Menção a ego de Lula em post sublinha sabujice de Rubio a Trump
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Por Eduardo Graça
Aconteceu há quatro meses na Flórida. O presidente dos Estados Unidos e seu Secretário de Estado oficializavam o Escudo das Américas. A aliança costurada por Washington com 17 países latino-americanos, sem adesão do Brasil, dedica-se, no papel, ao combate conjunto ao crime organizado e ao narcotráfico na região. Após breve e desconexo discurso de Donald Trump, Marco Rubio tomou a palavra. Em inglês, para plateia formada majoritariamente por líderes cuja língua nativa é o espanhol, enfatizou o privilégio de todos estarem na presença de “uma das figuras mais importantes da História norte-americana”. Foi quando olhou sorridente para seu chefe e balbuciou um “tudo bem se eu…?”, interrompido por um “claro, por favor” do líder da maior potência global.
A cena foi descrita no diário Los Angeles Times de forma detalhada por Gustavo Arellano, a mais importante voz de origem latina da imprensa dos EUA, em texto intitulado, em tradução livre, “Rubio provou ser mesmo o Pequeno Marco de Trump”. Vale seguir o colunista: “Em espanhol impecável, ele fez então apenas uma nova observação, a de que, sob a liderança de Trump, 'o que faremos tornará as gerações futuras gratas a todos nós'”.
A frase, argumenta Arellano, sintetiza a trajetória do político tão ambicioso quanto camaleônico, por ele acompanhado há quase três décadas. É preciso ser "um certo tipo de pessoa", argumenta o filho de mexicanos e vencedor do prêmio Robert F. Kennedy de Jornalismo, para "ir de filho predileto de uma comunidade exilada de cubanos, que transformou Miami de paraíso de aposentados em uma das capitais da América Latina, a afirmar que os EUA e a Europa abriram as portas para uma onda sem precedentes de imigração em massa que ameaça a coesão de nossas sociedades, a continuidade de nossa cultura e o futuro de nosso povo". O aspecto mais triste da ascensão de Rubio, afirma o colunista, é que seus apoiadores "de fato viram nele a culminação de sonhos há muito acalentados pelos latinos quando um de nós chegasse ao Poder". Balela.
Tarifaço como punição política
Em publicação nas redes sociais, Rubio criticou nesta quinta-feira (16/7) “o ego do presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, que teria dificultado as tratativas em torno do novo tarifaço imposto ao País. Inadvertidamente, ao perseguir explicação outra que não o uso coercitivo do tarifaço como arma política contra Brasília para justificar as novas penalizações, sublinhou sua própria sabujice a Trump. Na seara política, o Secretário de Estado é o exemplo mais eloquente da capitulação das elites americanas aos avanços autoritários da segunda temporada do trumpismo na Casa Branca.
Em 2016, o então senador Rubio mirou a Presidência pela primeira vez. Disputou as prévias republicanas e foi barulhentamente rejeitado pela base. À época, classificou Trump, que acabaria vencendo o pleito, de “o mais despreparado cidadão a buscar a Presidência na História do país”. Dos seus 1,90m, o capitão do Faça os EUA Grandes Novamente (Maga, na sigla em inglês) deu de ombros e rebatizou o filho de cubanos, com 1,74m, de “Pequeno Marco”. O infame apelido, desgraçadamente, pegou.
Ainda assim, e após ter classificado Trump de “golpista” por seu papel na invasão do Capitólio pelos negacionistas do Maga, Rubio decidiu apoiá-lo no projeto de retorno à Casa Branca. Ciente da fragilidade do governo de Joe Biden, detectou ser aquele o atalho mais óbvio para se reaproximar da militância e, com sorte, chegar ao Poder. A costura foi feita por Susie Wiles, comandante da campanha presidencial, futura chefe de gabinete do Trump 2.0, central na nomeação do político, como ela, da Flórida, para a Secretaria de Estado e, depois, para o comando do Conselho de Segurança Nacional. Apenas Henry Kissinger, que acumulou as funções nos governos de Richard Nixon e Gerald Ford, concentrou tamanho poder na Washington moderna, com a ressalva de o paralelo aqui ser mais estrutural do que de estofo intelectual.
Frankenstein da direita
Foi quando o Pequeno Marco voltou à tona. A pequenez agora passou a ser traduzida por críticos na aposentadoria sumária de diretrizes que anteriormente norteavam a trajetória do político. Contradições em sequência sintetizadas a este blog pelo jornalista Fareed Zakaria, colunista do Washington Post e apresentador do “GPS” na CNN americana, como um mix de pragmatismo e capacidade singular de se jogar princípios para debaixo do tapete.
Entre os exemplos mais notórios estão a conversão de Rubio, no Trump 2.0, de defensor da agência americana de ajuda internacional, a USAID, como elemento essencial do soft power ianque, para seu algoz. Sob seu comando, mais de 80% da estrutura do organismo foi desmantelada, pouco mais de 10 mil funcionários demitidos e programas de ajuda humanitária sumariamente cancelados. Entre eles, o de combate à AIDS, iniciado no governo de George W. Bush, e o voltado para enfrentar a fome infantil, o que gerou o aumento, em um ano, informa a UNICEF, de 27% de crianças admitidas em hospitais por desnutrição nos países antes beneficiados, em sua maioria na África.
Gustavo Arellano vai além. Destaca que Rubio levou para a Casa Branca uma máxima da realpolitik ironicamente apropriada anteriormente por caudilhos latino-americanos: para os amigos, tudo, para os inimigos, a lei. Aliados, entre eles os presidentes da Argentina, Javier Milei, e de El Salvador, Nayib Bukele, “são mimados e recebem ajuda política e financeira”, enquanto estudantes latino-americanos com visto em dia “são perseguidos e presos pela Imigração”. Quem não cede à coerção de Washington, leva porrete, retórico, vide a menção ao ego de Lula, ou real, como na interferência em eleições na região e na substituição à força de Nicolás Maduro por Delcy Rodríguez em Caracas. Ao apoiar ações militares externas e se tornar uma espécie de vice-rei da Venezuela, administrando o país de Washington, Rubio, aponta o colunista, se revelou "o filho sacrílego do neo-conservadorismo da era Bush Filho com o Maga”. Uma espécie de Frankenstein da direita, em reinvenção possível para o trumpismo em 2028.
Aos 55 anos, o político tende hoje, apontam de forma reservada figurões estaduais do Partido Republicano, a se acomodar na segunda posição em eventual chapa comandada pelo atual vice-presidente, JD Vance, para a sucessão de Trump. Erra, no entanto, quem ler no eventual arranjo, vá lá, contenção de ego. Nas palavras de Arellano, ainda é cedo, e “Marco Rubio está apenas começando”.
O GLOBO

