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    sábado, janeiro 09, 2021

    O disco branco dos Beatles

     


    The Beatles: "The Beatles" (White Album) | VOCÊ DEVIA OUVIR ISTO

    MÁRIO BAG

    : Eu me lembro que era junho porque estava começando a esfriar. Dentro de um mês eu faria 13 anos. Meu casaco já se mostrava apertado e as mangas ficaram curtas, quer dizer, eu é que tinha crescido, engordado e meus braços se alongado. Falando desse meu agasalho, um amigo da rua, me disse: "Já ‘tá pescando siri, hein?". Eu disse a ele que essa expressão só era usada quando se referia a calças, pois eram as pernas das calças que eram enroladas pra não molharem quando o sujeito entrava n'água pra pescar siri. Mas esse amigo, teimoso, não desistiu:

    "É, mas quando o cara enfiar a mão dentro d'água pra pegar o siri, ele tem que arregaçar as mangas pra não molhar".

    (Pode até ser, mas eu não quis perder tempo discutindo esse assunto besta.)

    Minha mãe me deu trinta cruzeiros pra comprar um casaco – uma jaqueta Lee azul clara – que eu tinha visto na vitrine de uma loja. Não era Lee de verdade, americana. Na época, só importadoras vendiam a legítima. As lojas comuns vendiam calças e casacos de brim – como os jeans eram chamados. A gente ficava esperando que a calça de brim ficasse com aquele azul bacana, meio desbotado, mas a calça… cada vez que era lavada ficava com uma cor desagradável de papel carbono, arroxeado. Esse casaco que eu vi, na vitrine, era diferente; já era azul claro. Peguei o dinheiro e fui comprar o tal casaco. A loja ficava pouco depois do cinema Metro-Tijuca, onde eu sempre passava defronte pra pegar uma réstia do friozinho do ar-condicionado que vazava pela porta e refrescava uma faixa da calçada. A gente vinha andando no maior calor e quando chegava naquela "faixa" parecia que a gente tinha tomado banho de pastilha Mentex.

    Havia uma lojinha de discos na Saenz Peña que tinha uma porta de apenas um metro e meio, espremida num espaço ao lado de uma pizzaria chamada La Bella Italia. O som que saía dessa lojinha quase sempre era bom demais; a gente vinha pela rua escutando aquele barulho desagradável de trânsito e quando passava em frente àquele metro e meio, era quase a mesma sensação “refrescante” que eu sentia na faixa do ar-condicionado do Metro, só que de som; isso mesmo… era um som refrescante. No dia em que fui comprar o tal casaco, passei na frente da lojinha e, ao escutar o som fantástico que vinha lá de dentro, entrei; tive que entrar! O vendedor me disse que era o ultimo disco dos Beatles. Ele logo pegou a capa que estava exposta ao lado da vitrola e me mostrou. Era totalmente branca… Já havia uns meses que esse disco havia sido lançado mas eu ainda não tinha comprado pois, como era era duplo, era caro. Ainda mais que aquela capa nos dava a impressão que não valia pagar o dobro do preço por disco com capa branca. (Se fosse pra comprar pela capa, era melhor comprar o Sgt. Pepper’s com aquela capa multicolorida.) Mas o som que vinha da loja era demais. Fiquei, atentamente, ouvindo…(depois soube que era "Back in URSS"). Umas duas faixas depois, entrou "Obladi-Oblada", que eu já conhecia e achava ridícula pois tocava direto no rádio; pra mim "aquilo" nem era Beatles, de tão comédia…

    O dono da loja sentiu logo que eu era um comprador em potencial e puxou, de dentro da capa, as quatro fotos dos caras em papel brilhante, que pareciam fotos de verdade! Depois tirou, de dentro, um papel dobrado: era o poster com as letras de todas as músicas. Perguntei quanto custava e ele disse: "Vinte e oito cruzeiros. São dois discos. Se quiser estéreo, é um pouco mais caro; é trinta."
    Fiquei pensando...

    Cheguei em casa e corri pra vitrola, que não era estéreo; tinha uma caixa só. Achei que isso era uma vantagem pois se fosse eu teria gasto trinta, todo o dinheiro do casaco. O disco ainda vinha com as letras e eu podia ficar treinando inglês em casa... Enquanto eu escutava o disco e lia as letras, organizava, na cabeça, todos esses argumentos pra que quando minha mãe chegasse e pedir pra ver meu casaco novo… Nem estava fazendo ta-aanto frio assim. (© Mario Bag)


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