Eduardo Affonso
Lá se foi o Brasil, pela sexta vez, rumo ao hexa. E, em vez de nos dedicarmos a pintar asfalto, pendurar bandeirola e tirar do armário a vuvuzela, somos 213 milhões em ação criticando o uniforme do escrete canarinho. Cansados de ser especialistas em logística naval no Estreito de Ormuz, em definição de “grupo terrorista” e em escala 6 x 1, viramos fashionistas. Tudo porque o traje social da seleção divide opiniões: há quem ache feio, há quem ache horroroso.
É que você, torcedor ingrato, não capta as referências e não entende que, em moda, o resultado é o de menos — o que importa é o conceito.
Sim, parece que os jogadores estão de pijama — uma forma de nos lembrar que é preciso continuar sonhando em ser campeões. Mesmo numa disputa em que também estejam Espanha, França, Inglaterra, Argentina e Portugal. Sem contar Alemanha, Holanda, Bélgica, Noruega, Colômbia e meia dúzia de outros sérios candidatos a nos mandar pra cama mais cedo.
Sim, lembram internos do sistema prisional — o que sugere uma crítica subliminar à demora em políticos, juízes e gestores públicos serem agraciados com tornozeleiras eletrônicas ou introduzidos no ambiente carcerário.
Dir-se-ia tratar-se de enfermeiros — uma forma empática e sutil de mostrar que estarão ao lado do Neymar na lesão e na entorse, na queda e na contusão. Ou talvez sejam técnicos de laboratório de análises clínicas, reforçando a ideia de que todos ali darão o sangue pela vitória.
A fatiota pode também evocar uma convenção da firma, daquelas com treinamento de liderança, imersão em coaching e palestras sobre mindset, protagonismo e metas disruptivas para o terceiro trimestre. Pode e deve, porque é exatamente disso que se trata.
- A foto oficial, no avião, parece ter sido feita numa oficina mecânica? Parece. A ideia daquela modelagem desconstruída, com o caban sem estruturas internas ou ombreiras, é nos dar a sensação de que a seleção passou por um processo de alinhamento e balanceamento, talvez até de cambagem. Que nada os freará no ataque e que têm tração suficiente para evitar o arrefecimento na defesa. Que a direção do elenco será firme e não haverá problema de suspensão.
(Caso você, como eu, esteja sendo apresentado neste momento ao mundo da alfaiataria, caban é uma espécie de casaco, ali entre o blazer e o jaleco, só que mais metido a besta. É o que os jogadores estão vestindo, no lugar do bom e velho paletó.)
Aquele look desestruturado remete, ainda, às nossas instituições cada vez menos democráticas, ao desequilíbrio entre os podres poderes da República, ao tariflávio e ao rombo bilionário dos Correios.
Por isso, antes de reclamar do problemático uniforme, pense que a CBF poderia ter contratado a Balenciaga, e nossa pátria de chuteiras estaria embarcando de chinelo de dedo, bermuda destroyed e camiseta regata de campanha eleitoral, carregando seus pertences numa sacola de plástico de supermercado. Tudo a um custo muitíssimo maior.
Melhor acreditar que o pior que poderia acontecer já aconteceu — no uniforme, não em campo. E agora é bola pra frente, futebol é uma caixinha de surpresas, treino é treino e jogo é jogo, são 11 contra 11, é vencer ou vencer, empatar fora de casa é um bom resultado, o importante é competir e vamos correr atrás do prejuízo.
Vai, Brasa!
GLOBO
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