana. Mas uma cela onde estavam homens, todos eles desnudos da parte de cima do corpo, amarrados, com a cabeça raspada e humilhados.
A ordem do governo é a de instaurar o medo. Conseguiram.Relatos cada vez mais frequentes apontam que, temendo serem presos, imigrantes deixaram de ir ao trabalho. O resultado tem sido um desabamento de suas rendas.
Sem dinheiro e ainda mais pobres, constatam que estão ainda mais vulneráveis. Cada vez mais soterrados.
Nos gabinetes do governo, a ordem é ainda a de interromper qualquer ajuda financeira, moradia ou saúde para quem não está de forma regular no país. Asfixiar os sonhos como estratégia política.
Do Salão Oval, a ordem é também a de atacar a imprensa profissional, fechar órgãos públicos de mídia e humilhar jornalistas. A censura ainda chega às artes, às universidades e cala a todos os que temem por seus destinos profissionais.
A agressão diária à constituição americana é ainda acompanhada por declarações de apoio pela expulsão de juízes, violando os princípios básicos da separação de poder numa república.
Na Casa Branca, propostas começam a ser desenhadas para que trabalhadores sejam impossibilitados de atuar em sindicatos.
Não nos enganemos: a ascensão do autoritarismo nos EUA do século 21 é uma realidade e está ocorrendo diante dos nossos olhos.
David Frum, ex-redator de discursos de George W Bush, publicou nas redes sociais um alerta:
Quase todas as principais ações de Trump são intencionalmente ilegais. Trump está apostando que o sistema democrático dos EUA está quebrado demais para impedi-lo. Ele supõe, para usar uma frase: 'Tudo o que temos de fazer é chutar a porta e todo o edifício desmoronará'. Chegou a hora do teste.
O experimento democrático de 240 anos dos EUA está ameaçado.
UOL