PALAVRAS
Às vezes fico matutando que a era dos batebocas sobre música - a era dos testes de pureza e idealismo underground e desdém do mainstream - está chegando ao fim. Análises negativas de albuns e shows praticamente sumiram dos veículos que publicam críticas. Pode ser que, num mundo em que haja tanto para se ouvir, faça mais sentido celebrar aquilo que se ama e ignorar tudo o resto. Talvez, daqui pra frente, a maioria dos consumidores de música serão omnívoros, para os quais a noção de lealdade a um gênero pareça tão alheio quanto a noção de "ser dono" de um album.
Às vezes penso, também, se a convicção política estaria substituindo a convicção musical como o marcador preeminente de identidade subcultural. Talvez alguns dos tipos de gente que costumava discorrer sobre bandas obscuras agora prefiram discorrer sobre causas obscuras ou ultrajantes. E talvez a advogacia da política supra parte do senso de pertencimento que as pessoas obtinham de cenas punk autocontidas. Isto não seria necessariamente um desenvolvimento - embora agora, como sempre, seja provavel que há muitos poseurs misturados com os verdadeiros crentes.
Mesmo assim, o impulso adolescente que deu combustivel ao punk não desapareceu, e nem a primazia da música popular. Ainda curtimos musica pessoalmente porque ainda ouvimos musica socialmente: com outras pessoas, ou pelo menos enquanto pensamos em outras pessoas. E, historicamente, os momentos quando todos parecem estar ouvindo as mesmas canções são os momentos em que algumas pessoas tem a coragem e a imaturidade suficientes para dizer foda-se isso e foda-se aquilo e começar algo novo, ou meio novo.
- Kelefa Sanneh