A política de Cangaço Novo
Gabriel Trigueiro
Antes de qualquer coisa, e para não restar qualquer dúvida sobre o que quer que seja, “Cangaço Novo”, a série nacional criada por Mariana Bardan e Eduardo Melo, e exibida na Amazon Prime, é excelente.
Assisti aos episódios e não me cansava de me encantar com a direção de arte impecável, com a qualidade da direção (não apenas, mas sobretudo das cenas de ação), no desenvolvimento da trama e na galeria de personagens.
Em “Cangaço Novo” vemos as convenções de um cinema de gênero (o western, que sempre “agoniza mas não morre”) a serviço de uma história e, mais do que isso, de um universo estético tipicamente brasileiro. É bonito de doer.
As cenas de flashback filmadas em P&B, no início dos episódios, é uma direção de fotografia de quem assistiu ao “Grandes Esperanças” de David Lean, penso agora na cena inicial filmada como um filme de terror numa atmosfera meio onírica etc, e em “The Night of the Hunter”, do Charles Laughton. Coisa fina demais.
De acordo com a sinopse oficial de Cangaço Novo,
Descontente com a vida e precisando de dinheiro para cuidar do seu pai adotivo doente, Ubaldo, um bancário sem memória da sua infância, recebe uma herança que mudará sua vida. Em Cratará, no meio do sertão cearense, ele se tornará o líder de uma perigosa gangue de assaltantes de banco, cumprindo o destino e o legado do seu pai biológico, um mítico cangaceiro.
Aqui começam os problemas. Não sei qual foi a intenção inicial da equipe criativa, mas “Cangaço Novo” é uma história baseada em uma ideologia reacionária. O fio condutor da narrativa é o “honra teu pai e tua mãe” bíblico.
Ubaldo, o personagem principal, interpretado por Allan Souza Lima, tem um arco de desenvolvimento que é pautado por um sistema de deferência e lealdade aos patriarcas de sua vida — em primeiro lugar ao seu pai adotivo moribundo e depois à memória de seu pai biológico.
Mesmo (aliás, sobretudo) no fim da temporada, compreendemos como Ubaldo basicamente reage, mesmo quando as nega ou confronta, às figuras de autoridade patriarcal que estão em sua vida.
Outra coisa é que a trama toda, sobretudo a trajetória de Ubaldo, se desenvolve a partir de uma lógica de “sangue e terra” — inclusive com demonstrações gráficas, e pra lá de in yo face, de cenas em que o bróder segura dramaticamente a terrinha entre os dedos, à moda de uma Scarlett O'Hara paulista, não à toa um personagem de outro filme reacionário, aliás.
“Cangaço Novo” é puro suco de um conservadorismo agrário quase freyreano. O substrato filosófico do negócio é uma exaltação à família, em seu modelo mais patriarcal, e aos valores reais do bom povo do campo, a ficção romântica do volk, se você preferir, em contraponto à artificialidade cosmopolita e à tibieza moral da cidade.
A política de “Cangaço Novo” é uma utopia reacionária baseada em valores rurais, na celebração de um modelo de auto-organização da sociedade em milícias e no recurso à violência numa lógica meio get rich or die tryin'.
Assim, não me entenda mal. Não tenho pessoalmente qualquer problema ideológico com a política de “Cangaço Novo”. Quem disse que uma história ou que seus personagens têm que ser progressistas?
Argumentar isso seria um filistinismo muito do faixa branca, eu hein. O que me interessa aqui, sempre e absolutamente sempre, é apenas chamar as coisas pelo nome. Comigo não, violão.
CONFORME SOLICITADO
https://conformesolicitado.substack.com/i/137439240/a-politica-de-cangaco-novo
assine a newsletter!!!