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    sábado, março 05, 2022

    Sommelier de tristezas

     

    Flávia Boggio

        Há aproximadamente 80 mil anos, em alguma fogueira nas montanhas da Etiópia, um 
nômade chorava ao saber que moradores da aldeia vizinha foram devorados por tigres dentes-de-sabre.

    Ao ver o lamento do nômade, um parente comentou com desdém: "Quando a aldeia do sul foi pisoteada por mamutes, você não falou nada".

    Foi o surgimento do primeiro exemplar de uma nova subespécie de Homo sapiens: o "sommelier de tristeza". Assim como o sommelier de vinho, o sommelier da tristeza é chato. E sente prazer em diminuir o sentimento alheio como se degustasse uma sidra Cereser.

    Também conhecido como "sommelier do luto", tem 
sempre uma resposta pronta para qualquer lamúria ou 
insatisfação, para deixar claro que quem sofre é uma pessoa pequena e mesquinha.

    Muitas vezes, ele ataca com ondas de energia positiva, com conselhos como "a vida é boa" ou "olha que dia bonito". Ou com laudos médicos como 
"pelo menos você tem saúde", como se a saúde mental não fizesse parte do pacote.

    Há também o sommelier de tristeza preguiçoso, que solta um "não fica triste", porque a pessoa estava só esperando esse conselho para ficar feliz.

    Já o sommelier egocêntrico não pode ver uma mãe doente, que responde com um "pior é a minha, que teve o pé amputado". Se você tiver enxaqueca, ele vai replicar: "E meu primo, que tem um gêmeo siamês crescendo dentro do cérebro?".

    A chegada da internet funcionou como um passaporte da alegria —ou da tristeza— para esses sommeliers, que passaram a infernizar a dor de qualquer desconhecido 
das redes sociais. Alguém se choca com assassinato? "Todo dia matam e ninguém fala nada." Uma celebridade morre? "Quanto fã apareceu agora, né?" Aconteceu um atentado? "Quando tem chacina em outros 
lugares ninguém fala nada."

    A crise na Ucrânia serviu como um prato cheio —ou meio vazio— para os sommeliers da tristeza, que passam o dia na internet esperando alguém se lamentar para atacar com "tem guerra no mundo todo e você não se abala", "mas a Otan não é santa". "Tem gente morrendo em (complete com uma região) e ninguém faz nada."

    O ser humano é complexo o suficiente para sofrer por diversas causas e chorar por diferentes guerras. E lutar por mudanças. Bem mais produtivo do que perder tempo 
julgando a dor dos outros.

    folha 

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