Nem Lula nem Flávio, quem vai ganhar o debate sobre facções terroristas são os marqueteiros
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Renato Meirelles
No Morro do Alemão, a Dona Edcléia aplaudiu quando viu a operação policial que deixou mais de cem mortos meses atrás. "Tem que ser duro com bandido mesmo". Na semana seguinte ela viu no filho de 16 anos saindo para o curso ser parado pela terceira vez na semana pela PM, enquanto um estudante de medicina do bairro vizinho passava pela mesma esquina sem ser importunado. "Essa polícia só atrapalha a vida dos pobres", reclamou. A mesma boca que aplaudiu xingou. Não é incoerência, é a mesma exigência: Estado, com a mesma medida para o filho dela e para o filho dos ricos
No Instituto Locomotiva, temos feito uma série de pesquisas sobre como a violência tem se tornado uma grande pauta eleitoral. Com a decisão do governo americano de tornar o CV e o PCC organizações terroristas, fui lembrar um pouco do que aprendemos.
O eleitor brasileiro carrega essa contradição sem pedir desculpa. Quem lê como inconsistência lê pela lente errada. A contradição não é defeito do eleitor, é a estrutura do voto popular.
Olha o filme do último ano. Julho de 2025: Eduardo Bolsonaro em Washington pedindo o tarifaço. Seis em cada dez brasileiros chamaram aquilo de injustificado, metade viu ataque à soberania, e a família Bolsonaro sumiu do noticiário por meses. Maio de 2026: Flávio Bolsonaro na mesma Casa Branca, agora pedindo a designação de PCC e Comando Vermelho como terroristas. O instrumento é o mesmo: pressionar o Brasil de fora para mexer no jogo interno. O que mudou foi a moldura. Ontem era salvar o pai, hoje é prender bandido. Quem governa a moldura governa a eleição.
O brasileiro entende, sem precisar articular, que da União se espera inteligência, cooperação internacional, asfixia financeira, exatamente o que cabe no anúncio americano. Do estado, PM na esquina. Do município, luz no ponto de ônibus. Por isso o ato pode cair bem agora, porque encaixa na expectativa de inteligência. Mas se virar drone em Guarulhos, ou banco congelando conta do primo brasileiro no texas, vira tarifaço com outra roupa.
E aqui o eleitor para. Quem vai vencer essa história não é Lula, não é Flávio. Quem vai vencer são os marqueteiros. A eleição de 2026 não vai se decidir na pesquisa, vai se decidir no estúdio. Ganha quem montar o videozinho de trinta segundos que entra no Reels da Dona Edcléia entre uma receita e um corte de gospel. Perde quem ficar discutindo Itamaraty na TV Senado.
A direita já tem a frase pronta: "Enquanto Lula falava em soberania, Flávio resolveu na Casa Branca o que o Planalto não resolveu em 17 anos." Tem inimigo nomeado, ritmo de Reels, e vai rodar.
A esquerda ainda testa: "A mesma família que pediu ao americano para asfixiar o agro em 2025 pede agora para vigiar o brasileiro em 2026. Quem foi pedir ingerência para salvar o pai não para depois." Também roda, se o marqueteiro fugir da armadilha da soberania abstrata. Discurso de Itamaraty não bate no coração da Edcléia. Estrangeiro mandando no Brasil, sim.
O brasileiro pragmático faz uma pergunta que ninguém formulou ainda. Se
for para entregar o controle do país, ele não quer. Se for para prender
bandido, ele quer. E pergunta quem garante qual dos dois vai ser. A
campanha que responder essa pergunta primeiro ganha. Não é guerra de
fatos, é guerra de quem conta melhor. E nessa guerra, o roteirista vale
mais do que o herói.
O GLOBO

