"O que mais me marcou foi o modo como ele falava da morte sem transformar isso em mito. O pior, ele disse, não foi morrer. O pior foi descobrir que estava morrendo. Receber essa notícia por partes. Em exame, em porcentagem, no corredor de hospital, em dias da semana que passam a ter peso próprio. Como se o tempo deixasse de ser tempo e virasse um aviso. A morte deixa de ser evento. Vira estado. Vira presença. E, ainda assim, ele continua. Trabalha. Desenha. Escreve. Acorda cedo. Produz página. Volta para a mesa. Como se o trabalho fosse a última forma de negar a dissolução. Ou a única forma de não mentir."
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