Flávio Bolsonaro escolhe a pior desculpa possível -- e aposta que vai colar

LEONARDO SAKAMOTO
Flávio Bolsonaro visitou Daniel Vorcaro em casa após a primeira passagem do banqueiro pela prisão devido às falcatruas do Banco Master e à tentativa de fuga para Dubai. Publicada pelo site Metrópoles, a história forçou o senador a se pronunciar. Ele tinha duas alternativas: contar o que conversaram de fato ou chamar o Brasil inteiro, especialmente seus eleitores, de besta. Escolheu a segunda opção.
"Estive com ele mais uma vez quando ele passou a usar o monitoramento eletrônico, não podia sair da cidade de São Paulo. Fui, sim, ao encontro dele para botar um ponto final nessa história, dizer que, se ele tivesse me avisado que a situação era grave como essa, eu já teria ido atrás de investidor há muito mais tempo", disse em coletiva hoje.
Já tinha sido forçar a amizade o senador afirmar que não havia nada contra Vorcaro durante o período em que ele lhe prometeu lealdade eterna ("Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente") e pediu R$ 134 milhões. O próprio Flávio Bolsonaro reconheceu o momento pelo qual o banqueiro estava passando era "dificílimo". Mas o homem que já era tóxico após a prisão, ficou ainda mais tóxico. E mesmo assim, ganhou uma visita do senador.
O que Flávio quer convencer é que ele preferiu fazer à moda antiga e romper pessoalmente. Nada de ghosting, nada de tchau pelo zap. Ahã, Claudia, senta lá.
É a pior justificativa que alguém poderia dar, mas considerando o beco sem saída em que está o senador, ele resolveu dobrar a aposta. Sabe que vai perder, pelo menos por enquanto, parte do eleitorado independente. Mas também tem consciência de que a maior parte da extrema direita estará com o seu clã mesmo se surgir um vídeo dele torturando filhotes de gato ou espancando um doguinho indefeso. Basta uma desculpa, por mais tosca que seja.
Uma coisa, contudo, é o comportamento do eleitor médio da extrema direita. Outra é como a classe política vai reagir. Deputados, senadores, lideranças partidárias são espertos, sabem que, a cada nova resposta, o senador se afunda mais. E isso faz diferença na hora de composição de alianças.
E, neste momento, há muita gente no entorno do clã com medo, não do que já apareceu, mas do que ainda pode surgir. Flávio Bolsonaro prometeu que não brotaria mais nada de bombástico, e brotou — o que prova que não dá para confiar nele.
A candidatura continua de pé e, a meu ver, competitiva. Vai depender, a partir de agora, de quantas vezes o primogênito de Jair tiver que abrir a boca para se justificar. Pois a cada vez que ele se enrola, sua madrasta, possível presidenciável, sorri.
O eleitor da extrema direita é fiel por convicção, não por avaliação. Esse não vai embora. O problema é o eleitor que estava considerando Flávio como alternativa — o que cansou do PT mas ainda não engoliu o bolsonarismo de carteirinha. Esse eleitor tem memória curta, mas não tão curta assim. E dizer que ele visitou um bandidão que tinha acabado de sair do xilindró para "botar um ponto final nessa história" entre ambos não é o tipo de desculpa que some da cabeça com facilidade.
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